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Corinthians adota causa certa, mas erra no tom e no timing

A transformação da Libertadores numa competição mais segura e organizada é indispensável. Mas isso não vai acontecer apenas com as bravatas dos cartolas

Por Da Redação 27 fev 2013, 13h42

“Não existe aeroporto a menos de 200 quilômetros do centro de Oruro. Tivemos que pegar um avião fretado até um aeroporto com palafita, esgoto a céu aberto, cachorro atravessando a pista. Paciência, todos viram o que aconteceu”, disse Roberto de Andrade, que não explicou qual é a relação entre o aeroporto ruim e a morte de Kevin Estrada

Na noite de terça-feira, antes mesmo que a tragédia de Oruro completasse uma semana, a Copa Libertadores de 2013 quase registrou mais um desastre. Torcedores do Peñarol, do Uruguai, e do Vélez, da Argentina, travaram uma verdadeira batalha nas arquibancadas do Estádio Centenário, em Montevidéu. O local, de enorme importância histórica para o futebol (foi palco da final da primeira Copa do Mundo, em 1930), ficou bastante danificado. Pedras e garrafas foram arremessadas, cadeiras foram quebradas, vidros dos camarotes foram destruídos. Sete pessoas ficaram feridas e duas foram presas por envolvimento na briga. Horas antes, em São Paulo, a diretoria do Corinthians, atual campeão da competição e segundo clube mais popular do país, anunciava uma mudança de postura em relação à sua participação no torneio. De acordo com os cartolas, a instituição pretende combater os problemas do torneio, principalmente no que se refere à segurança. “Vamos ficar de olho”, avisou Roberto de Andrade, diretor de futebol corintiano, prometendo denunciar qualquer irregularidade observada pela delegação do clube nas partidas da competição – e ameaçando até abandonar as partidas em que ocorrer alguma falha de segurança. “A partir de agora o Corinthians trará tudo que estiver errado à tona. Se for preciso parar o jogo porque algo está descumprindo o regulamento, vamos parar.”

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Responsabilidade – De acordo com Roberto de Andrade, a pena imposta ao Corinthians pela morte do torcedor boliviano Kevin Espada é injusta porque o clube não pode ser responsabilizado pelo ocorrido. O cartola lembrou, com razão, que o San José também deveria ser punido com a interdição do estádio em Oruro, já que o uso de sinalizadores não foi coibido no local e a revista feita pela polícia nos portões foi falha. O regulamento deixa claro, porém, que o clube está sujeito a ser punido caso sua torcida provoque alguma tragédia – e não existe dúvida alguma de que o sinalizador foi disparado por um brasileiro (seja ele o menor que confessou, seja um dos doze detidos na Bolívia). Ainda assim, os integrantes da cúpula corintiana decidiram partir para o ataque, voltando suas baterias tanto para a Conmebol como para os outros clubes. “Quem faz o evento tem que assumir a responsabilidade por ele. Não adianta sair punindo os outros”, discursou Andrade, atacando a confederação. “Ela era a responsável pelo evento. O Corinthians era visitante. Onde você joga na América do Sul que tem segurança? Não existe”, completou, prometendo encaminhar à entidade imagens de várias partidas em que foram usados sinalizadores no torneio. Um dos jogos citados por Andrade foi Atlético-MG x São Paulo, em Belo Horizonte (que transcorreu sem problemas). Foi outro tropeço dos cartolas: ao invés de angariar o apoio dos outros dirigentes brasileiros, algo indispensável para que a iniciativa do clube tenha sucesso, o Corinthians exibiu um vídeo para mostrar que os torcedores de outros times do país também acenderam sinalizadores.

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“Não estou peitando ninguém nem desafiando ninguém. Só estou cobrando que o regulamento seja cumprido. Se existe para um, existe para todos”, insistiu Andrade. No pior momento de seu pronunciamento, o cartola causou espanto entre os jornalistas ao deixar de lado a discussão sobre a violência para se queixar da pobreza da cidade boliviana onde aconteceu a tragédia. “Se levar o regulamento ao pé da letra, não teríamos nem jogado em Oruro. Não existe aeroporto a menos de 200 quilômetros do centro da cidade”, disse, em referência a um item exigido dos times participantes. “Tivemos que pegar um avião fretado até um aeroporto com palafita, esgoto a céu aberto, cachorro atravessando a pista. Paciência, todos viram o que aconteceu.” O cartola não explicou qual é a relação entre o que aconteceu no estádio e o fato de Oruro ter um aeroporto ruim. Roberto de Andrade reconheceu que “talvez se o Corinthians não tivesse sido punido, não estaria ali” reclamando dos problemas da Libertadores. Ele negou, porém, que as perdas financeiras com o fechamento dos portões nos jogos em São Paulo sejam o motivo da revolta. “Estamos preocupados com o problema da segurança de todos os clubes, não só do nosso. As pessoas têm que parar de se esconder. Cada um que assuma sua responsabilidade.” De novo, uma posição correta – desde que a instituição fizesse sua parte e parasse de auxiliar torcedores que têm envolvimento comprovado em casos graves de violência.

(Com Estadão Conteúdo e agência Gazeta Press)

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