Copa: final entre Argentina e Espanha premia o futebol e o espetáculo do maior dos mundiais
Com 48 seleções, o gigantismo deu certo e merece aplausos
A estátua de Prometeu, de 5,5 metros de altura e 8 toneladas de bronze fundido, tingida de dourado, é um dos mais celebrados ícones de Nova York, ponto de referência para quem visita o Rockefeller Center. Nos últimos dias, o titã da mitologia grega que roubou o fogo dos deuses para dá-lo à humanidade, como símbolo do conhecimento e do progresso, instalado naquele canto de Manhattan desde 1934, ganhou um vizinho luminoso e amarelo, ímã de imensas filas: uma réplica do troféu da Copa do Mundo, feita com 1 milhão de peças de Lego, em brincadeira de 8,5 metros.
Não por acaso, a transição dos monumentos, de uma ode à civilização para a celebração do entretenimento, é retrato do sucesso comercial — faturamento estimado para a Fifa de 8,8 bilhões de dólares, o equivalente a 46 bilhões de reais — do maior de todos os mundiais, com 48 seleções distribuídas em três países, nos Estados Unidos, México e Canadá. Foi também o melhor de todos os torneios, do ponto de vista do desempenho das seleções, das estrelas que, chamadas a brilhar, não decepcionaram — à exceção de um certo brasileiro de camisa 10 que emendou a competição com uma disputa internacional de pôquer.
Para começo de conversa, os roteiristas da festa devem agradecer aos deuses do futebol e ao Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, a chance de os quatro semifinalistas — Espanha, Argentina, França e Inglaterra — já serem campeões do mundo, em feito que não acontecia desde 1990. Calhou também o ineditismo de os quatro serem os líderes do ranking da Fifa, além de ostentarem os melhores ataques da competição. E mais: a finalíssima entre a Argentina de Lionel Messi e Enzo Fernández e a Espanha de Rodri e Lamine Yamal tem tudo para ser extraordinária, ao reunir pela primeira vez o campeão da Copa América e o vencedor da Euro. Os argentinos buscam o bicampeonato sucessivo, feito que apenas o Brasil de Pelé e Garrincha conseguiu em 1958 e 1962 e, antes, a Itália em 1934 e 1938. Sonham com o tetra. Os espanhóis tentam o segundo título, depois da conquista de 2010.
A Fúria despachou a França de Mbappé, Dembélé e Olise por 2 a 0, tida e havida como a equipe mais forte, levada a disputar apenas o terceiro lugar em Miami, lambendo as feridas de uma tarde irreconhecível contra os espanhóis, em apagão que remete ao desastre do Brasil naquele 5 de julho de 1982, o escrete de Zico, Sócrates, Falcão e cia. derrotado pela Itália. Para os franceses, no 14 de julho de 2026, a Bastilha caiu em Dallas. Os albicelestes derrotaram os ingleses, que venciam a semifinal até os 40 minutos do segundo tempo. E então, como em toda a Copa de 2026, a Argentina deu um jeito de virar, 2 a 1, na raça, de modo admirável, quando parecia não haver mais esperança. Foi assim contra Cabo Verde, na prorrogação, em vitória por 3 a 2. Foi assim contra o Egito, no tempo regulamentar, em igual placar. E há, na Argentina, um fabuloso jogador, que faz a diferença, joia de nosso tempo. Messi, aos 39 anos, é o artilheiro do mundial, com oito gols, ao lado de Mbappé. Na história dos mundiais, ninguém marcou mais do que ele, com 21 tentos, um a mais do que o francês.
Ter o canhoto na finalíssima, embora não se deva esquecer da imensa qualidade do toque de bola da Espanha, é outro magnífico capítulo do inesquecível verão na América do Norte — e nunca mais uma Copa será a mesma. Para além do esporte, houve Donald Trump forçando a barra ao pedir ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, que anulasse o cartão vermelho de um jogador da seleção dos Estados Unidos. Houve o desrespeito previsível com o time do Irã, forçado a se instalar no México, embora jogasse em território americano. Houve uma montanha de equívocos alimentados pelas decisões do VAR — a Argentina foi favorecida, a “VAR-gentina? —, mas houve também a emoção do Cabo Verde do goleiro Vozinha e a beleza da torcida inglesa levando os Leões para a frente ao ritmo do Oasis e dos Beatles — hey, Jude Bellingham, que bela Copa você fez. O fracasso desenhado não ocorreu — nem em campo, apesar de partidas entre times sem relevância no futebol, como Escócia e Haiti, nem no humor da torcida, com 99% de ocupação nos estádios. E então, o soccer virou futebol — embora, pelas bandas de lá, amanhã mesmo volte a ser soccer. Como disse a VEJA o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani: “A Copa é um exemplo de como o mundo poderia ser”.
Como espetáculo, e que espetáculo foi, em evento imaginado para a televisão e, agora, também para o YouTube e congêneres — audiência estimada em 6 bilhões de pessoas —, houve mudanças que soam definitivas. Deu mais do que certo. A começar pelo início dos jogos, antes da contagem regressiva para o apito, com as seleções perfiladas para os hinos no círculo central, ao lado de bandeirões, como se fosse o abrir de cortinas de uma ópera épica. As tão criticadas paradas para hidratação, que criaram o futebol em quatro tempos, ao mudar o ritmo das partidas, serviram também à propaganda, com outros dois intervalos de três minutos cada, afeitos ao tilintar das caixas registradoras. A câmera instalada na cabeça dos juízes ofereceu ângulos improváveis de lances fundamentais, tornando a experiência de estar no sofá de casa, na mesa de um bar, entre amigos, ainda mais empolgante.
Tanta visibilidade, de tantos ângulos, ajudou a criar, por assim dizer, ídolos pop, catapultados pelas redes sociais, é claro; multiplicados pelas ferramentas de inteligência artificial. Erling Haaland, o carrasco do Brasil, foi recebido em Oslo com imensa festa e alguma polêmica. Levava no braço uma bolsa Dolce & Gabbana avaliada em 150 000 reais e um guaxinim empalhado segurando uma garrafa de uísque, suvenir típico do Texas, comprado por 750 dólares. Houve ruído ao descer na Noruega com um animal tratado com taxidermia, problemático em um país de aplaudido zelo ambiental. O desconforto só não foi maior porque o entusiasmo pelo ótimo desempenho no Mundial desfez os nós.
Afinal, o show precisa e vai continuar. Não será surpresa se em 2030, no centenário das Copas, com o torneio em seis países — um jogo na Argentina, outro no Uruguai e um terceiro no Paraguai, com o restante na Espanha, Portugal e Marrocos —, houver 64 seleções. Nem é má ideia, já que evitaria a classificação para o mata-mata dos oito terceiros melhores colocados, como foi agora. Em dezesseis grupos de quatro, apenas os dois primeiros passariam para a fase de 16 avos de final, em busca renhida. Apesar da postura sempre um tanto autoritária da Fifa, apesar dos tropeços, apesar de Infantino ter queimado muito combustível com o jato particular que o levou para cima e para baixo, no avesso do suposto zelo da cartolagem para cuidar do ambiente e evitar as pegadas de carbono, terão sido quarenta dias empolgantes. Uma Copa, afinal, é o mundo como gostaríamos que fosse, na definição de Zohran Mamdani — mas é também um mundo de contradições. Do escritor americano Paul Auster (1947-2024), que viveu um tempo em Paris e lá pegou gosto pela bola redonda, e não a oval: “O futebol substitui a guerra. Enquanto os países forem capazes de se enfrentar nos gramados, poderemos contar as baixas nos dedos de duas mãos. Uma geração atrás elas eram calculadas aos milhões”. Viva a Copa do Mundo, misto de Prometeu com Lego. E que bom termos, no derradeiro instante, como corolário inigualável, Lionel Messi e Lamine Yamal em campo, vinte anos de diferença entre eles, o passado, o presente e o futuro de mãos dadas.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004
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