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Como torcedores vândalos ajudaram a afundar Palmeiras

A truculência das organizadas fez a equipe ficar acuada - e mais sujeita a falhar

“A violência dos torcedores extrapolou os limites legais e se tornou caso de polícia, coisa de bandidagem”, diz a psicóloga Suzy Fleury, que já trabalhou na seleção e no próprio Palmeiras

Na hora de tentar explicar o rebaixamento do Palmeiras, no domingo, os jogadores da equipe paulista falaram várias vezes em azar. Em várias partidas decisivas, lembraram eles, o time até ia bem, encarava o adversário de igual para igual e ficava próximo da vitória, mas acabava falhando em lances individuais, tanto na defesa como no ataque. As deficiências técnicas do próprio time ajudam a explicar isso, evidentemente. Mas é certo também que boa parte do problema era a situação de extrema pressão a que os atletas foram submetidos, principalmente em função da truculência dos integrantes das torcidas organizadas do clube. Não é exagero dizer que os vândalos que depredaram o clube, fizeram ameaças e passaram do limite em suas cobranças são, também, responsáveis pelo rebaixamento – até porque a perda de mandos de campo na reta final do campeonato, causada justamente por eles, foi um fator decisivo para a queda. Ao invés de jogar no Pacaembu, o time teve de rodar pelo interior de São Paulo, decidindo seu futuro longe de casa – e, portanto, ainda mais fragilizado e sem confiança.

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Porta da loja do Palmeiras foi pichada após derrota no clássico Porta da loja do Palmeiras foi pichada após derrota no clássico

Porta da loja do Palmeiras foi pichada após derrota no clássico (/)

Enfrentamento – Para a psicóloga, o torcedor é tão fanático que não analisa as circunstâncias do jogo – só o resultado do placar interessa. Com isso, ele perde a noção dos limites de suas cobranças. “O problema é que a frustração é do mesmo tamanho da expectativa, e a raiva acaba vindo junto”, explica. A psicóloga afirma que o atleta de alto rendimento tem de fazer o máximo para não se submeter a fatores extracampo, como a pressão de torcedores ou questões familiares, por exemplo. “O lado profissional precisa falar mais alto, independentemente do que aconteça, a favor ou contra.” Ela reconhece, porém, que a missão era bem mais dura no caso dos atletas palmeirenses – e lembra que o ônus do rebaixamento não deve pesar apenas sobre os jogadores. Na opinião dela, os problemas de gestão do clube impactaram diretamente no desempenho da equipe. “Houve muitas contratações e dispensas. Vários atletas foram contratados a peso de ouro e não renderam o esperado”, destaca.

De acordo com Suzy Fleury, o comportamento dos torcedores brasileiros mudou nas últimas décadas, muito em função do aumento da rivalidade entre adversários tradicionais como Palmeiras e Corinthians. “Hoje, muitos torcedores ficam mais felizes em ver o desastre do adversário do que a vitória do próprio time”, diz a especialista, que estuda a violência dentro e fora do campo há cerca de dez anos. Diante dessa situação, os clubes precisam investir ainda mais na preparação emocional de seus jogadores, principalmente diante de situações decisivas vividas nas etapas finais dos torneios que disputam. “É preciso aumentar a capacidade de enfrentamento do problema. Ou seja, focar nas chances de sucesso e ‘fechar’ o grupo diante de um objetivo”, indica ela. “Mesmo quando está pressionada, uma equipe precisa tentar resolver o problema de forma racional e ter uma atitude mental positiva.” Mas quando batalhões de vândalos ameaçam usar a violência para caçar culpados por uma eventual derrota, tudo isso fica muito mais difícil.