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Como se diz Schadenfreude em espanhol?

“Primeira lição da endiabrada Copa de 2014: o gol é necessário como havia muito tempo não vinha sendo”

Duas torcidas rubras, embora o time do coração de uma delas tenha jogado de branco, tornaram as arquibancadas do Maracanã o cenário apropriado para o espetáculo sangrento que se viu em campo. Não que Chile 2 x 0 Espanha tenha sido um jogo violento, de modo algum. Em mais uma das belas festas futebolísticas propiciadas por esta Copa fora de série, o sangue foi metafórico e rolou na degola prematura da seleção campeã do mundo, para delírio de algumas dezenas de milhares de torcedores chilenos que deram ao estádio um clima típico de Libertadores da América – algo que poderia servir de lição à torcida brasileira morninha que temos visto por aí.

Havia pinceladas vermelhas também no céu do Rio de Janeiro no fim da tarde. Combinavam com a dose de melancolia que, excluídos os eufóricos chilenos, mesmo os torcedores menos empolgados com as glórias passadas da Espanha dificilmente terão deixado de sentir. Como não lamentar a partida prematura de um craque como Iniesta, que ontem, faltando poucos minutos para o fim do jogo, acertou um chute de fora da área à la Kaká no ângulo esquerdo do goleiro Bravo, dando-lhe a chance de ter seu momento Ochoa?

A eliminação dos detentores do título mundial na primeira fase da Copa não é novidade, pelo contrário: tem sido quase uma regra nos últimos anos. No entanto os fracassos da França em 2002 e da Itália em 2010, mesmo embaraçosos, não tiveram esse ar solene de fim de uma era que o da Espanha tem. Está provado de uma vez por todas que o futebol que nos últimos anos fez uma geração espanhola notável dominar o mundo já não funciona. Os cânticos entoados pelos chilenos no Maracanã foram o réquiem.

Bola da VEJA: como VEJA mostra a Copa do Mundo

Cronicamente pouco ofensivo, o estilo espanhol era baseado numa troca vertiginosa de passes curtos para impedir que o adversário jogasse – ou seja, numa posse de bola acachapante – e dependia de uma precisão que mesmo seus inventores, hoje envelhecidos, já não são capazes de ter. Tentou-se então um meio-termo: um pé na roda de bobo, o outro no futebol vertical, com Diego Costa encarregado de dar ao time um pouco mais de objetividade. Isso parece ter agravado o problema, que deixou de ser futebolístico para virar psicológico ou existencial. A Espanha que veio ao Brasil não sabia mais o que era.

Mesmo em seus melhores momentos, nunca fui um grande entusiasta do fino toque de bola de Xavi e Iniesta. Comemorei quando o Barcelona perdeu do Bayern de Munique na Liga dos Campeões e mais ainda, claro, quando o Brasil derrotou a Espanha na Copa das Confederações. Schadenfreude, como os alemães chamam a alegria que se sente com o infortúnio alheio, não explica tudo. Aqueles primeiros sinais de que a maré do futebol estava virando apontavam para o ressurgimento de uma verdade que prezo muito e que o cronista Paulo Mendes Campos expressou de forma lapidar: “O gol é necessário”. Se alguma lição já pode ser tirada da endiabrada Copa de 2014, que hoje completa apenas uma semaninha de idade, é esta: o gol é necessário como havia muito tempo não vinha sendo. Que os espanhóis me perdoem, mas essa é uma ótima notícia.

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