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Como funciona (e como ver na TV) a Fórmula 1 dos drones

Na nova modalidade de competição, as aeronaves atingem 140 quilômetros por hora e os prêmios pagos aos vencedores podem chegar a 1 milhão de dólares

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 27 set 2019, 22h40 - Publicado em 27 set 2019, 06h55

A cena futurista parece ter saído da tela de um videogame, mas é real e se materializa em uma escala bem maior que a da telinha. Na arena onde o evento ocorre, com a presença de milhares de pessoas na plateia, os competidores ficam confortavelmente sentados, guiando a ação através de um radiocontrole, enquanto seus pequenos foguetes, cada um deles com uma cor diferente, riscam o céu a mais de 140 quilômetros por hora, deixando um rastro iluminado na passagem. Na parte dianteira das máquinas voadoras, uma câmera de alta definição transmite diretamente para os visores dos corredores as imagens do “cockpit”. O recurso, conhecido pela sigla em inglês FPV (first person view, ou visão em primeira pessoa, na tradução livre), transporta o piloto para dentro da aeronave. As pistas do circuito se assemelham à trajetória de uma montanha-russa, incluindo vários loopings. O traçado é delimitado pelos “portais”, enormes aros suspensos e iluminados por lâmpadas de LED coloridas, pelos quais os drones são obrigados a passar.

Nova modalidade de esporte radical, a corrida de drones pode ser descrita como a Fórmula 1 dos veículos aéreos não tripulados. A maior e a mais renomada competição é a Drone Racing League (DRL), criada nos Estados Unidos em 2015, já sob medida para conquistar uma plateia planetária com a transmissão das corridas pelos canais fechados de TV. Os drones usados nos rachas pesam menos de 1 quilo e custam cerca de 600 dólares. Para suportarem as constantes colisões, eles têm o “chassi” feito de fibra de carbono. Cada temporada é disputada em oito etapas e, no final, o vencedor embolsa o prêmio de 1 milhão de dólares. Pelo terceiro ano seguido, o torneio será transmitido no Brasil semanalmente pelo canal a cabo ESPN Extra, de 16 de outubro até janeiro de 2020. “É um grande show de manobras”, define Ari Aguiar, narrador da emissora esportiva.

A novidade da temporada será a categoria de drones autônomos, controlados por inteligência artificial. O veículo possui um conjunto de sensores que enviam informações para um computador embarcado na aeronave. O drone também recebe um trajeto parcial (pontos pelos quais ele precisa passar), mas é seu algoritmo que define como ele deve percorrer o caminho. Em outros termos, a máquina toma decisões sozinha. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se especializou nesse tipo de projeto. “É como na Fórmula 1. A tecnologia desenvolvida nos carros de corrida acaba inserida nos automóveis de passeio. No futuro, nosso trabalho será utilizado em várias áreas, como monitoramento ambiental, segurança e agricultura de precisão”, prevê Douglas Macharet, coordenador da XQuad, equipe que concorrerá ao prêmio de 1 milhão de dólares em uma competição no próximo mês em Orlando, na Flórida.

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As maiores provas da modalidade acontecem em estádios de futebol ou arenas poliesportivas — no Brasil, o campo do Athletico Paranaense, em Curitiba, recebeu um evento desse tipo, em maio. O país tem um representante na DRL: Rafael Paiva, o Spook. Praticante de surfe, motocross e skate, o mineiro, de 37 anos, teve seu primeiro contato com drones há cinco anos, quase por acidente. “Sou dono de uma produtora de vídeo e havia contratado um profissional para fazer tomadas aéreas. Mas a pessoa acabou faltando e tive de me virar”, lembra ele, que diz ter aprendido a dominar a máquina em dois dias, com a ajuda de tutoriais no YouTube. Para que pudesse entrar nas corridas, sua preparação demandou bem mais esforço. “Levei cerca de um ano para me tornar um piloto de verdade. É uma atividade que exige muito treino”, afirma. Spook dedica cerca de vinte horas semanais aos voos (reais ou virtuais, através de um simulador). Ele participou pela primeira vez da DRL em 2015 e, no ano seguinte, passou a ser piloto oficial. “O fato de competirmos com o mesmo equipamento, em circuitos inéditos a cada corrida, torna a disputa acirrada, sem grandes favoritismos”, conta Spook. Apesar do equilíbrio, o americano Jordan “Jet” Temkin se destacou com o bicampeonato conquistado nas temporadas 2016 e 2017. A melhor colocação do brasileiro foi o terceiro lugar, em 2018, na etapa da França. Como acontece na Fórmula 1, o Brasil anda meio por baixo na corrida de drones.

Com reportagem de Erich Mafra

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654

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