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Como a briga Real x Barcelona pode destronar a Espanha

Rivalidade explosiva entre os clubes cresce e ameaça rachar a seleção campeã do mundo. O técnico Del Bosque saberá costurar uma trégua, como em 2010?

Por Giancarlo Lepiani - 12 abr 2014, 08h02

Casillas disse, meio brincando, meio a sério, que queria dar um “puxão de orelha” em Busquets no próximo encontro com o colega de seleção. Xavi não gostou e disse, em público, que “um companheiro da equipe nacional está sendo injusto” com o volante

A seleção espanhola de futebol chegou à Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, embalada por enormes expectativas – mas também cercada de muitas dúvidas. A equipe era a campeã da Europa, tinha um grupo talentoso e competitivo e vivia um ótimo momento. Faltava, porém, dissipar uma das suspeitas que sempre cercaram o selecionado ibérico: seria possível debelar os focos de tensão e atrito entre os jogadores vindos de Madri e da Catalunha, eternamente envolvidos na acirradíssima rivalidade entre o Real e o Barcelona? O time do técnico Vicente Del Bosque era formado basicamente por atletas dos dois principais clubes do país, e uma relação harmônica – ou, pelo menos, minimamente civilizada – era absolutamente indispensável para o sucesso da Espanha no torneio. O esforço diplomático do treinador (que era muito ligado ao Real Madrid) funcionou. A Fúria transformou-se numa mescla muito bem-sucedida das alas madrilenhas e barcelonistas. Depois de uma longa espera, o país enfim celebrou a conquista de seu primeiro Mundial. Bem, pelo menos uma parte do país: na Catalunha, muitos ficaram indiferentes ao triunfo espanhol – ou pior, torceram contra a seleção nacional na decisão, apoiando a Holanda (cujo futebol tem laços profundos com o Barça).

Passados quatro anos, a Espanha se prepara para vir à Copa no Brasil com um status totalmente diferente – agora, é uma das favoritas. Líder do ranking da Fifa e bicampeã europeia, a equipe preservou os heróis do triunfo de 2010 e ainda absorveu no elenco valores muito promissores, ampliando ainda mais o leque de opções à disposição de Vicente Del Bosque. Nesse intervalo, entretanto, muitas outras batalhas separaram os representantes da capital e da Catalunha. Desde logo depois do Mundial, quando o controverso técnico português José Mourinho assumiu o comando do Real, os clássicos com o Barcelona transformaram-se em batalhas ainda mais virulentas, sempre com lances ríspidos, provocações, troca constante de xingamentos e empurrões e críticas mútuas através da imprensa e das redes sociais. Mourinho, visto na Espanha como o maior culpado por acirrar ainda mais os ânimos entre os dois lados, foi embora no fim da última temporada europeia. O clima de guerra, porém, continuou. No mês passado, o Barça foi a Madri e derrotou o Real num dérbi eletrizante: 4 a 3. No time da casa, o incômodo com o resultado adverso foi amplificado com um lance feio do embate: o volante Busquets, um dos barcelonistas mais odiados pelos fanáticos pelo Real, pisou em Pepe, brasileiro naturalizado português do clube de Madri. Foi o início de uma escalada que preocupa Del Bosque a apenas dois meses da Copa.

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‘Espanhoizinhos’ – O que mais alarma o treinador é o fato de os dois principais líderes do elenco – o madrilenho Iker Casillas, o capitão da seleção, e o catal��o Xavi Hernández, principal articulador do time – agora estarem diretamente envolvidos na troca de alfinetadas. Casillas disse, meio brincando, meio a sério, que queria dar um “puxão de orelha” em Busquets no próximo encontro com o colega de seleção. Xavi não gostou e disse, em público, que “um companheiro da equipe nacional está sendo injusto” com o volante. A discussão parou por aí, mas deixou evidente que há feridas abertas na relação entre os inimigos íntimos da Espanha. Para os torcedores da seleção, o que mais preocupou foi justamente o fato de a dupla Casillas e Xavi ter protagonizado a troca de críticas. Se eles, a quem se atribui a manutenção da paz entre os rivais na seleção, entraram em atrito, como estará a relação entre figuras muito menos polidas e pacatas – como o próprio Busquets, o zagueiro Gerard Piqué e seu colega de defesa Sergio Ramos? A Espanha corre o risco de chegar ao Brasil dividida, com panelinhas que reúnem os atletas de acordo com suas origens? E o mais importante: a atual campeã do mundo, que passou os últimos quatro anos sendo temida por todos os adversários, poderá ser destronada pelos próprios problemas internos?

Todas essas perguntas podem começar a ser respondidas na próxima quarta-feira, quando o Real e o Barça voltam a se encarar na final da Copa do Rei, decisão em jogo único valendo o segundo principal troféu do país. O próprio título da competição vem carregado de significado histórico para ambos os lados. Visto como o clube oficial da coroa espanhola, o Real é odiado pelos barcelonistas não só como seu grande adversário no campo, mas também como símbolo da opressão exercida sobre os catalães em diversos períodos de sua história. Em 2011, Piqué foi envolvido numa grande controvérsia justamente por ocasião de uma disputa de Copa do Rei. O Real havia vencido o Barça em mais um clássico com tons bélicos, e a peleja seguinte seria a final da copa. Ao zagueirão foi atribuída a seguinte frase na saída para os vestiários: “Espanhoizinhos, agora vamos ganhar a Copa do rei de vocês”. Piqué negou categoricamente ter feito essa provocação, mas o caso ilustra bem o grau de tensão que cerca os duelos entre as equipes – e como é difícil e a manutenção de um convívio harmônico na hora em que todos se encontram na concentração da seleção (a equipe desembarca no Brasil em 8 de junho, cinco dias antes da estreia no Mundial).

A missão do técnico Del Bosque e seus auxiliares parece ainda mais espinhosa diante da própria formação da equipe titular. A base da equipe toda formada pela mistura entre os líderes do Real e do Barça. O goleiro Casillas comanda a defesa logo atrás de Piqué e Ramos; no meio, Xabi Alonso se une a Xavi e Busquets, com Iniesta logo à frente. Eles são as peças mais importantes da equipe, e o desempenho da Espanha na Copa dependerá do desempenho dessa espinha dorsal. É interessante notar, porém, que a balança pode acabar sendo ajustada justamente pelos atletas que não estão no meio da briga clubística. A seleção espanhola vai poder contar com nomes como Juan Mata, Pepe Reina, César Azpilicuelta, David Silva, Santi Cazorla, Álvaro Negredo e Javi Martínez, todos em atividade em clubes de outros países. Há também Koke, visto como o herdeiro de Xavi, e até Diego Costa, o sergipano que dispensou a seleção brasileira para vestir a camisa vermelha. Caberá a eles também fazer a Espanha ganhar seu primeiro jogo na Copa antes mesmo de chegar ao Brasil, ao acertar uma trégua e deixar a animosidade de lado, pelo menos durante o mês do Mundial.

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