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Com o protagonismo de Trump, nunca uma Copa produziu tanto ruído antes do pontapé inicial

O Mundial no qual o republicano virou o dono da bola será diferente de todos os outros

Por Fábio Altman, de Basking Ridge (Nova Jersey, EUA) 11 jun 2026, 19h00 | Atualizado em 12 jun 2026, 10h12
Com o protagonismo de Trump, nunca uma Copa produziu tanto ruído antes do pontapé inicial Priorize VEJA no Google

Todo pedaço de mundo tem algo a contar — alguns mais do que outros, e muitas vezes o futebol é campo para revelações. São cinco minutos de carro do hotel onde a seleção de Carlo Ancelotti está hospedada, em Basking Ridge, no estado de Nova Jersey, até um endereço fundamental, embora desdenhado, da história dos Estados Unidos. Na esquina da Colonial Drive com a South Finley Avenue, um cotovelo viário repleto de carvalhos e pinheiros esconde uma placa tímida, branca e azul. As pessoas que por ali passam fazendo exercícios no calorão de junho mal a veem. Ela indica a localização do que foi a Taverna da Viúva White, hoje apagada do mapa: “Aqui, em 13 de dezembro de 1776, o major-general Charles Lee, segundo homem do Exército Continental, foi feito prisioneiro pelas patrulhas britânicas”. Soaram as trombetas, com pompa e circunstância, das tropas da Inglaterra e, segundo relato de um oficial que viu a cena naquele inverno nevado, “o infeliz Lee foi levado apressadamente em triunfo, de cabeça descoberta, chinelos e casaco de lã, com a gola aberta e a camisa muito suja de vários dias de uso”.

ALÉM DA FRONTEIRA - A abertura, na Cidade do México: festa internacional
ALÉM DA FRONTEIRA - A abertura, na Cidade do México: festa internacional (Rodrigo Oropeza/AFP)

Era para ser uma evidente derrota, mas o general George Washington deu um jeito de virar o placar e marcar vitória. Lee se recusava a obedecer às ordens do chefe, tinha 5 000 soldados aquartelados em Nova York e se negou a deslocá-los para as margens do Rio Delaware, de acordo com o plano tático que o futuro primeiro presidente dos Estados Unidos desenhara. Lee era, como se diz no jargão da bola, um “traíra”. E, então, tudo virou — Washington, sem Lee, percebeu que era hora de se movimentar, de garantir a defesa da guerra da independência, cujo manifesto tinha sido escrito em 4 de julho, há exatos 250 anos, cinco meses antes daquele episódio farsesco da detenção de um comandante militar rebelde sem causa. Os dirigentes da CBF não elegeram o pouso em homenagem a nada, fizeram a escolha a partir de indicações da Fifa. Mas é fascinante costurar a coincidência da localização, ponto nevrálgico do nascimento de uma nação, com o atual momento dos Estados Unidos de Donald Trump.

Para começo de conversa, ele praticamente sequestrou, por assim dizer, a Copa que está sendo realizada também no México e Canadá. Nem tanto pelo fato de 78 das 104 partidas acontecerem em território americano, mas porque foi comprando briga com os vizinhos. Fez-se amigo de infância do presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, que chegou a condecorá-lo com um infame prêmio de paz. Paz não haverá, porque Trump só respira à base de provocações. Ele não teve dúvida, por exemplo, até em atirar na festança de agora. Instado a comentar o valor de 1 000 dólares, por baixo, por um ingresso da estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai, em Los Angeles, foi na jugular: “Para ser honesto, eu mesmo não pagaria”.

Infográfico sobre a geopolítica do torneio de futebol, com dados sobre jogadores que não representam seu país de origem, atletas com dupla nacionalidade, e a França como país com mais jogadores em diferentes seleções. Inclui uma foto de Timothy Weah, jogador dos Estados Unidos

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Há uma certeza: nunca uma Copa do Mundo produziu tanto ruído antes do pontapé inicial. O torneio dividido em três países será diferente de todos os outros por envolver 48 seleções. No Catar, em 2022, eram 32 times, em 64 jogos. A extravagante dimensão do evento impõe evidentes problemas logísticos. A seleção da Bósnia, por exemplo, terá de viajar 5 059 quilômetros, na primeira fase, entre Toronto, Los Angeles e Seattle. O Brasil deu sorte, e percorrerá 1 075 quilômetros entre Nova Jersey, Filadélfia e Miami.

Brota, ainda, o mercurial nó do calor: quase 25% das disputas vão acontecer em condições extremas de temperatura, com mais de 28 graus. Haverá a parada técnica para resfriamento, inaugurada na Copa de Clubes do ano passado, mas pode não ser suficiente para a saúde dos atletas. E os torcedores que pagarão por ingressos que podem chegar a 35 000 reais? Na última hora, a Fifa desfez um rolo: havia a proibição de entrada nos estádios de garrafas de plástico com tampinhas, por medida de segurança, para que o peso dos invólucros não representasse uma arma — mas era um modo mal dissimulado de fazer valer a exclusividade dos produtos oficiais, da Coca-Cola.

VAIVÉM - O desembarque da seleção do Irã: sede no México, jogos nos EUA
VAIVÉM - O desembarque da seleção do Irã: sede no México, jogos nos EUA (Guillermo Arias/AFP)
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As dificuldades, à exceção das climáticas e do gigantismo, parecem ser alimentadas pelo vetor principal de obstáculos: Donald Trump. Antes da Copa, ele provocou o México e o Canadá, multiplicando as tarifas comerciais e fechando o cerco ao movimento de migração, e às favas a amizade com os parceiros do Mundial. E há, claro, o problema chamado Irã. Os persas, em plena guerra, decidiram não se hospedar em Los Angeles, como se previa, e vão dormir em Tijuana, no México. Contudo, foi imposto a eles uma rotina incomum, que depois seria revista. Teriam de entrar e sair do território americano no mesmo dia de cada partida. Agora poderão chegar na véspera. Pela primeira vez o anfitrião de uma Copa recebe um “inimigo”, por assim dizer, uma nação com quem troca tiros e bombas. Com uma possibilidade: se ambos os países ficarem em segundo lugar em seus grupos, farão um jogo de mata-­mata em Dallas, no Texas — e haja tensão, que Trump desdenha com olhar altivo. É alta a chance de mais confusões nas próximas semanas provocadas pela atual política linha-dura de imigração americana. Na terça-feira 9, sem maiores explicações das autoridades dos Estados Unidos, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi cortado pela Fifa após ter o visto de entrada no país negado. Artan seria recebido de volta, na Somália, como herói.

BARRADO - O juiz Artan, que teve visto negado: recebido como herói na Somália
BARRADO - O juiz Artan, que teve visto negado: recebido como herói na Somália (Abuukar M.Muhidin/Anadolu/Getty Images)

Há uma curiosa contradição em campo: a mais globalizada das Copas colide com o nacionalismo exacerbado do presidente republicano. Trump pode até fazer cara feia, mas o futebol é também retrato do planeta. Dos 1 248 atletas listados, há 549 com dupla nacionalidade, o equivalente a 43,9% do total. A França tem 97 convocados, mas apenas 22 defendem os azuis — outros 75 estão distribuídos em doze equipes. Por ironia, um dos destaques dos Estados Unidos é Timothy Weah, cujo pai, George Weah, craque do Milan dos anos 1990, foi presidente da Libéria — país erguido a partir de ex-­escravizados americanos. É miscelânea que brotou de mazelas, das rotas migratórias de quem fugiu da pobreza, mas é retrato também da rica variedade com que sonhavam os pais fundadores dos Estados Unidos.

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Para Trump, nada ao redor parece importar, nem mesmo a dimensão gigantesca de uma Copa. Cabe, portanto, na costura histórica, uma indagação fundamental: o que Washington, o revolucionário, e sobretudo os chamados “pais fundadores da pátria”, os editores e signatários da Declaração da Independência, diriam de Donald Trump, do país que ele impõe ao mundo, na base da diplomacia do porrete? Para entender a dimensão do personagem — ou os estragos que já produziu — é bom passar por um trecho da carta, o segundo parágrafo, “a frase mais importante de todos os tempos”, na definição do jornalista e escritor Walter Isaacson. Assim: “Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.

MUDANÇA - Vinicius Jr.: no avesso do incômodo racismo de Jefferson
MUDANÇA - Vinicius Jr.: no avesso do incômodo racismo de Jefferson (Buda Mendes/Getty Images)

A vida, a liberdade e a felicidade. Trump entraria nessa partida do bom lado, digamos assim? Para os críticos, a resposta é não. “Muitos dos pioneiros reconheceriam em Trump não simplesmente um adversário político, mas um tipo de líder que o sistema constitucional construído em 1776 foi explicitamente concebido para deter”, disse a VEJA a filósofa americana Sasha Mudd, formada pelas universidades de Cambridge e Chicago, hoje professora de filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Chile. “Ainda que não falassem com uma só voz, tinham profunda desconfiança do poder concentrado e discricionário, o temor de que o poder viesse a ser exercido segundo a vontade pessoal, e não pela lei geral.” Pelos critérios dos fundadores, portanto, Trump não passaria pelo VAR da democracia. “Os precursores dos Estados Unidos veriam o estilo de governança de Trump mais como um sinal de alerta do que como uma anomalia”, diz Sasha Mudd. “A figura do líder carismático que alega agir em nome do povo enquanto enfraquece os controles institucionais é algo que conheciam bem. Eles não acreditavam que as repúblicas fossem imunes a tais figuras; ao contrário, construíram aquele sistema de governo porque as temiam.”

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Há o alerta, sem dúvida — um levantamento da Universidade Johns Hop­kins mostra que 84% dos americanos veem a democracia em crise, e apenas 11% dizem estar tudo indo bem. Mas há também uma certeza: a fortaleza das instituições rascunhadas naquele documento primevo, “um instrumento prenhe de nosso próprio destino e do destino do mundo”, nas palavras escritas por Thomas Jefferson em 1826, cinquenta anos depois da faísca. Nem mesmo Trump seria capaz de demolir o edifício da civilização intuída.

INSTRUMENTO - A assinatura da Declaração: documento seminal das democracias
INSTRUMENTO – A assinatura da Declaração: documento seminal das democracias (Cortesia US Capitol/.)

Mais, talvez, que qualquer outra data, o 4 de julho de 1776 é um patrimônio da humanidade inteira, pois marca o dia em que um grupo de homens decidiu se levantar não somente contra o poder colonial, mas contra toda uma ordem política baseada há milênios na opressão aos indivíduos. Até então, o mundo não havia conhecido nada que se assemelhasse ao projeto americano: frequentemente se esquece que a independência dos Estados Unidos veio treze anos antes da Queda da Bastilha, na Revolução Francesa, numa época em que a Europa vivia na noite do absolutismo, de Lisboa a Moscou, na qual o resto do mundo vegetava em estado de barbárie institucional. No Brasil, os primeiros revolucionários logo se voltariam para os Estados Unidos em busca de ajuda nas ideias da conjuração mineira de Tiradentes, em 1789. Havia impérios, e 1776 propôs Estados.

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Para os americanos, tanto tempo depois, a democracia nunca foi uma contingência, mas a própria essência de tudo — como ensinou o reverendo Martin Luther King, que teve um sonho cívico, e por ele foi morto, em 1968. Em 250 anos de vida, nunca houve um golpe de Estado (ainda que Trump tenha tentado, no abominável 6 de janeiro de 2021). Sobretudo, nunca se imaginou que uma quartelada pudesse ser solução de qualquer problema. A Constituição nunca foi emendada ou reformada de modo casuístico — ao contrário, as alterações sempre foram numa única direção, para reforçar e ampliar as liberdades individuais. Jamais, nos Estados Unidos, se temeu o julgamento do povo. Vem se votando há 250 anos, e não há notícia de autoridade que tenha chegado ao poder fora das vias constitucionais. Preservar a democracia com tanto rigor por tanto tempo não foi mera circunstância, que só se tornou possível por serem os Estados Unidos um país supostamente de sorte, dono de excepcionais condições de desenvolvimento livre dos problemas que normalmente assolam outras nações.

TEMPERATURA - Calor: 25% das partidas em condições extremas
TEMPERATURA - Calor: 25% das partidas em condições extremas (Alex Pantling/FIFA/Getty Images)

Longe disso, a história americana é rica em desastres. Para começar, houve a própria guerra da independência, que levou oito anos, mesmo depois da assinatura da Declaração. Houve, depois, a tenebrosa guerra civil de 1861 a 1865, que rasgou o país em dois e acumulou estoques de rancor vivo até hoje. Houve, na passagem do século XIX para o XX, dolorosa adaptação aos imigrantes que desembarcavam de todo o mundo. Houve, a partir do desastre de 1929, uma avassaladora crise econômica, como poucos países industrializados tiveram. Houve, enfim, duas guerras mundiais, dez anos de delírio no Vietnã, chocantes assassinatos de presidentes (foram quatro) e a crise político-moral de Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon. Houve o 11 de Setembro. Não é, portanto, trajetória tranquila — e talvez nunca venha a ser.

Contudo, a continuidade democrática é provavelmente o troféu maior que os EUA têm a mostrar durante a Copa, no ano 250 — e foi ela, a constância, quem sempre autorizou permanentes exames de consciência, por mais dolorosos que sejam. Uma reflexão mostraria, por exemplo, que a pátria dos direitos civis e da tolerância tem uma péssima folha corrida no trato da população negra. A escravidão perdurou por mais de oitenta anos depois da independência, as perseguições abertas aos negros continuaram por outros 100, e só recentemente começou a haver progressos, com a eleição de um presidente negro, Barack Obama. Não muito tempo depois de se libertarem da metrópole, os Estados Unidos começaram se engajar em formas selvagens de exploração econômica contra outros países, sobretudo seus vizinhos. Quem sabe não seja o momento, agora, de deitar no divã, com Trump — e vida que segue, porque haverá outras eleições e muita bola rolando, redonda ou oval. “O aniversário da independência não deveria ser tratado como simples celebração. É oportunidade de refletir sobre a distância entre os ideais articulados na fundação e as realidades que se seguiram”, diz Sasha Mudd. “A comemoração deve envolver tanto reconhecimento quanto crítica — reconhecimento dos princípios que foram articulados e crítica das formas pelas quais foram comprometidos ou traídos.”

VIRADA - Charles Lee: o “traíra” capturado pelos ingleses em endereço próximo ao hotel da seleção canarinho
VIRADA - Charles Lee: o “traíra” capturado pelos ingleses em endereço próximo ao hotel da seleção canarinho (Sepia Times/UIG/Getty Images)

Trump, dissimulado, arvora ser irmão de pensamento e herdeiro do quinteto inaugural, fraterno de Robert Livingston (29 anos em 1776), Thomas Jefferson (33 anos), John Adams (40 anos), Roger Sherman (55 anos) e Benjamin Franklin (70 anos), o elegante diplomata, cientista e filósofo que revisou e reescreveu o texto original da Declaração. Não é. Eles plantaram a semente de uma ideia, o alicerce das instituições, apesar das dificuldades, apesar dos evidentes defeitos (quando dizia “homem”, o documento fazia referência apenas aos homens, brancos e da elite ilustrada, porque os negros eram escravos e os indígenas, selvagens; as mulheres inexistiam, a não ser para prestar serviços aos maridos e pais). Livingston era como Lamine Yamal, da Espanha, uma promessa em construção. Jefferson, contradição ambulante, dono de escravos, era o avesso de Vinicius Jr. na luta contra o racismo. Adams era discreto e preciso como Luka Modric. Sherman, “que nunca disse uma bobagem na vida”, segundo Jefferson, era meticuloso e contido como Rodri, também da Espanha. Franklin, de dimensão indizível, personagem maior que si mesmo, infinito, era inventor como Lionel Messi e sedutor como Cristiano Ronaldo.

Aquele grupo de dois séculos e meio atrás ergueu uma estrutura institucional frágil na largada, que ainda hoje precisa ser constantemente cuidada, cercada por andaimes, num balança mas não cai. Vida, liberdade e a busca da felicidade — algo que a Copa pode, sim, oferecer, ao lado da memória dos 250 anos da fundação americana, em meio às confusões da atual Presidência de Trump. O republicano, aliás, provou ao vivo, na noite de terça-feira 9, a fase (ruim) retratada pelas recentes pesquisas de popularidade. Presente às finais da NBA, o torneio profissional de basquete americano, ele recebeu ondas de vaias quando o telão do ginásio exibiu sua imagem durante a execução do Hino Nacional. No caso da Copa de 2026, coincidência ou não, havia dúvidas até o início do torneio se o presidente estaria presente na partida de inauguração e em outros jogos. A história americana nunca teve um presidente como Trump. O Mundial no qual ele virou o dono da bola também será diferente de todos os outros. Não faltarão diversão, emoção e polêmicas até o dia 19 de julho.

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999

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