Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Com experiências entre céu e inferno, São Marcos deixa o futebol

A carreira de um dos maiores ídolos da história do Palmeiras chegou ao fim. Depois de quase 20 anos de dedicação à camisa alviverde, Marcos confirmou sua aposentadoria. A torcida alviverde o transformou em um Santo, mas o ex-goleiro não viveu apenas no céu durante sua trajetória. Dono de personalidade forte aliada ao estilo brincalhão, o ídolo palmeirense se despede do futebol com um passado de glórias e também de decepções.

Apesar de ter recebido oportunidades desde sua chegada ao Palestra Itália, em 1992, o camisa 12 só virou realidade no clube na Copa Libertadores da América de 1999, quando entrou na vaga de Velloso, lesionado. As atuações no torneio continental consagraram o agora ex-jogador, principalmente por suas defesas nas quartas de final, contra o Corinthians, e também na semifinal, diante do River Plate.

‘Ele adquiriu a segurança do grupo nos treinos, com sua regularidade. Começou ainda como um menino, mas se tornou uma realidade na Libertadores, quando ganhou o apelido de São Marcos, pela qualidade que mostrou nos jogos difíceis, diante de todo o clima adverso da competição. Ele conquistou a confiança com a personalidade dele, por ter boa performance em uma sequência de jogos decisivos’, recorda César Sampaio, que foi capitão do Verdão na conquista continental e é o gerente de futebol atual.O título da Libertadores ainda fez com que Marcos conquistasse o prêmio de melhor jogador da competição. Porém, 1999 ainda reservava a primeira grande decepção da trajetória do ex-goleiro. Herói no triunfo pela América, o ídolo falhou no Mundial Interclubes, contra o Manchester United, no Japão.

Aos 35 minutos do primeiro tempo, Giggs avançou pela esquerda e fez o cruzamento. Posicionado na primeira trave, Marcos não conseguiu cortar a bola alçada e acabou deixando a meta aberta para Roy Keane mandar para as redes.

‘Foi terrível, um desastre em nossa carreira. Se tivéssemos outra oportunidade de disputar um Mundial Interclubes, daríamos a vida para conquistar o título pelo Palmeiras. No lance do gol, infelizmente, nossa equipe toda falhou, inclusive o Marcos’, avalia o preparador de goleiros do Verdão, Carlos Pracidelli, que já ocupava a função na época.

De acordo com o profissional, que tem uma relação muito próxima a Marcos, o carinho dos palmeirenses foi o que manteve o ex-goleiro em pé para seguir a carreira. ‘Ele viu o carinho da torcida. Em nossa chegada a Guarulhos, a torcida tomou o saguão do Aeroporto, o pegou no colo e o trouxe de volta. Se não fosse aquilo, não sei o que teria acontecido com a gente’, acrescenta.

O Santo deu sequência à carreira e voltou a aproveitar a Libertadores para se destacar. Em uma campanha com boas atuações, o ex-goleiro fez a defesa mais marcante de sua história, na semifinal da competição, em 2000. Depois de jogos equilibrados (vitória alvinegra por 4 a 3 no primeiro duelo, e triunfo alviverde por 3 a 2 no segundo), a decisão da vaga na final foi para os pênaltis.

Marcelo Ramos, Roque Júnior, Alex, Asprilla e Júnior converteram as cobranças do Verdão, enquanto Ricardinho, Fábio Luciano, Edu e Índio marcaram pelo Timão. No último tiro do clube de Parque São Jorge, Marcelinho Carioca parou nas mãos do carrasco.

O Pé de Anjo cobrou no canto direito de Marcos, que havia estudado as cobranças do adversário e saltou para o lado certo, fazendo a defesa. Em seguida, correu para dar um mergulho no gramado do Morumbi. Apesar de o torneio ter terminado com título do Boca Juniors, a intervenção do ex-goleiro no pênalti ficou em sua história.Também por conta do ótimo relacionamento que nutriu com Luiz Felipe Scolari no Palmeiras, o ídolo alviverde foi chamado para a Copa do Mundo de 2002 e teve a chance de ser titular, deixando na reserva outros atletas consagrados: Dida e Rogério Ceni.

‘Os três foram tão amigos e se ajudaram tanto que, independentemente de quem jogasse, representaria muito bem a Seleção. Eles fizeram um ambiente tão saudável, que foi muito bom ter escolhido os três’, recorda Felipão, que considerou o brasileiro o melhor goleiro daquela Copa.

No Mundial, Marcos apresentou um desempenho eficiente, com destaque para a atuação contra a Bélgica. ‘Foi um dos jogos mais difíceis que tivemos na Copa. Eu me lembro que o Brasil tomou um sufoco e o melhor jogador foi o Marcos, com defesas fantásticas’, argumenta Pracidelli.

Na decisão do Mundial, Ronaldo brilhou ao marcar dois gols, contando também com atuação de gala de Rivaldo. Enquanto isso, na defesa, Marcos trabalhou de forma importante para evitar que a Alemanha complicasse. Quando o jogo ainda estava 0 a 0, Neville cobrou falta de longe e viu o arqueiro brasileiro espalmar.

Já no fim do jogo, pressionada pelos dois gols de Ronaldo, a seleção alemã quase descontou com um chute forte, de dentro da área, de Bierhoff, mas o goleiro saltou para defender com a mão esquerda. Com o status de pentacampeão, Marcos retornou ao Brasil e encontrou um Palmeiras fragilizado.

Sem as grandes contratações da década anterior, o Verdão desenhou um caminho de sofrimento em 2002, no Campeonato Brasileiro, e passou a ser ameaçado pelo rebaixamento. Para piorar, Marcos ainda se lesionou na reta final da competição e, de fora de campo, viu a equipe alviverde cair para a segunda divisão, sem que seu amigo Sérgio pudesse fazer algo no gol para mudar a história.

Com o Palmeiras rebaixado, o pentacampeão recebeu a proposta do Arsenal e chegou a viajar à Inglaterra para conhecer as instalações do clube. Porém, o ex-goleiro recusou a oferta e seguiu no Palestra Itália, participando da campanha vitoriosa na Série B de 2003.

Mas seu time seguiu com altos e baixos, enquanto Marcos passou a conviver cada vez mais com a dor. Assim, o último título da carreira aconteceu em 2008, no Campeonato Paulista. Apesar dos anos finais de carreira sem glórias e com lesões, o ídolo não perdeu a admiração da torcida e está eternizado na lista de maiores jogadores da história do Palmeiras.