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Coalas, zebras e camarões

Por Carlos Maranhão 22 jun 2014, 16h04

Então a zebra chegou, lépida, faceira e inesperada. Transportava em seu lombo listrado um time com o nome do delicioso e caro crustáceo cujo nome, no plural, os portugueses escolheram para batizar os rios daquele lugar da África no qual aportaram no século XV e que só em 1960 se tornaria um país independente.

Havia vários coalas nos jardins que cercavam o hotel. Eles são mesmo fofos, ainda mais ao vivo, com sua pelagem densa e sedosa. Dormem quase o dia inteiro, agarrados como bichos-preguiça aos galhos de grandes eucaliptos, dos quais se alimentam. Todos iam vê-los, cheios de curiosidade em conhecer um lindo animal que não existe em outro país. Numa estrada próxima, de vez em quando, apareciam cangurus.

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Os marsupiais ajudavam a entreter os jogadores da seleção brasileira que, em setembro de 2000, hospedados em Gold Coast, na Austrália, preparavam-se mais uma vez para ganhar a inédita medalha de ouro olímpica no futebol. Perderiam aquela, como haviam perdido antes e perderiam depois, apesar da confiança na conquista. Enquanto os coalas descansavam e os cangurus davam seu saltos, ninguém pressentia a aproximação de outro animal que também não existe no Brasil.

Então a zebra chegou, lépida, faceira e inesperada. Transportava em seu lombo listrado um time com o nome do delicioso e caro crustáceo cujo nome, no plural, os portugueses escolheram para batizar os rios daquele lugar da África no qual aportaram no século XV e que só em 1960 se tornaria um país independente. Estamos falando, evidentemente, de Camarões.

Vamos recordar. O Brasil tinha uma equipe forte, dirigida por Wanderley Luxemburgo. Entre seus titulares, destacavam-se os meias Alex e Ronaldinho Gaúcho, ambos no auge. No primeiro mata-mata, nosso escrete cruzou com Camarões, que era azarão. Partida duríssima. Camarões saiu na frente e Ronaldinho empatou nos descontos. Veio a prorrogação, que na época era decidida pelo cruel e emocionante sistema da morte súbita. E Camarões marcou, inapelavelmente, embora estivesse com apenas nove jogadores em campo. Luxemburgo, que andava encrencado com a Justiça e com a Receita Federal, perdeu o emprego (ele comandava simultaneamente a seleção principal, que disputava as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002) e o futebol brasileiro se despediu sem glórias de um novo sonho da medalha. Aliás, foi uma Olimpíada para esquecer. Nossos atletas voltaram para casa sem um ouro sequer, em nenhuma modalidade.

E o que essa história toda tem a ver com o jogo desta segunda-feira em Brasília? Aparentemente, nada. São outros atores, outro cenário, outro enredo. Camarões, que em suas seis Copas anteriores teve um desempenho razoável (nove derrotas, sete empates, quatro vitórias), leva jeito de estar entregue. Não vê a hora de entrar no avião. Perdeu os dois primeiros jogos, para México e Croácia, e vai cumprir tabela contra o Brasil. Ficou no passado o nível de seu surpreendente desempenho no Mundial de 1990, quando derrotou na abertura a Argentina, então campeã, venceu a Colômbia nas oitavas e só veio a ser eliminada nas quartas pela Inglaterra na prorrogação. Na Copa seguinte, o Brasil alcançaria contra eles uma vitória tranquila por 3 a 0, com o placar mais elástico da campanha do tetra.

Mas, com toda a sua debilidade atual, vamos tomar cuidado e respeitá-los. Embora o Brasil tenha tudo para vencer, e vencer bem, não custa lembrar que, como os alemães constataram, a zebra é um veloz mamífero de origem africana.

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