Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Caso Bruno: ‘Pai, o Boa contratou esse assassino?’

Secretário de esportes de Varginha confessa que pressão contra a contratação de Bruno começa dentro da própria casa

Por Leslie Leitão, de Varginha Atualizado em 13 mar 2017, 22h28 - Publicado em 13 mar 2017, 18h15

Henrique Lemes é ex-vereador por três mandatos e narrador de uma das principais rádios da região. Há pouco mais de dois meses, assumiu o comando da Secretaria Municipal de Esportes de Varginha, no sul de Minas Gerais. A prefeitura da qual faz parte é uma das principais parceiras do Boa Esporte Clube, pequena equipe que disputará a Série B do Campeonato Brasileiro e que ganhou mais espaço no noticiário na semana passada, ao anunciar a contratação do goleiro Bruno Fernandes, condenado pelo homicídio da ex-amante Eliza Samudio. Lemes não tem poder de romper a parceria, mas confessa que a pressão que se espalhou pelas redes sociais chegou até sua casa.

  • Pai de uma jovem de 23 anos (a vítima tinha 25 quando foi morta), ele conta como foi a reação dela. “Minha filha me ligou brava e disse: pai, o Boa contratou esse homem assassino? Esse sentimento tem dominado as conversas na cidade, na internet. É uma situação muito complicada”, afirma.

    Henrique Lemes, secretário de Esportes de Varginha: “Só um torcedor fanático que enxerga apenas o campo e bola está a favor dessa contratação”
    Henrique Lemes, secretário de Esportes de Varginha: “Só um torcedor fanático que enxerga apenas o campo e bola está a favor dessa contratação” Leslie Leitão/VEJA

    O secretário evita dar uma opinião pessoal mais contundente. Mede as palavras e defende a prefeitura, alegando que ela “não tem ingerência na administração do futebol do clube”. Mas ao longo da conversa confessa: “Só um torcedor fanático que enxerga apenas o campo e bola está a favor dessa contratação”.

    Uma lei municipal prevê a parceria do município com o clube – que pertence a um grupo de empresários que trouxe o time da cidade de Ituiutaba para Varginha em 2011. O clube manda os jogos no Estádio Municipal Prefeito Dilzon Melo, o Melão. Quase todos os funcionários que cuidam da manutenção são da prefeitura, e as contas de luz e água também são pagas com dinheiro público. Desse cofre também saem a manutenção do Centro de Treinamento e as despesas com hotel e uma casa para concentração e dormitório de jogadores e comissão técnica.

    São cerca de 300 000 reais anuais, investimento considerado bom em virtude da propaganda que o clube vinha fazendo da cidade. “Agora de volta à Série B, com transmissão dos jogos, seria muito bom para a cidade. Essa história aí agora (contratação de Bruno) é que tumultuou tudo”, explica Henrique Lemes.

    A pressão sofrida pelo secretário de esportes dentro da própria casa se espalhou pela cidade. O site de VEJA conversou com dezenas de habitantes. A maioria é contra, mas há quem se prenda ao argumento de que, se a Justiça soltou o goleiro, ele está livre para jogar. Nos bares e nas redes sociais, a discussão ainda vai dar muito pano para manga.

    Continua após a publicidade

    Rescisão

    Em nota divulgada nesta segunda-feira, a prefeitura diz que a contratação de jogadores compete “única e exclusivamente” ao clube, mas que “está analisando todos os aspectos legais que envolvem a questão com o fim de verificar a possibilidade de rescindir, ou não, o convênio”. Leia a íntegra da nota:

    A Prefeitura de Varginha vem a público esclarecer que existe um convênio firmado com o Boa Esporte, decorrente das Leis Municipais nºs 5.669/2013, 5.842/2014 e 6.170/2016, devidamente aprovadas pela Câmara de Vereadores, convênio que vem sendo renovado anualmente, por ser de interesse das partes, uma vez que o Boa Esporte encontrou nesta Cidade estrutura adequada para desenvolver suas atividades, apoio popular e trouxe às pessoas de Varginha e região, entretenimento, geração de empregos, renda, além de promover o nome da cidade de Varginha em nível nacional.

    Esclarece, ainda, que nos termos do referido convênio, as decisões de ordem administrativa, financeira, operacional e de execução, inclusive as definições na contratação de jogadores, competem única e exclusivamente ao Clube.

    Portanto, qualquer decisão no sentido de rescindir o referido convênio deverá, antes, ser precedida de análise jurídica criteriosa por parte do Município, necessária em razão da prudência que o caso requer e pelo fato que tal definição deve considerar eventuais prejuízos às partes, em especial aos empregados do Clube, tendo em vista que a equipe do Boa Esporte já assumiu compromissos com a contratação de funcionários, de vários jogadores, além de estar definida sua participação no Campeonato Brasileiro da Série B 2017 e Campeonato Mineiro Módulo II 2017.

    Portanto, o Departamento Jurídico da Prefeitura está analisando todos os aspectos legais que envolvem a questão, com o fim de verificar a possibilidade de rescindir, ou não, o referido convênio.

    Finalmente, como é de conhecimento público, embora o assunto seja polêmico, é importante registrar que a Prefeitura sempre agiu a agirá nos limites legais quando da tomada de qualquer decisão, registrando-se, também como é do conhecimento de todos, que o jogador Bruno Fernandes ainda aguarda julgamento definitivo pela Justiça, estando solto por decisão do Supremo Tribunal Federal.

    Continua após a publicidade
    Publicidade