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Casa belíssima, time medonho: o drama dos palmeirenses

Na festa que salvaria o centenário, equipe irrita o torcedor e passa vergonha na estreia do novo estádio - que também exibiu algumas falhas, mas é espetacular

Por Luiz Felipe Castro, com fotos de Ivan Pacheco e Felipe Cotrim 20 nov 2014, 07h15

A arquitetura e a acústica do estádio agradaram muito. O gramado também estava perfeito. Mas o jogo deixou claro que o Palmeiras precisava não só de uma nova casa, mas de um novo time no ano do centenário

O torcedor palmeirense foi do céu ao inferno em 90 minutos na noite de quarta-feira. Antes de a bola rolar contra o Sport, a apaixonada torcida verde celebrou o retorno ao lar depois de quatro anos, quatro meses e dez dias longe do antigo Palestra Itália. O Allianz Parque, como é chamada a nova arena palmeirense é, sem dúvidas, um dos estádios mais espetaculares da América Latina. Moderno, belíssimo, bem localizado e bancado inteiramente pela iniciativa privada, ele deverá ser referência – e não apenas como palco para o futebol, mas também como local para eventos e shows (como os do ex-beatle Paul McCartney, já na semana que vem). O que se viu em campo, porém, ficou muito longe do alto nível do cenário que se via fora dele. Muito mais grave do que as ocasionais falhas, já esperadas, de uma inauguração – o serviço de internet foi um desastre e havia vários pontos do estádio empoeirados e com cara de inacabados -, foi a ausência de um time à altura da ocasião. A torcida fez a sua parte e proporcionou uma festa impecável antes e durante a partida. Em campo, porém, o Palmeiras teve uma atuação vergonhosa e estragou as comemorações ao perder por 2 a 0 para o modesto time pernambucano e se aproximar da zona do rebaixamento em pleno ano do centenário. Um alento para a diretoria, implacavelmente criticada após o apito final, foi a renda extraordinária da estreia: os 35.930 pagantes entregaram 4,9 milhões aos cofres do clube, quase o dobro dos 3 milhões arrecadados pelo arquirrival Corinthians na inauguração do Itaquerão. Ambos, porém, amargaram derrotas dolorosas e históricas nas novas casas.

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Como o Palmeiras não gastou um centavo sequer na construção da nova casa (a construtora WTorre bancou toda a obra, que custou 630 milhões de reais), fica ainda mais difícil para a cartolagem palmeirense justificar a fragilidade do elenco atual, formado basicamente por jovens da base e jogadores medianos, muito contestados pela exigente torcida. Com a ausência do craque da equipe, o chileno Jorge Valdivia, mais uma vez lesionado, as limitações do time do Palmeiras ficaram ainda mais evidentes. Antes da partida, os fãs se deliciaram ao relembrar títulos históricos e receber as boas vindas de ídolos como Ademir da Guia e Evair em mensagens nos telões (de 103 metros quadrados, os maiores do país). A arquitetura e a acústica do estádio também agradaram muito: sempre barulhenta e fanática, para o bem e para o mal, a torcida palmeirense proporcionou um espetáculo de primeira qualidade com suas tradicionais canções de apoio ao time. O gramado também estava em perfeitas condições, de um verde irretocável, como todo o entorno. No entanto, a partida deixou claro que o que Palmeiras, no ano do centenário, precisava não só de uma nova casa, mas de um novo time.

Decepção e falhas – Os atletas deixaram o campo sob vaias ensurdecedoras e ameaças em caso de mais um rebaixamento. O presidente Paulo Nobre também foi bastante cobrado pela equipe, que tem 39 pontos e fará dois jogos fora de casa, contra Coritiba e Internacional, antes de encerrar sua participação contra o Atlético-PR, na nova arena. Ao final da partida, o técnico Dorival Júnior concedeu uma entrevista coletiva conturbada – os microfones da improvisada sala de imprensa também falharam. Ele pediu tranquilidade e reação rápida à equipe no confronto direto da próxima rodada, contra o Coritiba, no Couto Pereira. “Não adianta lamentar. Temos de buscar a reconstrução para domingo, quando faremos um jogo decisivo. Há um risco real, que temos de enfrentar.” O atacante Henrique, artilheiro do campeonato com quinze gols, foi um dos poucos atletas a falar aos jornalistas. Visivelmente abatido, ele seguiu a mesma linha do treinador. “Temos que nos fechar. Já passamos por momentos piores. É lamentável ter que estar passando por isso, mas tenho certeza que nosso time vai reagir em Curitiba.”

Henrique garantiu que o aspecto psicológico não foi um problema e que o Allianz Parque será um aliado importante do time no futuro. “O estádio ficou fantástico, mas infelizmente as coisas não aconteceram como nós gostaríamos”, lamentou, reconhecendo o desempenho decepcionante da equipe. Além dos problemas palmeirenses no campo, houve outras falhas na inauguração da nova casa. Antes do jogo, a diretoria prometeu serviço de wifi rápido e estável para todos os presentes ao estádio. Faltou até sinal de telefone. Com internet e rede de telefonia móvel instável em boa parte do estádio, muitos torcedores se decepcionaram com a dificuldade encontrada para compartilhar suas fotos na arena. No caminho até os belos e confortáveis camarotes, ainda havia muitos lugares cheios de poeira e com acabamento ainda incompleto. Alguns torcedores também reclamaram dos preços (6 reais por um refrigerante e 12 reais por um sanduíche). Mas isso era o de menos: se os jogadores que representaram a equipe na inauguração estivessem à altura de Ademir da Guia, Evair, Edmundo, Marcos e tantos outros ídolos que marcaram a história centenária do clube, ninguém lembraria desses detalhes na aguardada festa de volta para casa.

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