Cartão amarelo: o início do fim de uma era para Neymar?
Talvez esteja chegando o momento de virar a página
Em português quase sem sotaque, o treinador italiano Carlo Ancelotti brincou com a expectativa que, digamos, parava o país. Ao revelar os convocados da seleção para os amistosos do fim do mês contra França e Croácia, disse que cantaria os nomes dos atacantes, deu uma paradinha e sorriu: “Curiosos?”. E então o país do futebol — curioso, sim — soube que ele não chamou Neymar. A decisão carrega peso simbólico enorme. Trata-se da última lista antes da chamada final, em maio, para a Copa do Mundo e, salvo uma reviravolta pouco provável — dessas que o futebol às vezes proporciona —, a ausência pode representar o encerramento da trajetória do camisa 10 na seleção brasileira. Mais do que isso, pode marcar o fim definitivo da chamada “Neymardependência”, uma era em que o Brasil parecia sempre condicionado ao talento, ao protagonismo e à arrogância do santista.
A intenção inicial, ao que tudo indica, era levar Neymar, de 34 anos. No entanto, um episódio específico incomodou os dirigentes da CBF e, sobretudo, integrantes da comissão técnica de Ancelotti. O técnico havia se organizado para assistir, no interior paulista, ao confronto entre Mirassol e Santos, no dia 10. A partida prometia ser intensa, o tipo de jogo que permitiria avaliar as reais condições do jogador. Na última hora, porém, o craque decidiu não entrar em campo, alegando desconforto muscular. Como avaliar um jogador que não entra em campo? Como convocar alguém sem observar de perto seu desempenho atual? Segundo o comentarista Casagrande, a dúvida de Ancelotti nunca esteve relacionada ao talento ou à inteligência futebolística de Neymar — qualidades indiscutíveis. “A questão sempre foi outra: condição física, intensidade e capacidade de suportar o ritmo no futebol de alto nível”, disse.
Nesse contexto, a ausência contra o Mirassol acabou funcionando, de certo modo, como um alívio para a CBF. Foi como se, involuntariamente, o próprio Neymar tivesse facilitado uma decisão que muitos já consideravam inevitável. Enquanto isso, nos bastidores, a movimentação do staff do atacante tem sido intensa. Liderado pelo pai, o grupo tenta exercer pressão. O objetivo parece claro: construir a narrativa de que Neymar estaria sendo injustiçado pela CBF. A estratégia lembra, em certa medida, o episódio envolvendo Romário antes da Copa de 2002. Naquela ocasião, a exclusão do atacante gerou enorme polêmica — e o técnico Luiz Felipe Scolari só conseguiu se blindar das críticas porque conduziu o Brasil ao pentacampeonato.
No caso atual, porém, o cenário parece diferente. Merece reconhecimento a postura firme de Ancelotti. O tempo em que o grupo de Neymar exercia grande influência sobre a seleção brasileira parece ter ficado para trás — algo que, para muitos torcedores, representa até um sinal de amadurecimento institucional. O próprio presidente da CBF, Samir Xaud, reforçou publicamente não meter o bedelho. “O Neymar é um grande jogador e um ídolo do futebol brasileiro. A gente sempre espera que ele esteja bem para ajudar a seleção, como já fez em muitos anos. Mas Ancelotti tem autonomia total”, disse Xaud.
Neymar, é verdade, está entre os jogadores mais talentosos que o Brasil já produziu. Em vários momentos da carreira, demonstrou lampejos de genialidade raros no futebol contemporâneo — inversamente desproporcionais ao que fazia sem as chuteiras, em eterno ruído. Ainda assim, sua trajetória com a seleção deixa uma sensação ambígua: a de que poderia ter sido ainda maior. Na comparação com lendas como Pelé, Romário e Ronaldo Nazário, por exemplo, Neymar apresenta a menor média de gols por partida com a canarinho e não conseguiu conquistar a Copa do Mundo (veja no quadro). Não se trata de ignorar seus 79 gols pela seleção — uma marca expressiva e respeitável —, mas de reconhecer que as expectativas que o cercaram não foram atendidas.
Alguns episódios acabaram contribuindo para a imagem controversa. Muitos torcedores ainda lembram das reclamações frequentes em 2022, do “cai-cai” da Copa de 2018 e, claro, da grave lesão sofrida em 2014 — episódio dramático, do qual ele não teve culpa, mas que marcou profundamente aquela campanha.
O fato é que o tempo passa para todos os jogadores. A sensação que fica é a de uma história que poderia ter sido mais bonita e inteligente. Talvez esteja chegando o momento de virar a página. Não para apagar a história de Neymar na seleção (caso a ausência se confirme), mas para entendê-la como um capítulo relevante — embora incompleto. Agora é apostar em nomes como Vinicius Jr. e Raphinha. E seja lá o que quiserem os deuses do futebol, porque a seleção ainda engatinha.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987








