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Capitalismo FC: o plano de transformar o Botafogo em um clube-empresa

A mudança administrativa do time pode representar uma saída lucrativa para o futebol brasileiro, nos moldes do que já acontece lá fora

Com 672 milhões de reais a pagar, o Botafogo de Futebol e Regatas, clube carioca que já abrigou craques como Garrincha, Nilton Santos, Gérson e Jairzinho, e que nos anos 1960 dividia com o Santos de Pelé a ribalta das grandes equipes, ocupa hoje a liderança de um incômodo ranking: o dos times de futebol mais endividados do Brasil, segundo um levantamento recente preparado pelo banco Itaú BBA.

Grande parte desse saldo devedor é composto de compromissos financeiros a curto prazo, o que praticamente estrangula a capacidade da agremiação de fazer investimentos ou pagar contas básicas, como o salário de seus jogadores — os atletas do Botafogo chegaram a adotar uma “Lei do Silêncio”, sem dar entrevistas, quase sumidos, como protesto pelo atraso nos depósitos de seus vencimentos.

Fosse uma empresa, o alvinegro da estrela solitária estaria próximo da insolvência. Como todos os grandes clubes de futebol do Brasil, trata-se de uma associação civil sem fins lucrativos (supostamente). Embora o Botafogo movimente milhões de reais todos os anos, sua característica jurídica não prevê nem mesmo a possibilidade de falência. Essa triste realidade, contudo, pode mudar muito em breve graças ao empenho de alguns botafoguenses ilustres, incomodados com a situação calamitosa das contas do alvo de suas paixões. No grupo de personalidades afeitas ao socorro estão nomes de peso da economia e da política nacional, caso dos irmãos João e Walter Moreira Salles (a editora de João, que publica a revista piauí, chama-se Alvinegra) e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

A pedido dos Moreira Salles, a consultoria Ernst & Young preparou um estudo que analisou a situação administrativa e financeira do Botafogo, indicando inclusive um caminho possível para o saneamento das dívidas. A solução prevê a constituição de uma Sociedade de Propósito Específico, independente do clube social, que tomaria emprestadas as marcas do time (nome, camisa, escudo e vagas nos campeonatos) pelo prazo mínimo de trinta anos e passaria a administrar todos os ativos relacionados ao futebol, entre eles os contratos dos jogadores profissionais e da base, o centro de treinamento e a concessão do Estádio Nilton Santos, o Engenhão.

Pela cessão desses direitos, a “empresa Botafogo” quitaria logo de cara as pendências mais urgentes do clube, estimadas em 300 milhões de reais, o que descongelaria boa parte das atuais receitas, como o dinheiro pago por um shopping center instalado em terreno de sua propriedade, e lhe daria fôlego financeiro para renegociar os demais débitos. E de onde viriam os recursos para esse resgate? De um fundo cujo exclusivo investimento seria no futebol do time carioca — haveria, portanto, separação do joio e do trigo. Os investidores se tornariam, de fato, os administradores do time de futebol do Botafogo, algo inédito para os clubes de primeiro escalão do Brasil. De acordo com pessoas próximas das negociações, já existe um grupo de pelo menos vinte empresários interessados em ter uma fatia do bolo. Ressalve-se não se tratar de uma doação em prol do clube de coração. O fundo prevê o retorno dos investimentos, com taxas atrativas de mercado. Tão interessantes que já chamaram a atenção de uma companhia que participou na última década da venda de três clubes do Campeonato Inglês, o mais rico e próspero do planeta.

Se sair do papel, a iniciativa do Botafogo deixará o futebol brasileiro mais alinhado aos mercados de maior lucro no esporte mundial, como os da Europa e dos Estados Unidos. Os grandes times internacionais são de propriedade de empresários (veja o quadro abaixo) ou têm seu capital negociado na bolsa de valores (há pouquíssimas exceções que confirmam a regra, entre elas as dos espanhóis Real Madrid e Barcelona). O plano de salvação botafoguense faz tabelinha com um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e que facilitaria a migração do modelo vigente para o empresarial.

AVALISTA – Maia (o terceiro da esq. para a dir.) na sede da CBF: “clube-empresa”

AVALISTA – Maia (o terceiro da esq. para a dir.) na sede da CBF: “clube-empresa” (Lucas Figueiredo/CBF)

 (Fotos: Mike Egerton/Empics; Nicolo Campo/Lightrocket; Jean Catuffe/Getty Images)

Duas semanas atrás, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, alvinegro de quatro costados, esteve na sede da Confederação Brasileira de Futebol para tratar do tema. “Temos de estimular o clube-empresa”, disse Maia no fim do encontro com os cartolas. O projeto está nas mãos do deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) e prevê a regulamentação de uma nova figura jurídica: a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), constituída especificamente para gerir os times profissionais e seus ativos (à associação civil restaria a administração de outras atividades da instituição, como o clube social e os esportes amadores).

O principal benefício da mudança seria a criação de um sistema tributário próprio, bem menos oneroso que o modelo tradicional. A proposta pretende unificar quatro tributos em apenas um, limitado a 5% das receitas mensais. “A ideia é vantajosa porque o clube trocaria a tributação sobre a folha de pagamentos — que pode ser alta, por causa do salário de jogadores — por um imposto único”, explica o advogado tributarista Leonardo Andrade. Sávio levou o projeto à residência oficial do presidente da Câmara no começo de junho. Durante um café da manhã, o tucano recebeu a anuência de Maia para o início da tramitação. Depois de consultar o ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a pauta, o congressista mineiro espera pôr o projeto em votação depois da reforma da Previdência.

É caminho aberto para um freio de arrumação. Há pelo menos três décadas circulam em Brasília propostas similares, e que invariavelmente começavam com a obrigatoriedade da mudança na gestão dos clubes. Ao passarem pela Bancada da Bola no Congresso, porém, elas terminavam nas gavetas. Pior, ao promover repetidos planos de renegociação das dívidas com a União, o Poder Executivo disseminou a noção de que o resgate com dinheiro público estaria sempre à mão. “O futebol no Brasil é uma atividade política, não acredito que os cartolas sejam altruístas a ponto de abrir mão de suas atividades”, diz Flávio Augusto da Silva, brasileiro dono do Orlando City, time que disputa a liga profissional de futebol dos Estados Unidos, a Major League Soccer.

Pelé, que foi ministro do Esporte no governo FHC e dá nome à lei atual que regulamenta a modalidade no país, vê as propostas com bons olhos. Disse o Rei a VEJA: “Quando fui promover o futebol nos Estados Unidos, o New York Cosmos já era um clube-­empresa. No Brasil lamentavelmente os clubes têm problemas financeiros. Já é o momento de a administração ser mais profissional. O Brasil merece essa mudança”.

Não se trata de coincidência, tudo somado, que clubes bem-sucedidos dentro de campo estejam, invariavelmente, com as finanças em ordem. Embora não tenham aderido ao modelo de sociedade anônima, Flamengo e Palmeiras já adotaram práticas administrativas comuns às empresas. Tanto que se tornaram alvos preferenciais dos investimentos. “O lucro se maximiza com títulos. O retorno não é comparável ao de um investimento em ações, mas as empresas podem otimizar seus lucros investindo na compra de outros times para formar e vender jogadores, por exemplo”, diz Cesar Grafietti, consultor do Itaú BBA. Passou da hora de o futebol brasileiro sair da infância para entrar na idade adulta, dado o tamanho de um negócio que mexe com o país.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647