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Candidato à Fifa denuncia ‘sabotagem’ de Blatter e acordos corruptos de Havelange

Correndo risco de ser suspenso por compra de votos, sul-coreano Chung Mong-joon atacou presidente da Fifa e seu antecessor

O processo de eleição para o sucessor do Joseph Blatter na presidência da Fifa segue caótico. Depois de o favorito Michel Platini ser investigado pelo recebimento de dinheiro suspeito da entidade, o outro forte candidato, o magnata sul-coreano Chung Mong-joon, ex-presidente da entidade, foi acusado de comprar votos para que seu país sediasse a Copa de 2022. Sob o risco de ter sua candidatura anulada, Chung convocou entrevista nesta terça-feira para se defender, denunciar um caso de “sabotagem” contra ele e revelar novos casos de corrupção na entidade, tendo como principal alvo o brasileiro João Havelange, que presidiu a Fifa entre 1974 e 1998.

Acionista majoritário da montadora de carros Hyundai, Chung Mong-joon foi vice-presidente da Fifa entre 1994 e 2011. O empresário de 63 anos é acusado de violar as regras de ética da Fifa ao ter supostamente tentado comprar apoio para que a Coreia do Sul fosse escolhida para sediar a Copa de 2022 por 700 milhões de dólares. Ele negou as acusações e listou uma série de irregularidades na venda de direitos de transmissão das Copas do Mundo com a empresa ISL, que envolvem Havelange, Blatter e também o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

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Para Chung, que pode pegar 15 anos de suspensão se confirmada a compra de votos, o tribunal da Fifa não é nada mais que um instrumento de Blatter para destruir os adversários políticos. “O verdadeiro perigo é que não só estão sabotando minha candidatura. Estão sabotando as eleições da Fifa.” Segundo ele, Blatter, de 79 anos, ainda não desistiu de se manter na presidência, apesar de ter marcado nova eleição para fevereiro de 2016. “Há informações sobre os planos de Joseph Blatter para seguir como presidente assim que todos os candidatos estejam fora. A eleição corre o risco de se transformar em uma farsa”.

Havelange – Chung Mong-joon contou que, quando era membro do Comitê de Mídia da entidade, realizou um discurso que irritou Havelange, em outubro de 1995, em Seul. “Pedi mais transparência. Parecia lógico”, contou. Seu principal argumento era de que os contratos de TV vendidos pela Fifa estavam sendo subvalorizados e que a entidade não estava conseguindo a mesma renda de outros eventos. “Não há dúvidas de que a Copa é uma proposta atrativa para a televisão. De fato, existem argumentos que apontam que ela é muito mais popular que os Jogos Olímpicos para a audiência na TV. Apesar disso, as vendas de direitos de TV da Copa nunca atingiram os mesmos níveis”, teria dito, em 1995.

Para ele, o problema estava na forma com que Havelange montou o esquema de decisão sobre qual emissora ficaria com os contratos. “Precisamos de mais transparência. Historicamente, o processo de tomada de decisões sobre marketing e contratos de TV tem sido feito por um grupo muito pequeno de pessoas, a portas fechadas”, disse, sugerindo que o Comitê de Mídia e o Comitê Executivo participassem de todas as negociações.

O discurso de Chung foi duramente reprimido por Havelange há 20 anos. “Na reunião do Comitê Executivo da Fifa dois meses mais tarde, em Paris, Havelange, de uma forma muito brava, me perguntou por que eu tinha citado a questão da transparência. Ele ficou tão bravo que dava murros sobre a mesa e os tradutores simultâneos não conseguiam traduzir o que ele gritava”, contou o sul-coreano.

João Havelange, presidente da FIFA em 1999 João Havelange, presidente da FIFA em 1999

João Havelange, presidente da FIFA em 1999 (/)

“A atmosfera normalmente cordial e amistosa dos encontros de repente ficou muito tensa. Havelange deve ter pensado que eu já sabia de detalhes de seus negócios corruptos com a ISL, com a qual ele estava envolvido naquele momento”. Chung disse que só entendeu o motivo da ira do brasileiro anos depois. “Entre 1992 e 2000, Havelange recebeu 50 milhões de dólares em propinas por uma empresa chamada ISL”. Citando um processo na Justiça suíça, o coreano apontou que o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, também foi beneficiado pelos depósitos.

O coreano revela que mesmo Joseph Blatter, o atual presidente e então braço direito do brasileiro, sabia do esquema. “Um dia, Blatter encontrou uma transferência da ISL para uma conta da Fifa com uma mensagem em anexo dizendo que era um pagamento para Havelange. No lugar de abrir uma investigação, ele simplesmente retornou o cheque para a ISL”. Para Chung, Blatter mereceria por esse ato uma suspensão por toda sua vida do futebol. “Se isso tivesse ocorrido, a Fifa não estaria na crise de hoje.”

Mas o coreano alerta que o Comitê de Ética da Fifa jamais fez algo efetivo para lidar com o caso e só começou a investigar em 2012, onze anos depois da falência da ISL. O resultado foi “exonerar” Blatter de qualquer responsabilidade. Em 2013, Havelange, então com 96 anos, renunciou ao cargo de presidente da honra da Fifa para escapar de qualquer investigação.

(com Estadão Conteúdo)