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Cabo de vassoura, histórias e totó: um dia com René Simões em Cotia

Por Da Redação 10 Maio 2012, 10h03

René Simões assumiu há menos de três meses o recém-criado cargo de diretor técnico geral do São Paulo com a missão de implantar uma filosofia de jogo a ser disseminada em todas as categorias de base, fazer o que chama de ‘pressão inteligente’ e estabelecer uma relação afetiva dos atletas com o clube, entre outras funções.

Neste início de trabalho, o treinador tem até dormido no hotel Centro de Formação de Atletas (CFA) de Cotia. E a Gazeta Esportiva.Net foi acompanhar um dia do profissional nas dependências das categorias de base do Tricolor, onde avisa que reside somente temporariamente.

René fica no local por cerca de 15 dias, voltando ao Rio de Janeiro para rever a família logo após os jogos dos times inferiores no sábado. Está livre também para participar de outras atividades, como congressos de CBF, Uefa ou Fifa e até mesmo comentar as Olimpíadas para a ‘Rede Record ‘a partir do fim de julho.

Quando está no CFA, conta que acorda por volta das 6 horas. Às 8 horas, permitiu a entrada da reportagem da GE.Net para vê-lo exibindo sua experiência através de histórias e métodos na tentativa de otimizar um já elogiado centro de treinamento. Confira um diário do novo homem forte das categorias de base são-paulinas.8h – Treino para jogadores e técnicos

Às 8 horas da manhã, René Simões aparece no gramado e reúne uma série de treinadores e preparadores físicos das categorias de base do clube para explicar como comandará a atividade com atletas mais velhos que voltaram de empréstimo e não estão nos planos de Emerson Leão na equipe profissional, como o lateral esquerdo Diogo e o volante Zé Vitor, entre outros atletas campeões da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2010 que não têm clube para atuar.

Ao iniciar o treino, o diretor técnico geral adota uma interação ininterrupta com seus comandados. Não chega a completar um minuto sem falar, aumentando sua voz para incentivar ou coordenar as ações. E faz questão de se colocar como um atleta, alongando e trocando passes da maneira que exigia, além de discursar como um deles.

Com a mesma intensidade que fala, René se mexe. E inicia trabalhos curiosos com o grupo dividido em duplas. Em um deles, segura um cabo de vassoura nas mãos, como todos os jogadores deveriam fazer, e os obriga a trocar passes ao mesmo tempo em que alternam o posicionamento do cabo, que vai do quadril até acima da cabeça. O treinador encena inclusive o movimento exato das pernas e do tronco em cada exercício. ‘Olhem para mim. O gesto técnico que é importante, caprichem nisso’, indica. Para ele, os cabos adaptam os atletas às mudanças de seus centros de gravidade.’Estou enchendo o saco para vocês não perderem a concentração. Foquem no treino para estarem focados no jogo. Ganhando ou perdendo, tem que ser até o fim’, grita René, mostrando proximidade dos comandados chamando-os pelo nome ou pela posição. ‘Isso, meu zagueiro!’, ‘Parabéns, meu atacante!’, ‘Concentração, lateral!’ são algumas de suas frases.

Sua ordem é para que a bola saísse do pé ou da cabeça de cada um deles com intensidade cada vez maior. Ao perceber os primeiros sinais de desgaste, lança mais uma filosofia: ‘O cansaço não pode ganhar da minha mente. Na hora que canso, penso. É a hora de jogar’, diz, repreendendo quem fixa o olhar na bola em vez de mirar o colega à frente. ‘Para que olhar para a bola? Quero ser titular!’

René quer gerar até indignação, com broncas ainda maiores aos que não fecham a cara quando se equivocam. ‘Não posso rir quando erro, porra! Quando eu errar, tenho que ficar com vergonha’, ensina, logo passando a aplicar flexões de braço como punição – e abdominais no caso de reincidência. Ele até estimula os atletas a dificultarem a vida do companheiro. ‘Complica para ele, force-o a errar. Se você forçar, o trabalho dele melhora. Faça-o errar!’, exclama. ‘E quem errar, vai se abaixar. É sob pressão!’

Demonstrando desgaste, os jogadores se olhavam cientes de que tudo aquilo era somente parte do aquecimento. A sessão terminou com duas rodas de bobinho, quando René, enfim, fala menos com os comandados. Observa enquanto conversa com os treinadores, principalmente Sérgio Baresi, técnico do sub-20 que acabou de voltar ao CFA após comandar o Paulista de Jundiaí no início do Estadual. René só intervém quando dois atletas, um deles Diogo, discutem. ‘Futebol é com o pé, não com a boca’, brigou.Após quase uma hora se aquecendo, os jogadores se hidratam e passaram a atuar em quase metade do campo. Antes, ouvem sobre a vitória do Chelsea contra o Barcelona em Londres, na primeira semifinal da Liga dos Campeões, como exemplo. ‘Sabe o que faltou ao Barcelona? Ter mais brasileiros, com a nossa criatividade para quebrar aquele esquema deles. Com o foco deles e a nossa criatividade, não tem jeito (de ser vencido)!’

Os atletas são divididos em duas equipes e chegam a discutir com René Simões, alegando que ele errou na contagem do placar. O treinador, então, passou a função de contar os gols para um dos técnicos que assistem à atividade. No final, o dirigente aceita fazer flexões de braço antes de reunir seus treinadores e conversar sobre a atividade.

À beira do campo, René aborda um garoto que acompanhou o treino do banco. Mais tarde, explica que o rapaz tem 16 anos e tinha acabado de se alojar no CFA, mas naquela semana havia chegado atrasado ao treinamento e, como punição, foi impedido de trabalhar no campo até a outra semana.

‘Falei para ele: ‘você errou, né?’. Ele se assustou. Continuei: ‘você cometeu um erro. Achou que a vida de jogador era fácil, todos os seus amigos imaginam que você está tendo uma vida muito fácil, só jogando bola aqui, né? Mas não é assim’. Ele concordou comigo. Então o avisei que o Neymar, o Lucas, o Romário, todos tiveram que passar por isso para chegar aonde chegaram’, conta R

10h30 – Aula de históriasRené Simões inicia uma série de histórias enquanto parte para uma caminhada pelos campos do CFA. A primeira deles é em relação aos seus pés. ‘Operei os dois recentemente. Quando estou no Rio de Janeiro, jogo minhas peladas todos os dias, sem descanso, e faço questão de continuar assim até os 70 anos. Só vou me aposentar aos 70 anos’, sorri o treinador de 59 anos.

No trajeto, encontra garotos como Mirrai, camisa 10 do São Paulo eliminado na primeira fase da última Copinha, e é informado que ele e seus colegas farão alistamento militar apenas por questões burocráticas, pois já sabem que serão liberados. A facilidade intriga René, que passa a falar menos.

Ao entrar em um dos campos, encontra Sérgio Baresi, que antes de cumprimentá-lo mais uma vez abraça uma funcionária lhe dizendo como foi sua volta ao centro de treinamentos em Cotia. ‘Você já sabe como é aqui, né? Só no chicote’, fala Baresi, com tom de voz bastante manso enquanto caminhava para dar sua mão direita a René.

O diretor técnico, então, desabafa. ‘Vi os garotos indo se alistar já sabendo que não serviriam o Exército. Na minha época, isso só acontecia se você tivesse um pistolão, alguém lá dentro que te liberasse. O meu pai, por exemplo, conhecia alguém e me livrou. E eu queria servir, achava que seria bom para mim. Mas ele que não queria’, conta.

Ao concluir a história, é abordado por um auxiliar de Baresi, que lhe chama de professor e, ao ouvi-lo, faz questão de colocar as mãos para trás. O auxiliar quer mostrar a René os cronômetros de pulso que tem à disposição. ‘Ainda não são os ideais, mas estamos conseguindo trabalhar com eles’, diz, ouvindo de René uma promessa de análise para troca dos aparelhos.

Com o fim do rápido diálogo, René vira o corpo e logo se forma uma roda ao seu redor. Posicionamento perfeito para o carioca contar episódios de sua vida. O dirigente explica que passou mais de um mês entrevistando funcionários do CFA para concluir o diagnóstico que prometeu a Juvenal Juvêncio. E avisa que a avaliação geral e própria será constante graças a uma experiência que teve no comando da seleção jamaicana.’Preste atenção nesta história, Baresi’, solicita. ‘Eu já estava há uns dois anos na Jamaica quando pedi ao Oswaldo de Oliveira (hoje técnico do Botafogo), que foi meu auxiliar na Arábia, para ir lá, ficar na minha casa e me avaliar por umas duas semanas. Mas avisei que era para falar a verdade, nada de me elogiar. Quando pedi para ele falar o que analisou, ele disse: ‘está tudo errado, você não é mais o mesmo, não dá para entender como você ficou assim’. Tive vontade de expulsá-lo, mas engoli, aceitei. Eu tinha me habituado à vida deles, não me vigiei. No dia seguinte, passei a ser mais disciplinador e os jogadores e dirigentes até se assustaram’, relat

‘Que interessante, hein’, reage Baresi. ‘É o que tenho pensado aqui todos os dias. Abro a janela do meu quarto ao acordar, vejo aquela paisagem, sinto o ar tranquilo e logo faço questão de lembrar que estou trabalhando. Se não for assim, diariamente, você se perde porque se adapta e o sistema te consome’, continua René.

O dirigente ainda explica a Baresi que não teve nenhuma participação na demissão de Zé Sérgio, técnico do time eliminado na primeira fase da última Copinha. ‘Quando entrei, me perguntaram se eu queria mudar alguém. Disse que não porque primeiro precisaria conhecer os profissionais’, conta, virando-se para Baresi. ‘Não tive influência na saída do Zé Sérgio, que eu não conhecia, assim como não tive na sua permanência, Baresi. Por enquanto, não mudarei nada. Depois de te conhecer, pode ser.’Com tudo esclarecido, René se despede de Baresi e seu auxiliar e deixa o campo em direção ao Reffis, onde estão alguns dos jogadores que ele treinou minutos antes. Na caminhada, conta que sua rotina teria uma novidade naquele dia: ele atenderia a um convite da professora de inglês do CFA com uma palestra sobre a utilidade da língua britânica a funcionários e jogadores.

Citar a palestra vira uma oportunidade para René, mais uma vez, lembrar de sua passagem na Jamaica. E se divertir. ‘Eu morria de rir com o Joel (Santana)’, conta, lembrando da passagem do atual técnico do Flamengo pela seleção sul-africana, quando ficou mundialmente conhecido por falar em inglês de uma maneira muito peculiar. ‘Comigo era a mesma coisa. Quando cheguei, quis explicar a eles que, no futebol, é necessário fazer mais gols do que tomar, então disse ‘you have to make more than take’. Quando contei a um professor amigo meu, ele morreu de rir. Mas os jogadores entendiam’, relata o treinador que, hoje, já fala fluentemente a língua britânic

‘Mais tarde, um dos dirigentes da federação passou a me apresentar como se eu tivesse a graduação de um professor de faculdade. Eu o corrigi, mas ele disse que eu merecia ser apresentado daquele jeito pelo que fiz com o futebol na Jamaica.’ A fama de René o levou a atrair também as mulheres jamaicanas. ‘Elas eram bem atiradas, tiravam fotos, se aproximavam. Até minha esposa, que é tranquila, chegava a ficar nervosa’, gargalha ao recordar.

11h – Exaltação e provocaçãoPerto do Reffis, René encontra um dos jardineiros do CFA enquanto passava pela ponte de um dos lagos do local. Cumprimenta o profissional chamando-o pelo nome e arrancando um sorriso. ‘Como estão os jardins?’, perguntou, bem-humorado, ao apertar a mão do tímido funcionário, que disse estar ‘tudo certo’.

Antes de entrar no Reffis, tira suas chuteiras e as bate no chão para arrancar os pedaços de grama e terra presos na sola. Logo desiste, deixando-as na porta e entrando usando somente meias nos pés. ‘Aqui não posso sujar’, explica, caminhando e mostrando os aparelhos à disposição.

‘Alguns acabaram de chegar e são raros no Brasil. Representantes das empresas vieram do exterior aqui especificamente para nos explicar como usá-los’, afirma o dirigente, que parou as explicações ao ver alguns dos que comandou realizando tratamento com gelo. ‘Pô, se eu soubesse tinha pegado mais leve com você. O que é isso, hein?! Vou ter que aliviar agora’, provoca, gerando brincadeiras entre os atletas.

Ao deixar o local, justifica a mancha de sangue em uma de suas meias. ‘Não tenho problema de unha encravada, mas fui a uma podóloga que não é a minha, fora também daqui de Cotia. Olha o que ela fez’, lamenta, mantendo, entretanto, o local machucado coberto, sem mostrar o ferimento que o incomodava.

11h20 – Médicos e slidesNa caminhada para a sua sala, René faz questão de conversar com o profissional responsável por dar os últimos detalhes aos slides de sua palestra. Faz algumas alterações e parte para o local em que os seus jogadores recebem atendimento odontológico e clinico.

O dirigente fala com orgulho dos modernos aparelhos à disposição dos garotos, como um monitor que mostra a dentista e paciente o que é feito durante a intervenção bucal. Na parte clínica, o treinador ressalta que todos os procedimentos e episódios de cada atleta são registrados por uma secretária, que envia os dados atualizados para René e outros dirigentes de maneira imediata.

Entre os consultórios, René senta em um sofá colocado logo abaixo de um quadro com uma pintura de Rogério Ceni erguendo a taça do Mundial de Clubes de 2005. O técnico explica o ‘Prêmio Rogério Ceni de desempenho’ que criou enquanto olha com certa admiração para a obra de arte, chegando a sacar os óculos escuros.

O adereço, contudo, sai de seu rosto também por outro motivo. ‘Certa vez tirei uma foto de óculos escuros e escreveram que eu não precisava ser tão antipático’, conta, emendando mais uma história. ‘Você sabia que o Renato Gaúcho usa óculos escuros em suas entrevistas por ser tímido, não para parecer marrento? Ninguém imagina que é por isso, né?’

11h40 – Medo de gansoCaminhando com tranquilidade que lhe parece peculiar, René Simões passa entre os alojamentos até um espaço de grama com um lago à frente. Seu andar, entretanto, é paralisado ao ver um grupo de barulhentos gansos entoando estridentes sons com seus bicos direcionados aos humanos que entravam no terreno.

Ao presenciar a cena, o treinador desiste temporariamente da intenção de sentar no banco de concreto que está poucos metros à frente. ‘Ali não vou me arriscar a ir, não’, afirmou, temeroso. Só aceitou andar novamente mais perto de um córrego que tinha em suas proximidades patos bem mais amistosos.

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Minutos mais tarde, viu os gansos se distanciarem e sentou no banco, sorrindo enquanto um cisne negro passava no lago. Ao levantar-se, reforça sua preocupação em lembrar constantemente que está no CFA a trabalho. ‘Acho que vou fazer como no Coritiba: colocar placas de ‘homens trabalhando’ nos campos’, brinc

11h55 – De carona para ‘casa’Preocupado com a primeira de suas duas palestras, marcada para as 12h30, René acelera os passos em direção ao seu carro. Antes de abrir a porta, conta que naquela semana havia atingido uma barra de metal com seu veículo ao ter estacionado em frente à sua sala em vez de deixá-lo no local em que está acostumad

Ao entrar no carro, segura com olhar de valorização seu aparelho de GPS. ‘Este é o meu melhor amigo’, explica, logo começando a dirigir rumo ao hotel que tem lhe servido de moradia, no local mais alto do CFA. ‘Ele me ensina a ir a todos os lugares. Só fica meio maluco na Marginal Tietê, coitado. Ele me manda virar à esquerda quando, se eu obedecer, acabo caindo dentro do rio. Preciso atualizá-lo.’

Com o volante à mão, relata sua vontade de ser fotografado ao lado dos garotos mais novos do centro de treinamento, os que têm 14 anos e dormem no hotel também. Demonstra frustração por ter esquecido que, naquele momento, todos estão na escola. ‘Mas ainda vamos tirar essas fotos hoje, hein’, cobra.

O quarto em que o dirigente tem se alojado é localizado no primeiro andar. René abre a porta de um apartamento espaçoso e organizado, com frigobar, varanda, duas camas, nenhuma roupa espalhada e uma série de livros em cima da mesa, além de pinturas com atletas e títulos conquistados pelo São Paulo. ‘Sou um devorador de livros. Passo a noite lendo-os aqui’, contou, ressaltando também bolas terapêuticas que tem à disposição para se massagear.

Para relaxar, ainda com a mesma roupa com a qual comandou o treino já no início da manhã, René logo senta em um dos colchões, espalhando seus quatro celulares no outro, e sugerindo que, durante o seu banho, seja feita uma visita aos quartos dos garotos. A preocupação do treinador é se arrumar para suas palestras – para as quais demonstra ansiedade.Antes, contudo, faz questão de avisar que nem todo o conforto o convencerá a fixar-se no hotel inaugurado em janeiro. ‘Não vou morar aqui, não. Aqui é lugar para os garotos. É só uma condição temporária, enquanto começo a introduzir o meu trabalho. Já estou procurando casa nas regiões mais próximas, como Granja Viana’, informa.

Os aposentos dos atletas também apresentam excelente organização e livros, que variam entre temas escolares e religiosos, como bíblias, além de estarem equipados da mesma maneira. René se alegra ao ouvir que não há bagunça nos apartamentos. ‘Impusemos uma rega de que as camareiras não arrumaram os quartos. Eles mesmos farão isso e eu receberei um relatório diário sobre essas tarefas deles. E vou cobrá-los’

Agora vestido com uma camisa branca com o distintivo do São Paulo e a inscrição ‘comissão técnica’, René faz graça: ‘Virei executivo’. Ao entrar no carro, lembra com saudades de sua passagem pelo Bahia no ano passado, encerrada durante o Campeonato Brasileiro. ‘A partir dali, fiz uma analogia em que o treinador de futebol é como uma roupa usada no varal: quando você a compra, a adora, mas quando ela já não te serve mais, por estar mais justa ou mais larga, você se desfaz.’

12h30 – Motivation in englishAs palestras destinadas a funcionários e atletas foram os únicos momentos do dia em que René Simões não deu liberdade total à reportagem da GE.Net. ‘Falarei sobre coisas muito pessoais minhas, entende?’, justifica o treinador, que permitiu, no entanto, que fossem acompanhados e registrados os primeiros minutos de sua conversa com os jogadores.

Apresentado em inglês pela professora especialista na língua, que depois traduz para o português diante da cara de espanto de alguns de seus alunos, René Simões começa sua explanação na língua britânica também. Mas dá um aviso em claro português. ‘Vocês não precisam de motivação quando estão no campo? Nós, treinadores e professores, também. Por que você não deram um ‘boa tarde’ forte à professora?’, pergunta, sorrindo, antes de fazer sinal para a saída da reportagem antes de ele falar da aplicação do inglês em sua experiênci

Os garotos deixam a palestra sorrindo, conversando, e René aparece logo atrás conversando com as professoras, demonstrando certa preocupação. ‘Será que eles gostaram?’, pergunta, duvidando de forma bem-humorada da resposta positiva da professora e citando um ‘causo’ de bajulaçã

‘Tem uma história em que um chefe de empresa vai dar uma palestra a seus funcionários e resolve ‘quebrar o gelo’ começando logo com uma piada. Todos gargalharam, menos um. O chefe falou: ‘só vou continuar se você me explicar porque não riu’. ‘É que não trabalho aqui’, foi a reposta’, concluiu René, arrancando gargalhadas aparentemente sin

14h30 – Almoço musicalAo caminhar para o refeitório, René elogia as condições com a qual os alimentos são preparados no CFA. ‘A comida não fica pesada, né?’. Mantendo o bom humor, aborda um funcionário que tinha uma porta de vidro quebrada ao seu lado. ‘Por que você não me deixou quebrar essa porta, hein?’, indagou, novamente arrancando sorrisos.

Antes de pegar seu prato, o técnico foi ao banheiro e saiu cantando ‘Eu sei que vou te amar’, de Tom Jobim. As professoras, que já enchiam seus pratos, acompanharam a cantoria do técnico, que passa a assoviar a mesma canção enquanto pegava os alimentos e sentava em uma das mesas ao lado de suas companheiras na música.

No papo com as professoras, René conta que tem uma filha cantora, e logo encaixa o futebol na conversa relatando que joga anualmente uma pelada com Chico Buarque. Diante do interesse das ouvintes, volta a falar de sua experiência na Jamaica com uma piada. ‘Em São Paulo, o dia tem 22 horas. No Rio e Janeiro, 24. Na Bahia, 26. E na Jamaica, 30.’

O técnico recorda de uma partida à frente da seleção local em que o estádio parecia envolto por uma fumaça, e que um de seus auxiliares, no primeiro dia, ‘não conseguia dormir’. Ao falar de maconha, lembra que pôs fim ao costume da federação de realizar teste antidoping antes dos jogos. Assim, deixou seus atletas expostos à punições severas – e só três foram pegos, segundo René, o que, para ele, prova o sucesso de sua metodologia.

Após almoçar, o dirigente levanta e olha uma mesa cheia de troféus vencidos pelas categorias de base do São Paulo. E se recusa a posar para fotos com eles. ‘Não tem nenhum troféu que conquistei aí. Não vou tirar onda com o prêmio dos outros, né?’ Antes de sair do refeitório, aborda as cozinheiras. ‘Hoje não ganhei beijo!’

15h00 – Chá no Catar e a urina transparenteRené deixa o refeitório com um copo de chá na mão. ‘Isso me lembra os chazinhos da minha época no Catar’, fala, caminhando em direção à capela do CFA. No trajeto, volta a demonstrar apreensão com a palestra que acabara de dar. ‘Será que os garotos gostaram mesmo?’, pergunta a si mesmo.

O técnico para em frente à capela e posa para fotos, mas sem entrar no local. Na sequência, enfim entra na sua sala, onde toma água de coco. Enquanto ingere o líquido, explica cada um dos livros que pôs na estante, mas dedica palavras especiais à foto em que aparece ao lado do sambista Jorge Aragão, na época da Seleção feminina. ‘Eu queria fazer uma coisa diferente para as meninas no Dia Internacional da Mulher. Soube que a maioria gostava do Jorge e liguei para ele fazer uma apresentação na Granja Comary. Ele topou na hora e ainda foi brincar no campo, se assustando com o tamanho do gol’, recorda, rindo.

Logo lembra que os garotos de 14 anos já voltaram da escola e estão treinando. Vai em direção à atividade dos garotos e, no caminho, para em frente a um campo com grama sintética. ‘Não gosto muito, mas a Fifa tem liberado e os meninos treinam aqui quando vão atuar em campos assim. Acho importante o São Paulo ter feito isso para prepará-los. Muito importante mesmo.’

Na caminhada, fala de sua preocupação com os garotos. Conta estar desenvolvendo com outros profissionais da CFA um conceito que intitulou ‘saúde esportiva’. E relata perguntar com frequência a atletas de todas as idades a cor de suas urinas. ‘A urina deles tem que estar transparente, senão significa que não estão hidratados. Às vezes algum retruca perguntado a cor da minha. Respondo: ‘quem tem que se preocupar com a urina são vocês, atletas. Mas sempre procuro controlar a minha para ficar assim também.

15h30 – Diversão com totó e apreensão com rodízioRené encontra o campo onde estão os garotos e pede ao técnico que tire quatro da atividade física que realizavam para que tirem fotos. Os meninos, no entanto, não ouvem a razão de terem sido sacados e saem do campo preocupados. ‘O que vai acontecer?’, pergunta um deles ao seu técnico. ‘Estão dispensados’, brinca o profissional, logo sorrindo para explicar a verdadeira razão de não estarem treinando.

René caminha entre o quarteto. ‘Que colher de chá eu dei para vocês, hein?’ A resposta é com risos de clara timidez. O dirigente, então, pergunta a origem de cada um e quanto tempo foram monitorados antes de chegarem ao CFA. Ressalta a trajetória de um dos garotos, avaliado por quatro anos. ‘Quatro anos! O São Paulo o avaliou por quatro anos, você viu? Não é fácil.’

Durante o bate-papo, o treinador percebe que está sem nenhum de seus quatro celulares – havia deixado todos na rápida passagem por sua sala ainda pela manhã. Apressado, avisa que subirá ao hotel sozinho em seu automóvel, checando e retornando as muitas ligações que não atendeu, enquanto a reportagem e os meninos se locomoveriam em vans.

Na porta do hotel, os garotos contam que este é o primeiro contato deles com René Simões. ‘Só o tinha visto pela televisão’, diz um deles. O diretor desce do seu carro com um dos celulares ao ouvido, mas o tira para avisar aos jogadores que deveriam tirar suas chuteiras antes de entrar para não sujarem. Todos obedecem prontamente.O dirigente, então, questiona se todos estão preocupados com a arrumação de seus quartos. A afirmação é positiva e constatada quando eles abrem as portas de seus aposentos. René abre um sorriso, mas o desfaz ao recolocar o celular no ouvido. ‘Carros de outros estados também precisam cumprir o rodízio municipal em São Paulo?! Nossa, devo estar cheio de multas!’, preocupa-se.

Os garotos, já com os quartos fechados, aproveitam para brincar na mesa de pebolim. Convidado pela reportagem a se juntar a eles, René primeiro se mostra reticente, mas logo se diverte. ‘Pô, vou acabar com eles no ‘totó”, afirma, usando o termo carioca para a atividad

O entretenimento, porém, dura pouco. ‘No meio do trabalho estamos brincando de ‘totó’, é isso? É motivo de demissão’, graceja. ‘Vamos, vocês têm que treinar e eu, retornar estas ligações.’ É o decreto do fim do dia com René Simões, encerrado às 16 horas com uma foto ao lado da maquete do CFA. E um sorriso que demonstra como o treinador está à vontade no complexo em que, apesar de todas as evidências, se recusa a chamar de cas

TORRE PARA OBSERVAÇÃO DE TODOS OS CAMPOS É A PRIMEIRA SUGESTÃO DE RENÉ

Além de implantar a nova filosofia do clube, batizada por ele de Padrão São Paulo de Qualidade, René Simões tem também alterações físicas no CFA de Cotia a serem sugeridas para Juvenal Juvêncio. A primeira delas, já apresentada ao presidente, é a construção de uma torre para observação dos campos e que também gere interação entre os treinadores.

‘Minha ideia é fazer uma torre bem alta, com capacidade de se olhar a atividade em qualquer um dos campos. A torre teria dois andares. Em um, ficariam convidados ou a imprensa. No mais alto, cada treinador teria sua mesa e um ficaria de frente para o outro, com computadores à disposição, em um círculo no qual poderiam trocar experiências e informações’, explicou o diretor técnico geral.

Juvenal Juvêncio ainda consultaria arquitetos com a preocupação também de a novidade não danificar o projeto do centro de treinamento inaugurado em julho de 2005. René Simões aguarda a resposta, mas demonstra ansiedade pela aprovação de sua primeira mudança estrutural.

Na promoção de interação entre os treinadores, ele já definiu um planejamento de que, a cada semana, cinco atletas treinem em uma categoria superior a deles, para ir se aprimorando e evoluindo. Após sete dias, o quinteto volta ao seu grupo e outros cinco passam pela mesma experiência no período seguinte.

Na parte estrutural, contudo, René ainda deve haver outras novidades antes de sua torre. O Conselho Deliberativo do São Paulo aprovou no mês passado a construção no CFA de um busto de Juvenal Juvêncio, que batizará o hotel inaugurado no início deste ano no complexo.

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