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O perigo de cabecear a bola no futebol

Estudo inédito mostra que as pancadas na cabeça podem deflagrar impactos no cérebro como os das modalidades esportivas mais violentas

Por Natalia Cuminale Atualizado em 20 set 2019, 10h10 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Nos Estados Unidos, o futebol — o nosso futebol, o da bola redonda — é tido como uma modalidade esportiva menos agressiva e mais gentil do que outras mais populares pelas bandas de lá, como o futebol americano e o hóquei no gelo. Não por acaso, ao provocar menos contusões, sobretudo no crânio, ele foi maciçamente adotado nas escolas infantis — entre os homens, não colou tanto; entre as mulheres, virou sucesso. Não há dúvida: quando se compara uma partida de futebol americano com uma de soccer, do ponto de vista da saúde, o fosso é abissal — trata-se de um embate sanguinário contra outro, quase pueril. Convém, contudo, rever a inofensibilidade do esporte da criançada brasileira. Um estudo obtido por VEJA revela que as pancadas na cabeça em disputas no alto, comuns nos cruzamentos para a grande área, produzem sequelas, embora sutis. A mais grave delas é a encefalopatia traumática crônica (ETC), que altera a memória e a cognição, distúrbio neurológico derivado de pancadas sucessivas e repentinas, como as das partidas da NFL e do boxe.

“Impõe-se um alerta”, diz Renato Anghinah, neurologista da Universidade de São Paulo, responsável pelo estudo. “Precisamos proteger os jogadores de futebol, da infância à idade adulta, para evitar as concussões cerebrais.” No levantamento, foram acompanhados 26 jogadores de futebol aposentados, com idade média de 60 anos. Eles realizaram uma bateria de exames: ressonância magnética e tomografia, para avaliar a imagem e a função do cérebro; eletroencefalograma, para mapear a atividade elétrica do órgão; e avaliação neuropsicológica, de modo a verificar o desempenho cognitivo, como a habilidade de planejar e executar ações. Os exames dos ex-atletas apresentaram pequenas alterações quando comparados aos de pessoas que nunca jogaram futebol (veja detalhes no quadro). “Houve alteração de conectividade em regiões comumente associadas a encefalopatia traumática crônica”, diz Claudia da Costa Leite, coordenadora do laboratório de investigação médica e ressonância magnética da USP, que participou do estudo.

Na encefalopatia traumática crônica — tema do filme Um Homem entre Gigantes, protagonizado por Will Smith —, as células neurais podem morrer ou sofrer rupturas que as impedem de funcionar adequadamente. Com o tempo, ocorre a liberação de uma proteína, a tau, encontrada no interior dos neurônios. Duas horas depois da pancada, ela é depositada no cérebro e lá permanece por cerca de três meses. Se as concussões são frequentes, o depósito de tau é sempre renovado. Os sintomas começam com uma diminuição discreta da memória e da atenção. Conforme avançam, a amnésia torna-se habitual, assim como a lentidão do pensamento e a dificuldade para planejar e realizar ações concretas. A ETC pode vir acompanhada também de agressividade e, em alguns casos, da doença de Parkinson. Não se deve, é evidente, relacionar automaticamente os golpes na cabeça a episódios de ETC — os baques podem acontecer e ficar só nisso, sem evolução. Mas estatísticas recentes mostram que 17% dos indivíduos que sofrem concussões podem desenvolver ETC no futuro.

RAÇA – Bellini: tratado como portador de Alzheimer, ele tinha ETC ./Folhapress

Embora preocupante, o diagnóstico precoce e preciso dessa condição ainda não existe. Os exames disponíveis atualmente apresentam alguns indícios, mas o veredicto, por enquanto, só é dado depois da morte. Um exame no cérebro, chamado de análise anatomopatológica, consegue diferenciar o problema causado pelo esporte de uma doença comum, o Alzheimer. Foi essa a história do zagueiro Hideraldo Luís Bellini (1930-2014), o vascaíno conhecido pela raça dentro de campo, que nunca desistia, o primeiro brasileiro a erguer a Jules Rimet, em 1958. Durante dezesseis anos, até sua morte, ele foi tratado como se tivesse Alzheimer. Exames posteriores identificaram a ETC, fruto do choque com outras cabeças — houve quem desconfiasse do contato frequente com bolas mais duras, as do passado, feitas de couro e que se encharcavam em dias de chuva, possibilidade depois descartada. O ruim mesmo é bater osso com osso. Os Estados Unidos, permanentemente interessados no tema, em virtude da violência do futebol americano, preferiram a cautela, antes até de ter a certeza entregue por pesquisas como a apresentada agora pela USP: lá, as crianças com menos de 11 anos não podem dar cabeçadas na bola. A regra foi imposta em 2015 pela Youth Soccer, organização que supervisiona as ligas de futebol para crianças e adolescentes. Vem sendo respeitada — e não seria absurdo adotá-la também no Brasil.

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Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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