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Bom humor e sinceridade marcam redenção de Levir Culpi

Depois de longa estadia no Japão, ele voltou ao país sem os velhos vícios dos técnicos brasileiros. Com isso, reconquistou respeito de torcida e especialistas

Por Da Redação 26 nov 2014, 23h06

Ao barrar Ronaldinho e Jô e abolir a concentração, Levir Culpi deu um recado bem claro ao restante do grupo: a relação entre eles teria que ser de confiança e dedicação absoluta.

O paranaense Levir Culpi já havia conquistado o título da Copa do Brasil no passado – em 1996, pelo Cruzeiro, justamente o adversário do histórico título do Atlético-MG na decisão desta quarta-feira. Aos 61 anos, ele também tem títulos estaduais e outras campanhas de destaque por grandes clubes do futebol brasileiro no currículo. No entanto, foi apenas depois de passar por fases complicadas e retornar de uma longa aventura no Japão (treinou o Cerezo Ozaka de 2007 a 2013), que Levir alcançou um grau de maturidade pessoal e profissional que o recolocou na elite dos treinadores do Brasil. Quando voltou a Belo Horizonte, em abril, Levir já não era mais visto como o treinador de ponta que foi na década de 1990 e no início dos anos 2000. No entanto, com seu perfil conciliador e uma simplicidade incomum para o cargo, o técnico do Atlético-MG conquistou o respeito dos atletas – que, segundo ele próprio, ainda estavam um pouco deslumbrados com a conquista da Libertadores de 2013 – e também da torcida e da opinião pública. Levir apresentou novidades (como o fim da concentração em jogos em casa), teve coragem para abrir mão de medalhões desinteressados, elegeu novos líderes e armou uma equipe ofensiva e aguerrida. E ao invés de se vangloriar e chamar para si a responsabilidade pelos feitos conquistados pelo Atlético em 2014, Levir transferiu os méritos aos atletas e aos fãs que empurraram o time rumo ao inédito troféu.

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Levir Culpi

Como jogador:

Foi zagueiro entre as décadas de 70 e 80. Passou, sem grande sucesso, por Coritiba, Botafogo, Santa Cruz, entre outros

Como treinador:

Estreou pelo Caxias, em 1986, e passou por grandes clubes, como Cruzeiro, Atlético-MG, São Paulo, Palmeiras e Botafogo. No Japão, treinou o Cerezo Osaka

Principais títulos:

Copa do Brasil de 1996 (Cruzeiro)

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Recopa Sul-Americana 1998 (Cruzeiro)

Recopa Sul-Americana 2014 (Atlético)

Copa do Brasil de 2014 (Atlético)

Paulistão de 2000 (São Paulo)

Mineiro de 1996 e 1998 (Cruzeiro)

Mineiro de 1995 e 2007 (Atlético)

Levir retornou ao Atlético, pelo qual conquistou o Brasileirão da Série B em 2006 e os Mineiros de 1995 e 2007, para substituir Paulo Autuori. Ao chegar, Levir rapidamente identificou que o grupo parecia “sem fome” de novas conquistas depois de todo o sofrimento de 2013. Ao ver o ídolo Ronaldinho Gaúcho cada vez mais desinteressado pela vida de atleta profissional, Levir tomou uma atitude corajosa: ao invés de jogar o meia contra a torcida, o liberou de forma muito elegante. Deixou que o meia resolvesse seu futuro com calma até que a negociação com o Querétaro do México fosse concretizada. Sem entrar em conflito, fez apenas uma crítica sutil ao comportamento da maioria dos jogadores do país.

“Chega a uma altura da vida em que não dá mais. O Ronaldinho atingiu o nível mais alto do futebol. Foi campeão, melhor jogador do mundo. Mas, para manter a concentração exclusivamente no futebol é preciso ser um Cristiano Ronaldo. O Ronaldinho não tem a personalidade do Cristiano, é brasileiro e isso já significa muito”, afirmou em recente entrevista ao canal SporTV. Meses depois, Levir teve comportamento semelhante ao se desfazer de outros atletas, incluindo o atacante Jô, que voltou desmotivado após a Copa do Mundo. Ele poderia muito bem ter massacrado publicamente Jô, André e Emerson, que abusaram das festas e foram afastados por indisciplina. Mas, novamente usando a experiência de quem trabalhou no organizado futebol japonês por seis anos, culpou a falta de educação dos brasileiros. “Acho que foi uma falha minha. Eles não entenderam o recado, eu não consegui passar. Emerson, André e Jô são muito queridos, mas são frutos da educação desse país. Têm boas índoles, mas a parte profissional está longe de como deve ser. Não conseguimos consertar isso”, afirmou.

Ao barrar Ronaldinho e Jô e abolir a concentração, Levir deu um recado bem claro ao restante do grupo: a relação entre eles teria que ser de confiança e dedicação absoluta. Sem o meia, outras referências do time, como Victor, Diego Tardelli e Marcos Rocha teriam que assumir maiores responsabilidades. E foi justamente na campanha da Copa do Brasil que estes atletas retomaram os grandes momentos vividos sob o comando de Cuca em 2013. Levir teve méritos incontestáveis ao manter o que a equipe tinha de melhor: vocação ofensiva, movimentação constante e velocidade. Para isso, o técnico apostou em peças que pareciam esquecidas, como o atacante Luan e os meias Guilherme e Dátolo. Além deles, Levir mais uma vez demonstrou sua preocupação em revelar jovens talentos, uma das marcas de sua carreira, e lançou nomes como Jemerson e Carlos, que foram destaques da campanha.

Porém, os momentos de consagração de Levir vieram na hora das entrevistas ao final das partidas. Extasiado com as classificações épicas do Atlético-MG contra Corinthians e Flamengo, Levir deixou aflorar o seu bom humor. Como se não tivesse mais nada a provar em seus quase 30 anos de carreira como técnico, ele dizia estar apenas desfrutando do momento e curtindo junto com o torcedor atleticano o momento mais glorioso da história do clube. Bem diferente da maioria de seus colegas de profissão, ele não se aproveitou da conquista para inflar o ego ou se dizer um injustiçado pelos anos em que esteve esquecido. Em junho, Levir, que foi um zagueiro de pouco destaque na década de 70, já havia escancarado sua ausência de estrelismo ao lançar sua autobiografia intitulada Um Burro com Sorte?, na qual conta episódios marcantes de sua carreira e brinca com a habitual cobrança das arquibancadas. Com a conquista de seu segundo título em sete meses – antes, havia conquistado a Recopa Sul-Americana diante do Lanús em outra partida sofrida – e a vaga para a Libertadores, Levir provou aos torcedores alvinegros que sua volta foi uma escolha acertada e deve ter seu contrato renovado para a próxima temporada.

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