As reações de jogadoras sobre banimento de mulheres transexuais do vôlei
Capitã da seleção brasileira, Gabi Guimarães saiu em defesa de Tiffany, atleta trans do Osasco; ex-colega de clube, Tandara, celebrou nova regra da CBV
A decisão da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) pelo banimento de jogadoras transexuais de competições da entidade gerou reações divergentes de jogadoras e ex-jogadoras da modalidade. A principal impactada pela medida é Tiffany Abreu, atleta trans que atua na Superliga desde a temporada 2016/17 e defende o Osasco.
A capitã da seleção brasileira, Gabi Guimarães, se posicionou nas redes sociais criticando a decisão da CBV e como ela foi tomada. “Aconteceu uma mudança de rumo na última semana que foi apenas comunicada às pessoas envolvidas. Sem explicação plausível, já que a regra internacional já existia antes, e sem nenhum olhar pra um ser humano que tem uma história, que está com uma temporada em andamento e que depende do seu trabalho para viver”, escreveu a ponteira. (Confira na íntegra ao fim da matéria)
Outra que saiu em defesa de Tiffany foi a bicampeã olímpica, Sheilla Castro. Também em suas redes sociais, a ex-jogadora escreveu: “Ela construiu sua carreira no voleibol brasileiro cumprindo os critérios estabelecidos pelas próprias entidades esportivas e agora está vivendo um momento que impacta diretamente sua carreira e sua vida.” (Confira na íntegra ao fim da matéria)
Em reação divergente, a ex-companheira de clube de Tiffany, Tandara Caixeta, celebrou a decisão da CBV. A ex-jogadora comentou: “Vitória!” em um post da também ex-atleta de vôlei Patrícia Borges de comemoração ao banimento.
Tandara sempre teve o posicionamento contrário a atletas trans no vôlei feminino, mas chegou a ajudar na contratação de Tiffany para o Osasco na temporada 2021/22, quando ainda defendia a equipe. As atletas, no entanto, não atuaram juntas, pois Tandara cumpria suspensão por doping, ainda válida até julho de 2027, e anunciou sua aposentadoria das quadras em fevereiro deste ano.
O Osasco afirmou em nota que “junto com seu departamento jurídico, está avaliando a normativa publicada para definição dos próximos passos” e “reafirma seu integral apoio a Tifanny neste momento e reforça seu compromisso permanente com o respeito e a valorização de todas as pessoas que fazem parte da sua história”.
Tiffany também pronunciou depois da decisão: “Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão. Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês. Obrigado e nos vemos novamente no próximo jogo”, disse a jogadora após derrota do time no Campeonato Paulista, competição que está liberada para disputar.
Confira a nota na íntegra da Gabi Guimarães:
“‘Quem vai estar na guerra ao seu lado?
E isso importa? Mais do que a própria guerra.’
Hoje abro o post com essa frase que tem feito cada vez mais sentido dentro de mim. Quem está verdadeiramente ao seu lado? Quando algo importante acontece com você, quem segura sua mão? Quem se expõe? Quem olha no seu olho e fica junto?
Reflito sobre isso fazendo também um balanço sobre como agi ao longo da minha carreira. Das oportunidades que perdi de falar o que sentia ou de me posicionar, porque não estava segura o suficiente, ou por medo, ou porque simplesmente é muito mais fácil e cômodo ficar quieta no meu canto.
Mas o mais fácil e cômodo normalmente não é o caminho mais correto. Então hoje quero falar publicamente sobre a minha revolta e o meu incômodo com a forma como o caso da Tiffany vem sendo tratado no nosso país.
Aconteceu uma mudança de rumo na última semana que foi apenas comunicada às pessoas envolvidas. Sem explicação plausível, já que a regra internacional já existia antes, e sem nenhum olhar pra um ser humano que tem uma história, que está com uma temporada em andamento e que depende do seu trabalho para viver. A mudança foi planejada ou pensada por quem? Defendendo os interesses de quem? Em algum momento alguém pensou na pessoa da Tiffany, em como isso impactaria a vida dela? Já são nove anos disputando Superliga. Ou só vamos reforçar que as pessoas trans devem ficar à margem da sociedade mesmo?
Para tudo na vida existe bom senso, existe timing e existe a forma de ser feito. É muito lindo ver no mês de junho todo mundo colocando arco-íris pra jogo e ganhando notoriedade com a causa. Mas o mês de junho passa e quem fica na guerra ao seu lado? Quem fica quando os homofóbicos destilam seu preconceito? Quem te dá a mão e te defende? Quase ninguém, né?
Recentemente a seleção masculina foi alvo de ataques gravíssimos e quase nada foi dito ou defendido. A gente só vai poder ter o direito de ser quem somos se formos campeões olímpicos? Em caso de derrota, volta todo mundo pro armário? Porque esse é o recado que está sendo transmitido. E aí? Quem vem pra guerra com você?
Realmente se posicionar não é fácil, mas é uma escolha. Porque já dizia outro ditado: não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. É preciso se posicionar sempre. É preciso enxergar além do superficial para ver o que realmente importa. Tiffany é um ser humano que merece todo nosso respeito. Mas, infelizmente, foi duramente desrespeitada.
‘Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém. Ninguém se importa comigo.’”
Confira a nota da Sheilla
“Tenho acompanhado tudo o que aconteceu nos últimos dias com a Tiffany. Ela construiu sua carreira no voleibol brasileiro cumprindo os critérios estabelecidos pelas próprias entidades esportivas e agora está vivendo um momento que impacta diretamente sua carreira e sua vida. No meio de tantas opiniões, discussões e julgamentos, acho importante não esquecer de quem está vivendo tudo isso. Porque tem horas em que, para além da discussão sobre regras e elegibilidade, precisamos olhar para a pessoa. Para a Tiffany. Para a atleta que construiu sua história dentro das quadras. Hoje eu só quero deixar aqui meu respeito, meu carinho e meu apoio a ela.”







