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Argentina: brutalidade no futebol é um alerta para o Brasil

Os casos de violência envolvendo Corinthians e Palmeiras na Libertadores colocaram as torcidas organizadas na mira. O Brasil, porém, ainda não vive um cenário tão explosivo quanto a Argentina. O drama vivido pelo país vizinho, aliás, é um bom exemplo dos riscos da impunidade no futebol - lá, para piorar, o futebol se mistura com a política e o sindicalismo. VEJA convidou um jornalista argentino para relatar essa gravíssima situação

Por Federico Bassahún, de Buenos Aires 17 mar 2013, 14h19

Os torcedores organizados da Argentina precisam que os políticos os protejam e garantam sua impunidade. Em troca, os políticos usam os “barrabravas” como tropas de choque e de propaganda

Rafael Di Zeo era o líder da torcida organizada do Boca Juniors quando se casou, em dezembro de 2005, com Soledad Spinetto, a ex-secretária particular de Felipe Sola, o governador da maior província da Argentina, a de Buenos Aires. A festa, que contou até com a presença de Diego Maradona, tinha uma mesa reservada para as autoridades. No livro Os Doze, o jornalista Gustavo Grabia escreve que entre os políticos presentes estava Raul Rivara, um ex-ministro de segurança de Buenos Aires, que já sabia que Di Zeo tinha sido condenado a quatro anos de prisão por agressões e ameaças graves. Também estava lá Carlos Stornelli, um procurador federal que tinha conseguido, em 2001, decretar a prisão de Carlos Menem por comércio ilegal de armas com a Croácia e o Equador durante sua presidência. Hoje, Di Zeo batalha (literalmente) para voltar a comandar a “barrabrava” do Boca – e Stornelli é o chefe da segurança do clube.

Os laços que unem as torcidas organizadas aos políticos e sindicalistas na Argentina – onde a ONG Salvemos o Futebol já contabiliza 266 mortes relacionadas ao futebol -, são profundos. Os guarda-costas do filho de Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho e que sonha em ser “o Lula da Argentina”, são Oscarcito e Polaco, dois famosos “barrabravas” do Independiente. Em 1998, o então presidente do Chacarita, Luis Barrionuevo, líder do Sindicato dos Trabalhadores de Restaurantes e ainda hoje um dos sindicalistas mais poderosos da Argentina, confessou à revista El Gráfico, entre risos, que estava levando a direção da torcida organizada de seu clube ao Mundial da França. No total, de acordo com informações reunidas pelo jornalista Daniel Olivera no livro O Macho, Barrionuevo gastou 60.000 dólares em passagens aéreas, hospedagem num convento nos arredores de Paris e nos serviços de um tradutor que acompanhou os dez “barrabravas” convidados por ele. Nada é coincidência: em abril de 2010, sessenta torcedores uniformizados do Chacarita empurraram e insultaram o ex-juiz federal Mariano Bergés, que investigou o próprio por sua relação com a “barrabrava”.

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As facções uniformizadas também são protegidas pelos dirigentes dos clubes, que as financiam através de ingressos, concessões de bares e postos de trabalho dentro de suas instalações (Gonzalo Acro, um “barrabrava” assassinado em 2007, era funcionário do River) e às vezes até com porcentagens dos passes de atletas das categorias de base. É por isso que hoje, na Argentina, as batalhas campais e tiroteios não acontecem apenas entre torcidas rivais, mas também dentro das próprias “barras”. É lógico: lutam por despojos de guerra. Há duas semanas, foi morto a tiros Alejandro Adrián Velázquez, de 40 anos, durante uma briga entre torcedores do Tigre. A torcida organizada do clube administra o bar e os campos de futebol society da agremiação – e é responsável por comercializar seu merchandising oficial. Até a Associação de Futebol da Argentina (AFA) acoberta os “barrabravas”: não por acaso, na Copa da Alemanha, em 2006, o Borrachos del Tablón, a organizada do River, revendia ingressos para as partidas da seleção argentina, entregues pela Fifa à entidade, nas ruas.

Como escreveu Mónica Nizzardo quando se afastou da ONG Salvemos o Futebol, “na Argentina, os únicos que resistem de verdade e que tentam remover o véu de cumplicidade entre polícia, dirigentes, torcedores e políticos são os parentes das vítimas”.

Federico Bassahún, de 30 anos, trabalha para o diário Perfil. Já escreveu para o jornal Olé e colabora com publicações inglesas, como a revista Four Four Two e o diário Mail On Sunday.

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