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Arena Pernambuco: o teste de fogo do Brasil dentro da Fifa

O anúncio dos palcos da Copa das Confederações, na quinta, pode confirmar Recife no torneio - ou transformar o torneio num fiasco histórico para o país...

Por Davi Correia, do Recife, e Giancarlo Lepiani 6 nov 2012, 10h31

Assim como outras três arenas previstas para a Copa das Confederações, a obra em São Lourenço da Mata não estará pronta no fim deste ano, quando começa a contagem regressiva de seis meses para o torneio

Na segunda-feira, os responsáveis pela construção da Arena Pernambuco anunciaram a conclusão da cobertura de todo o setor sul do novo estádio. Mais que um passo importante para a conclusão das obras – que alcançaram 70% do total neste início de semana -, a novidade foi uma cartada significativa para tentar evitar um fiasco de proporções tão grandes quanto a arena, que terá capacidade para 46.000 pessoas. Recife vive uma semana decisiva, já que está a poucos dias de descobrir se participará ou não da Copa das Confederações de 2013. Na quinta-feira, representantes da Fifa vêm ao país para anunciar, em uma entrevista coletiva em São Paulo, quais serão as sedes da competição, considerada o ensaio geral dos brasileiros para a Copa do Mundo de 2014. Sabendo que corria o risco de mudar seus planos por causa de atrasos nas obras nos estádios, a Fifa preparou três tabelas, com seis, cinco e quatro cidades-sedes. Se a entidade avaliar que todas as arenas estão num estágio satisfatório, o plano original – com seis sedes – será mantido. Salvador e Recife são as duas incógnitas na equação – e, hoje, a capital pernambucana tem o inglório status de ser a principal dúvida para o evento do ano que vem. Caso a Fifa tenha de mudar a configuração do torneio por causa do fracasso da nova arena, o estado governado por Eduardo Campos será o protagonista de um episódio constrangedor. Campos, que costura uma candidatura à Presidência no ano do Mundial, sabe que a ausência na Copa das Confederações pode ser péssima para sua imagem de bom administrador. Da mesma forma, a capital pernambucana torce para não ficar marcada como a primeira cidade-sede a confirmar os temores da Fifa sobre a realização da Copa no Brasil.

Orçada em 532 milhões de reais, com financiamento federal de cerca de 400 milhões, a Arena Pernambuco está sendo erguida em São Lourenço da Mata, a cerca de 20 quilômetros do centro do Recife, pouco mais de 40 minutos de carro a partir da praia de Boa Viagem. O governo estadual espera que a obra na chamada “Cidade da Copa” seja o marco inicial de um processo maior de crescimento e desenvolvimento econômico na região. “A Cidade da Copa é o maior legado que o torneio deixará para o Brasil. Não tem nada parecido nas outras cidades”, afirma Ricardo Leitão, secretário extraordinário da Copa de 2014 em Pernambuco (leia mais na entrevista abaixo). De acordo com ele, as obras “estão avançando dentro do que foi estimado”. A Fifa, porém, não esconde a preocupação com o prazo de conclusão dos trabalhos. De acordo com o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, a dúvida sobre Recife só será esclarecida na quinta, data em que a Fifa deve anunciar os detalhes sobre a venda de ingressos para 2013 – e quando, portanto, já não será mais possível fazer alterações de última hora na tabela. “Uma vez iniciada a venda de ingressos, será muito complicado se qualquer uma das sedes vier a ter problemas para receber as partidas”, escreveu o cartola numa carta divulgada na última sexta-feira. “E aqui aproveito para bater mais uma vez na tecla da prontidão. A questão não é ter tudo concluído no dia da abertura do torneio, mas a tempo para a realização de pelo menos dois eventos-teste. É por isso também que sempre reiteramos a necessidade de os estádios das grandes competições da FIFA estarem prontos seis meses antes do primeiro jogo.” O recado dado por Valcke a menos de uma semana do anúncio das sedes aumentou ainda mais a apreensão em torno da situação do estádio do Recife.

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Os números da futura arena

46.100 lugares nas arquibancadas, todos cobertos. O estádio também deverá ter camarotes privados

532 milhões de reais é o custo total da obra, que terá cerca de 400 milhões de financiamento federal

8 jogos serão realizados no estádio na Copa das Confederações (3 duelos) e na Copa de 2014 (5)

19 quilômetros separam o estádio do marco zero do Recife. Para receber os visitantes, ele terá…

4.700 vagas em cinco áreas de estacionamento ao redor da nova arena, em São Lourenço da Mata

Assim como outras três arenas previstas para a Copa das Confederações, a obra em São Lourenço da Mata não estará pronta no fim deste ano, quando começa a contagem regressiva para o torneio (a abertura está marcada para 15 de junho). “Entregaremos o estádio na data limite para a utilização na Copa das Confederações: em fevereiro”, avisa o secretário Leitão, lembrando que o prazo de seis meses citado por Valcke é considerado o ideal, mas não o obrigatório para garantir o uso de uma arena na competição. Na última visita de Valcke ao Brasil, Recife aproveitou até para agendar a inauguração: 14 de abril, um domingo, às 17 horas, ainda sem equipes definidas. Foi mais uma tentativa de tranquilizar a Fifa e o Comitê Organizador Local (COL) sobre a entrega do palco pernambucano do torneio. “Não vou duvidar da palavra e da assinatura de um governador, então acredito que a arena estará pronta”, disse o presidente da CBF e do COL, José Maria Marin, na ocasião. Na segunda, enquanto os operários concluíam parte da cobertura, Marin visitava as obras no Recife. Durante três horas, ele inspecionou os trabalhos sem dar nenhuma declaração à imprensa. Assim como as palavras de Valcke, o silêncio de Marin só serviu para reforçar a ansiedade dos pernambucanos. Leitão tentou ser otimista. “Se já estivéssemos excluídos, por que ele viria aqui?”, perguntou. O secretário acha que Marin foi pessoalmente a Recife porque queria confirmar os relatórios mais recentes sobre a obra, já que não participou das últimas inspeções da Fifa e do COL, em setembro e outubro. “No fim de novembro a obra deve atingir os 80%. Restarão 20% para dezembro, janeiro e fevereiro”, projetou Leitão, que informou ainda que Pernambuco não enviará nenhum representante para acompanhar o anúncio de quinta-feira. “A Fifa não convida ninguém para esses eventos”, justificou.

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Mobilidade e legado – Ainda que o estádio fique pronto a tempo de receber a Copa das Confederações – Recife receberia três partidas da primeira fase da competição -, o governo pernambucano também enfrenta o desafio de oferecer a infraestrutura necessária no entorno da nova arena. A obra fica numa região relativamente isolada, cercada de verde. Há três opções para chegar ao estádio: pelas rodovias BR 101, BR 232 e BR 408, cujas pistas ainda estão ruins, com muitos buracos. A maior parte, porém, já está sendo reformada. Quanto mais próximas da arena, melhores estão as pistas. Muitos moradores da capital pernambucana também se dizem preocupados com a situação de uma via importante da cidade, a Avenida Recife, que também deverá ser muito usada pelos visitantes que chegarem para o torneio. Ela costuma ser um ponto de alagamento – e a competição acontecerá bem na época das chuvas. Recife, aliás, é a cidade-sede da Copa em que mais costuma chover no período da disputa, em junho. Por causa dessas dificuldades, uma alternativa importante para transportar torcedores e convidados seria o transporte público. O governo garante que haverá pelo menos um trecho de metrô pronto até fevereiro. Na capital do estado, entretanto, é difícil achar quem acredite na conclusão da obra dentro desse prazo. O projeto de mobilidade urbana é considerado essencial para o sucesso da empreitada – não necessariamente na Copa, quando esquemas alternativos podem dar conta do transporte dos visitantes, mas sim no futuro do estádio depois de 2014. A arena foi projetada para uso múltiplo, com capacidade para receber grandes shows, convenções e outros eventos. O complexo deverá receber restaurantes, cinemas, um teatro, um museu e um shopping. A ligação viária desse novo polo comercial e esportivo com as regiões mais populosas do Recife pode ser a chave para que os planos do governo se concretizem.

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Ricardo Leitão, secretário extraordinário da Copa de 2014 em Pernambuco, falou ao site de VEJA sobre as obras em São Lourenço da Mata e garantiu estar confiante no sucesso da empreitada

A construção da Arena Pernambuco está fora do prazo? As obras estão avançando dentro do que foi estimado. Em abril de 2011, apresentamos à Fifa um plano de aceleração das obras, que está sendo executado dentro do proposto. Entregaremos a arena na data limite para a utilização do estádio na Copa das Confederações: em fevereiro.

A melhor herança da Copa para o Recife será o estádio ou as obras ao seu redor? A Cidade da Copa é o maior legado que o torneio deixará para o Brasil. Não tem nada parecido nas outras cidades. As outras estão apenas construindo ou reformando estádios. Nós estamos criando um vetor de crescimento urbano em uma região metropolitana adensada e um sistema viário para vincular esse novo polo ao sistema viário metropolitano. É um legado que ficará para a população por gerações, envolvendo reforma do aeroporto, novas rodovias e investimentos no metrô. Se não fosse pela Copa do Mundo, não teríamos todos esses investimentos.

O estádio fica em outro município. Isso pode afastar o torcedor que mora no Recife? A capital tem três estádios de futebol: do Náutico, do Santa Cruz e do Sport. Todos estão localizados em bairros residenciais, pois a cidade cresceu muito. Quando foram construídos, há mais de 50 anos, não era assim. No caso do Náutico, a torcida está acostumada a ir ao estádio andando. A ideia de levar a Arena Pernambuco para longe do centro foi uma decisão do governo no sentido de desconcentrar o adensamento metropolitano. O importante é ter transporte seguro e rápido para o torcedor. O Náutico fez um contrato de 30 anos para levar seus jogos para lá, o Sport também está negociando um acordo. Do ponto de vista do futebol, o estádio desde já está totalmente viabilizado. Não há risco de se tornar um elefante branco. Além disso, quem administrar o estádio não vai querer só futebol o ano inteiro. Eles querem datas para outros eventos que dão mais rentabilidade à arena, como shows e outros eventos.

Como estão as obras de acesso e a prevenção contra alagamentos, já que costuma chover muito em junho e julho? A BR 408 está sendo duplicada. Isso faz parte da nossa obrigação dentro do caderno de encargos da Fifa. É nosso dever recuperar as vias que levam à arena. Existe, sim, uma preocupação especial com as chuvas, não só em relação às rodovias, mas também na própria questão da drenagem do gramado.

A rede hoteleira do Recife está pronta para receber os visitantes? Em 2011, a Fifa identificou um déficit de hotéis de 4 e 5 estrelas na cidade. Hoje, porém, há cerca de vinte hotéis em reforma ou em construção na região metropolitana. Entre os 3 estrelas, não há problema. Podemos também receber turistas em transatlânticos ancorados no Porto do Recife, por exemplo.

Haverá metrô no estádio na Copa das Confederações? A linha está sendo ampliada para chegar a cerca de 1.600 metros da arena. Isso ficará pronto até fevereiro. Vamos instruir as pessoas a usar o metrô e depois pegar um ônibus circular até o estádio.

O governo cogita decretar feriado nos dias de jogos? Pretendemos adotar ponto facultativo e feriado escolar quando houver partidas em dias de semana. Isso vai ajudar muito o trânsito da cidade a funcionar, já que ainda temos um problema grande em termos de mobilidade urbana.

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