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Ao defender uma única liga, CBF tenta pôr fim a novela — mas há muita lição de casa pela frente

O movimento de bastidores está mais quente do que nunca, em um jogo de convencimento envolvido por lances jurídicos

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 19 ago 2026, 15h21
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Foi como um 7 a 1 fora do gramado. Logo depois do fim da Copa do Mundo, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, anunciou uma novidade sem direito a VAR: a venda de uma participação de 20% da entidade para um grupo de investidores liderado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, que vem a ser genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A iniciativa poria em mãos privadas uma parte da Copa e outros torneios. Os dirigentes da Uefa, a União das Associações Europeias de Futebol, espantados, anunciaram boicote de todas as competições promovidas pelo grupo de Infantino, que recuou, como se nada houvesse. Mas o bode permanece na sala, e parece ser difícil tirá-­lo, a ponto de pôr em xeque a reeleição do italiano que manda na bola.

O estrondo internacional — mas como assim, uma confederação oferecer de bandeja a Copa, entregando a alma do esporte? — é fenomenal espelho para entender como funciona o jogo de poder econômico no futebol. Infantino fez o que fez, afinal, para se perpetuar no cargo. A saída saudável para posturas como a do cartolão é a organização, a estrita vigilância, o respeito às regras do mercado e à história do esporte — sem o quê, acaba valendo tudo. Cabe, portanto, acompanhar um movimento brasileiro, que caminha em silêncio e cujo futuro começou a ser decidido agora. Direto ao ponto: a existência de duas ligas no Brasil, a Libra e a FFU, a Futebol Forte União, atreladas a fundos financeiros, tem provocado mais distorção e brigas do que soluções. Os grandes times nacionais não se uniram e, portanto, ficaram divididos entre elas. Por isso, na segunda-feira 10, um encontro de dirigentes da CBF com os presidentes dos quarenta clubes das séries A e B representou o início de uma boa revolução.

A CBF, em postura correta, imagina a existência de uma única liga. “É fundamental um campeonato competitivo, e não uma cisão”, diz Amir Somoggi, diretor da SportsValue, um dos maiores especialistas brasileiros em marketing e gestão esportiva. Para Somoggi, parte dos clubes que se associaram aos negócios propostos pela Libra e pela FFU teve uma postura amadora ao fechar acertos de valores baixos, por precisarem de dinheiro emergencial. “Muitos deles já torraram o que receberam, sem planejamento algum”, diz Somoggi. O ideal seria a construção de uma estrutura como a NBA — nos últimos sete anos, houve sete campeões.

A Libra fechou com os times que atraiu, como o Flamengo, o Palmeiras e o São Paulo, a venda de direitos de televisão para a Globo. A FFU, de Corinthians, Vasco e Atlético-MG, em troca de aporte imediato, cedeu porcentual de até 20% de direitos televisivos para diversas emissoras e também para a CazéTV, por cinquenta anos, a um grupo de investidores. O racha pressupõe eterna queda de braço, em que os mais fortes sempre vencem.

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O movimento de bastidores da CBF — cujo desfecho pode vir até o fim do ano — está mais quente do que nunca, em um jogo de convencimento envolvido por lances jurídicos. Um conjunto de dezoito clubes da série B, por exemplo, pede cancelamento do acordo com a FFU, alegando “aprisionamento de forma perpétua até 2074”. A reportagem de VEJA teve acesso a um documento apresentado pela CBF para os clubes, na defesa de seu objetivo. É um pacote detalhado, com dados que mostram a defasagem de faturamento do Brasileirão em relação a outros torneios, a imensidão de partidas realizadas à noite, de acesso complicado para o torcedor, e o exagerado tempo de bola parada (veja nos quadros). São problemas que estragam a festa, e não por acaso a CBF já deu um primeiro passo ao atrelar as partidas de cá às normas usadas na Copa, com medidas como o limite de cinco segundos para bater lateral e reposição de jogo no tiro de meta.

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A liga, segundo a CBF, “eliminaria a fragmentação, que destrói valor econômico”. Mas, afinal de contas, qual seria a vantagem de um único grupo? A profissionalização e a compulsória transparência. Vale, é claro, mirar outros países. Na Espanha, a federação cuida da seleção, das séries B e C, mas não mais da série A. A Premier League inglesa e a Bundesliga alemã seguem trilha semelhante. No caminho brasileiro, a CBF zelaria pela seleção, pelo bom andamento das competições, pela arbitragem e pelo ambiente — mas sem ingerir-se no que a iniciativa privada faria muito bem. Seria algo como um poder moderador.

O diagnóstico da CBF, enfim, é esperançoso, de modo a construir um modelo de divisão de receitas que não exploda a cada temporada. Pô-lo em prática são outros quinhentos, e cabe eterna vigilância para evitar o balcão de negócios que tantos danos já produziu. A liga única pode ser uma solução, embebida de um sonho: um dia, quem sabe, chegarmos ao modelo de Inglaterra e Espanha, embora também nesses países, em muitos anos, haja prejuízo, tolerado porque se pensa a longo prazo. O jogo precisa mudar. É isso ou um eterno 7 a 1.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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