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Ao convocar dupla campeã, Marin busca calmaria até 2014

Com Felipão e Parreira no comando, o presidente da CBF tenta estimular uma reviravolta na seleção, dissipando as críticas e a desconfiança dos torcedores

Por Giancarlo Lepiani 28 nov 2012, 14h28

Se Mano tinha um currículo que se resumia a bons trabalhos feitos dentro do país, Scolari e principalmente Parreira estão mais do que acostumados com as dimensões de uma Copa do Mundo

O presidente da CBF, José Maria Marin, gosta de ser visto como um político do futebol – um homem que exerce seu poder nos bastidores do esporte, mas que também sabe ouvir a voz do torcedor. Ao contrário do antecessor, Ricardo Teixeira, que era muito pouco ligado ao cotidiano da modalidade – e, segundo consta, não era nem mesmo um grande apreciador de futebol -, Marin costuma se vangloriar pelo passado de “boleiro” (foi jogador do São Paulo na juventude) e, por isso, afirma ser mais capacitado do que os outros cartolas para tomar decisões no plano esportivo. Ao trocar Mano Menezes, impopular e pouco convincente, por uma dupla de peso no comando da seleção brasileira – o que deverá ser oficializado até a manhã de quinta-feira – Marin dá sinais de que é, de fato, a versão futebolística de um líder político. Com a escolha de Luiz Felipe Scolari para ser o novo treinador e de Carlos Alberto Parreira para ocupar a função de coordenador técnico, o cartola tenta se proteger das críticas, angariar apoio, conquistar a opinião pública e promover uma reviravolta na imagem da equipe a menos de dois anos da Copa do Mundo no Brasil.

A seleção anda em baixa na opinião do torcedor brasileiro há muitos anos. Trazer de volta os responsáveis pelos dois últimos triunfos do país em Mundiais (Parreira em 1994, Felipão em 2002) é uma tacada certeira do político Marin. Em relação à sua sensibilidade de ex-atleta, ainda há dúvidas: nos dez anos que se passaram desde que se despediu da seleção, Felipão colheu poucos triunfos (e, em seu último trabalho, no Palmeiras, somou a conquista de um título e uma campanha que culminou num rebaixamento). Parreira retornou à seleção com uma geração muito talentosa, na Alemanha-2006, e fracassou. O argumento usado para defender a troca de comando – numa declaração que praticamente confirma que Scolari e Parreira estão mesmo acertados – é coerente, pelo menos: “Não é hora de experimentar. São dois grandes nomes. O povo ficará feliz com as escolhas que fizemos. Copa do Mundo exige capacidade, dedicação exclusiva e experiência, não só em clubes como em outras seleções”, justificou o cartola. É uma descrição precisa de Parreira, de 69 anos, seis seleções treinadas fora do Brasil, e Felipão, 64 anos, quarto colocado na Copa de 2006 com a modesta seleção portuguesa.

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Mobilização popular – Se Mano Menezes tinha um currículo que se resumia a bons trabalhos feitos dentro do país (os principais deles, aliás, na segunda divisão do Campeonato Brasileiro), Scolari e principalmente Parreira estão mais do que acostumados com as dimensões de uma Copa do Mundo. O técnico do tetra esteve em seis delas como técnico, sem contar a participação como preparador físico na conquista do tri, em 1970. Pesa a seu favor também ter comandado uma seleção jogando uma Copa em casa, na última edição do torneio, na África do Sul, em 2010 (com muito menos responsabilidade do que terá no Brasil em 2014, é claro, mas ainda assim com a chance de sentir o que a expectativa da torcida representa para a equipe anfitriã). Felipão, que treinou Portugal na Eurocopa de 2004, disputada no próprio país, conseguiu incentivar uma grande mobilização popular para empurrar sua seleção (que acabou sendo vice-campeã) – e, portanto, também tem vivência na área. Marin sonha com um efeito parecido a partir do momento em que Scolari assumir a função (em sua primeira passagem pela seleção, o gaúcho também assumiu com um prazo curto antes da Copa e num contexto bastante desfavorável).

É fácil notar que Marin, de 80 anos, optou pela saída mais segura e conservadora. Os escolhidos são nomes de consenso e de inegável competência, ainda que não fossem os favoritos da imprensa esportiva. Entre cronistas e comentaristas, o grande desejo era uma jogada de risco: Pep Guardiola, ex-treinador do Barcelona, responsável pela montagem de uma das melhores equipes da história do futebol. Marin sabia, porém, que o catalão é praticamente desconhecido do torcedor comum e que a indicação de um estrangeiro para comandar a seleção poderia despertar debates e atritos justamente num momento em que é necessário reunir forças ao redor da equipe. “Precisamos ouvir os anseios da torcida e da imprensa esportiva, mas, principalmente, precisamos sentir o anseio do povo”, avisou Marin no fim da manhã desta quarta-feira, depois de visitar as obras do Itaquerão, em São Paulo. “A Copa será no Brasil e, com razão, haverá muita cobrança por parte do torcedor. Fizemos uma profunda análise, pesamos as circunstâncias, pesamos a experiência.” Nesse último quesito, Felipão e Parreira são mesmo imbatíveis. Falta saber se a bagagem da dupla será o bastante para provocar a reviravolta desejada pelo presidente da CBF.

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