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Antes da Copa, cambistas de ocasião vão parar na polícia

Polícia do Rio enquadra quatro suspeitos por venda ilegal de entradas para o torneio. Fifa checa nomes em bilhetes, mas admite que sistema tem brechas

O auxiliar-administrativo Washington Feliciano tentou vender dois ingressos para a final, no dia 13 de julho, no Estádio do Maracanã, por 50.000 reais cada. Foi o caso com maior ambição de lucro encontrado pela polícia do Rio até o momento

Quem tem ingressos para a Copa do Mundo e, por algum motivo, pretende repassar os bilhetes, deve pensar duas vezes. Monitorados pela polícia, os portadores de entradas para o Mundial podem acabar enquadrados como cambistas – mesmo que estejam oferecendo apenas uma só entrada. Em busca do lucro, ou simplesmente porque desistiram de ir à partida, vendedores informais são autuados e podem pegar até dois anos de reclusão se forem condenados. Para evitar esse risco, a alternativa é recorrer ao sistema oficial de revenda de ingressos da própria Fifa – ainda que, nesse caso, não exista a possibilidade de lucrar em cima do valor original do ingresso.

Investigações da Polícia Civil do Rio já resultaram em autuações penais contra quatro cambistas de ocasião, que viram nos bilhetes para a Copa uma chance de lucrar alguns milhares de reais. Acabaram flagrados pela polícia. O caso do empresário Thiago Monteiro Vieira, de 28 anos, surpreendeu os policiais. Sócio de duas empresas e dono de uma BMW 320i, avaliada em 70.000 reais pela tabela da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Vieira foi detido no Barra Shopping, na Zona Oeste do Rio. Sem saber que oferecia os ingressos a um policial em uma rede social, ele marcou encontro no shopping para vender dois ingressos de meia entrada para a partida final, por 9.000 reais cada. Ele pagou 165 reais por bilhete, graças ao benefício concedido a estudantes e idosos. Ele ainda ofereceu duas carteiras de estudante falsas para que os compradores utilizassem os tíquetes sem problema – um agravante que pode complicar a defesa de Vieira.

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Esse não foi o único caso de flagrante depois de uma transação via internet. A Delegacia do Consumidor monitora as redes sociais para flagrar cambistas – sejam eles profissionais ou de ocasião. Todos vão responder em juizado especial criminal ao crime de “venda de ingresso por preço superior ao estampado no bilhete”. “Só tem uma explicação: ganância”, afirmou o delegado Pablo Sartori.

O auxiliar-administrativo Washington Feliciano tentou vender dois ingressos para a final, no dia 13 de julho, no Estádio do Maracanã, por 50.000 reais cada. Foi o caso com maior ambição de lucro encontrado pela polícia do Rio até o momento. Depois da negociação com o policial, o preço caiu para 38.000 reais. Dois ingressos para um jogo de quartas de final saíam por 32.000 reais cada e, com negociação, caíram a 27.000 reais. Todos os valores tratados por Feliciano são muitas vezes maiores até que os pacotes de hospitalidade, que incluem alimentação, brindes e recepção especial nos estádios.

Também foram detidos o contabilista Leo Henrique dos Santos, que tentava cobrar por 800 reais um ingresso para o jogo entre Espanha e Chile, pelo qual ele pagou 30 reais, e a estudante Tayane Vieira, que tentou vender um ingresso de 165 reais para uma semifinal por 7.000 reais. Todos os ingressos oferecidos foram apreendidos e vão ser periciados para que seja verificada a autenticidade. A Fifa consegue revender os ingressos apreendidos, já que os bilhetes são inutilizados e novas unidades são expedidas para venda. Até por causa de casos assim, a Fifa orienta o torcedor a permanecer ligado no canal oficial de venda, no site da entidade – até os jogos que estavam esgotados podem voltar a ter alguns ingressos graças a desistências e, claro, a casos como os que foram descobertos pela polícia.

Identificação – Os ingressos para a Copa do Mundo têm o nome de seus compradores e de seus convidados, e a entrada é, em teoria, pessoal e intransferível. A Fifa não esconde, porém, que é impossível efetuar a verificação da identificação dos portadores de cada bilhete em cada portão de entrada dos estádios – isso causaria longas filas e traria o risco de tumulto antes das partidas. Na quinta-feira, depois de uma reunião do Comitê Organizador da Copa, em São Paulo, o diretor de marketing da entidade, Thierry Weil, confirmou à reportagem do site de VEJA que não haverá reforço na checagem de documentos por causa da enorme oferta de ingressos no mercado paralelo.

Ainda assim, ele reforçou o alerta: quem compra entradas de terceiros corre o risco real de ser barrado, caso dê o azar de ter sua identificação verificada na entrada. Weil avisa também que a checagem do nome do portador do ingresso será mais frequente no caso dos bilhetes especiais, como os de meia-entrada e os que foram reservados a beneficiários do Bolsa Família. “A intenção nesses casos era garantir o acesso de pessoas com menos recursos nos estádios. Queremos garantir que os aproveitadores não atrapalhem essa iniciativa”, disse o diretor da Fifa.

(Com reportagem de Giancarlo Lepiani)