André Akkari, um campeão que não gosta de baralho

"É só um trabalho", diz o jogador, que gosta mesmo, nas horas vagas, é de torcer pelo Corinthians

Por Fernando Cesarotti - 18 maio 2013, 19h11

“É muita adrenalina. Durante um torneio, você emagrece, tem dor de estômago, porque não pode externar sua emoção ou será denunciado”

Aos 38 anos, com um título mundial de pôquer no currículo e mais de 3 milhões de reais em prêmios (“Valor bruto, sem descontar os impostos e as taxas de inscrição, as despesas de viagem. O que sobra é bem menos”, ele faz questão de explicar), André Akkari não é um aficionado pelo baralho. Ao contrário. “Amo o pôquer, sou feliz por tudo que ele me deu, mas não vejo como um jogo ou um hobby. É um esporte, é o que eu faço, é o meu trabalho. Jamais gostei de baralho”, conta durante a viagem ao centro de treinamento que inaugurou há dois meses, na zona rural de Cabreúva, interior de São Paulo.

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É o começo da tarde de quinta-feira e ele ainda está chateado com a frustração da noite anterior, quando seu Corinthians foi eliminado da Libertadores ao empatar por 1 a 1 com o Boca Juniors, num jogo marcado pela confusa arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla. Como em outras partidas, teve seu momento de celebridade nas arquibancadas, tirando fotos e dando autógrafos. Já é famoso desde a conquista do Mundial de 2011, e seu rosto tende a ficar mais conhecido agora que é agenciado pela empresa de marketing esportivo de Ronaldo Fenômeno, que é contratado da PokerStars, patrocinadora de Akkari e espécie de NBA do esporte, organizadora de algumas das principais competições, e que luta para popularizar o esporte. “É muita adrenalina. Durante um torneio, você emagrece, tem dor de estômago, porque não pode externar sua emoção ou será denunciado”, diz Akkari, que disputa suas partidas com fone de ouvido (samba na trilha sonora) e óculos escuros, e confessa vencer grande parte das rodadas na base da intimidação. “É preciso olhar sem ser visto e reconhecer os sinais que a pessoa dá sem que ela perceba que está se entregando.”

A vida de jogador de pôquer começou há oito anos. Akkari formou-se em publicidade, trabalhava numa empresa de computação em sociedade com dois amigos, mas não ganhava o suficiente para pagar as contas. Conheceu o pôquer pela TV, se interessou, começou a se enturmar com outros jogadores pela internet e, quando viu que poderia levar jeito para a coisa, aproveitou todas as horas livres para treinar e estudar técnicas de campeões – sem falar inglês. “Era terrível, ficava assistindo vídeos e indo aos tradutores digitais para tentar entender.”

Vivendo do pôquer – Em 2006, endividado, resolveu fazer sua grande aposta: com o apoio da mulher, Paula, embarcou para os Estados Unidos para disputar uma série de torneios em Las Vegas, a meca do pôquer. Foi com dinheiro contado para jogar, 450 dólares (cerca de 900 reais), e logo no primeiro dia venceu um torneio. Levado pela empolgação, entrou numa disputa maior, em homenagem a Doyle Bronson, um dos maiores jogadores da história. Venceu de novo e embolsou 22.000 dólares (44.000 reais), o suficiente para quitar as dívidas mais urgentes, como o cartão de crédito e as prestações vencidas do apartamento. Meses depois, no Uruguai, nova vitória e um prémio de 223.000 dólares (446.000 reais). “Liguei para minha mãe e disse: ‘Mãe, ganhei, paguei o apartamento!’ E ela respondeu: ‘Que bom, filho, estamos mais tranqüilos até o fim do mês.’ ‘Não, mãe, ganhei dinheiro para quitar essa porcaria, pode ligar para a gerente do banco e mandar para o inferno!'”, ele relembra, aos risos, dizendo ser este o momento mais emocionante da carreira, e quando realmente se deu conta de que poderia viver de pôquer.

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Hoje, o contrato obriga Akkari a jogar on-line pelo menos duas vezes por semana. Além disso, ele roda o mundo em competições – acabou de chegar de Mônaco e, em junho, volta a Las Vegas para mais uma edição do Mundial, uma série de campeonatos que pode durar até um mês. Além disso, continua treinando seus discípulos e dando palestras. O único lamento são as poucas horas livres com a mulher e as filhas, Maria Eduarda e Giovanna, homenageadas com seus nomes tatuados, um em cada antebraço. “Não é fácil. Uma correria danada, mas vale a pena.”

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