Clique e assine a partir de 9,90/mês

Anderson Silva: ‘O brasileiro tem mania de desconstruir seus ídolos’

Ex-campeão se sente mais respeitado fora do país. Mas diz estar animado para retornar a Curitiba, no UFC 198, em maio, e reencontrar as vitórias

Por Luiz Felipe Castro - 29 mar 2016, 13h09

Entre 2006 e 2013, período em que ostentou o cinturão peso-médio do UFC, Anderson Silva se acostumou ao lado mais prazeroso da carreira de um esportista. Admirado em todo o planeta por seu incrível talento e carisma, o lutador alcançou um nível de idolatria no Brasil que há muito não se via em esportes além do futebol. Sua aura de herói nacional, no entanto, sofreu duros golpes nos últimos anos, com uma sequência negativa que inclui derrotas, uma grave lesão e até um escândalo de doping. Aos 40 anos, Anderson Silva está próximo de reencontrar o público brasileiro, justamente na cidade onde passou a maior parte de sua vida: Curitiba. Ele será uma das estrelas do UFC 198, na Arena da Baixada, o primeiro evento da organização em um estádio de futebol do país, em 14 de maio. Enquanto se prepara para a luta diante do jamaicano Uriah Hall, Anderson garante que seu amor pelo esporte e o sorriso no rosto seguem intactos, apesar dos percalços.

Leia também:

UFC 198 será na Arena da Baixada e terá Werdum, Belfort e Jacaré

Anderson Silva é confirmado para UFC em Curitiba

Continua após a publicidade

Anderson Silva divide opiniões e desabafa: ‘Campeões crescem nas derrotas’​

Mesmo sem alterar o tom de voz sereno, o ex-campeão diz não concordar com a maioria das contestações que vem recebendo. “É difícil receber críticas de quem não entende 90% do que acontece numa luta, de quem não sabe como é o treinamento, a perda de peso, como é ter uma lesão como a minha.” O lutador aponta uma tendência do público brasileiro de se pautar apenas pelos resultados e diz ser mais respeitado nos Estados Unidos, onde mora. “O problema é que o povo brasileiro está mal acostumado. Quando você ganha muito, parece que não tem o direito de perder. (…) O público brasileiro, infelizmente, tem a mania de desconstruir seus ídolos.”

Em sua última luta, na qual foi derrotado pelo britânico Michael Bisping, em Londres, em fevereiro, Anderson contestou o resultado dos árbitros, que marcaram vitória unânime do lutador da casa. Na ocasião, muitos torcedores reclamaram da forma com que o brasileiro atuou, abusando de gestos provocativos e atacando pouco o oponente – que, ainda assim, saiu desfigurado do octógono. Anderson disse se espelhar em lutadores como Muhammad Ali e garantiu que jamais mudará sua postura. “Aquele é o único momento em que posso colocar em prática a minha técnica. É difícil, porque eu só recebo críticas nesse sentido no Brasil.”

Apesar da evidente chateação com a perda de popularidade e, sobretudo, do cinturão, Anderson descarta a hipótese de se aposentar em maio na cidade onde tudo começou – nascido em São Paulo, ele se mudou para Curitiba aos quatro anos e por lá aprendeu as artes marciais. Ele tem contrato com o UFC para mais 13 lutas.

Continua após a publicidade

Sua última luta em Curitiba foi em 2002. Como é voltar à cidade e em um evento tão grande? Estou muito motivado por lutar num card com tantos atletas importantes. Fazer parte disso é muito legal. Estou sempre em Curitiba, mas faz muito tempo que não luto aqui. Fiquei naquela dúvida se me chamariam e, graças a Deus, recebi essa oportunidade. Não parei de treinar depois da última luta, estou muito bem fisicamente.

Você reviu sua última luta, contra o Michael Bisping, em Londres? Acha que o resultado foi injusto? Ah…(longo silêncio). São coisas que acontecem. Já passou, agora tenho de esperar o Bisping se recuperar para ver se fazemos outra luta. Pode ser que aconteça uma revanche, mas agora estou focado na minha próxima luta.

Como foi viver com as derrotas e as críticas pelas derrotas? Na verdade, sempre recebi críticas e tive uma posição tranquila quanto a isso. As pessoas falam muito, mas não sobem no octógono. É difícil receber críticas de quem não entende 90% do que acontece numa luta, de quem não sabe como é o treinamento, a perda de peso, como é ter uma lesão como a minha. Cada um tem sua opinião, mas não ligo para as críticas porque as pessoas não entendem nada do que acontece. Não adianta, não dá para agradar todo mundo.

A maioria das críticas é sobre seu estilo de lutar, muitas vezes provocativo, com a guarda baixa. Você acha que exagerou em algum momento? Se pudesse, teria agido de outra forma em alguma luta? Não, não há como voltar no tempo e, principalmente, não há como mudar meu estilo de luta. Esse sou eu. O estilo de luta que faço é diferenciado e talvez seja por isso que eu consiga continuar lutando com a minha idade, porque nunca me machuquei seriamente a não ser a vez em que quebrei a perna. A minha verdade não pode ser mudada. Ali, no octógono, é o único momento em que posso colocar em prática a minha técnica e o que treinei. É difícil, porque só recebo críticas nesse sentido no Brasil, enquanto no exterior a referência de show e de técnica dentro do ringue é diferente. Eu me espelho muito em Floyd Mayweather, Muhammad Ali, Roy Jones Jr. e outros atletas. O Ali fazia todas aquelas movimentações, baixava a guarda, dançava, provocava… e sempre foi ovacionado e respeitado. Quando eu ganhava, todo mundo aplaudia meu estilo, mas o tempo passa para todo mundo, ninguém é eterno. Eu não poderia ser campeão para sempre, a não ser que tivesse parado, mas eu não quis.

Continua após a publicidade

Acredita que lutando em casa e com uma vitória conseguirá se reaproximar do público brasileiro? Tenho uma relação muito legal com meus fãs, com as pessoas que gostam do meu trabalho. É que não dá mesmo para agradar todo mundo. O problema é que o povo brasileiro está mal acostumado. Quando se ganha muito, parece que não temos o direito de perder. Moro nos Estados Unidos e sou muito mais respeitado lá. Depois da luta em que quebrei a perna, fui a um restaurante de muleta, e todos os americanos se levantaram e me aplaudiram. Depois da luta com o Nick Diaz, foi a mesma coisa, senhoras e crianças me pararam na rua pedindo para que eu não parasse de lutar. O público brasileiro, infelizmente, tem a mania de desconstruir seus ídolos. Mas eu, como atleta brasileiro, vou sempre tentar fazer meu melhor. Mas com a minha verdade, não vou mudar para agradar ninguém.

Na derrota para Bisping, você citou a corrupção no Brasil. Acha que os escândalos políticos contribuem, de alguma forma, com a insatisfação dos torcedores? O mau humor se transporta para os estádios? O brasileiro tem esse mal de criticar sem se aprofundar sobre os assuntos. Queria ver essas pessoas que criticam subir no octógono e lutar por três minutos para ver como é. O mesmo exemplo acontece com a seleção brasileira de futebol. As pessoas dizem que os jogadores estão de palhaçada, que não podem perder um gol, etc, mas é muito difícil estar lá, num campo onde um companheiro depende do outro. Muitos podem estar lesionados, como eu já estive também. É muito complicado. E 90% das pessoas que criticam não conseguiriam fazer 1% do que fazemos.

Qual situação te deixou marca mais profunda: a lesão na perna contra o Chris Weidman ou o caso de doping na luta contra Nick Diaz? Na vida aprendemos a lidar com diversas situações. As duas foram importantes para o meu crescimento pessoal e profissional. São coisas que passaram. E consegui aprender e levar uma lição importante para que pudesse melhorar como ser humano.

Depois de tudo o que você ganhou, as contestações te desanimam? Pretende cumprir seu contrato de mais 13 lutas com o UFC? Estou muito feliz. Espero cumprir o contrato. E enquanto estiver com essa alegria e essa felicidade continuarei fazendo meu trabalho com amor e carinho. Não luto por fama, dinheiro, glória, por nada disso. Eu já poderia ter parado, porque financeiramente estou bem, mas luto porque amo esse esporte.

Lutadores brasileiros visitam a cidade de Curitiba (PR), sede do UFC 198
Lutadores brasileiros visitam a cidade de Curitiba (PR), sede do UFC 198 VEJA
Publicidade