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Adriano está livre da polícia, não do torcedor

Na semana em que foi inocentado do tiro que feriu uma jovem em seu carro, atacante é punido por indisciplina no Corinthians. Arranhões na imagem desgastam também o valor de mercado e afastam patrocinadores do jogador

Por João Marcello Erthal 22 jan 2012, 13h31

“Sem dúvida o Adriano virou um ‘case’ de mercado. Ele vale muito menos do que poderia se não tivesse a imagem tão arranhada. O potencial que ele tem é de um jogador que deveria ter um dos maiores salários do mundo, ser titular absoluto em um grande clube europeu e da seleção brasileira. Mas não conseguiu manter isso”, diz Fernando Gonçalves, da Traffic

Adriano está livre da polícia. O atacante do Corinthians, que terminou o ano envolvido em acusações de disparo acidental dentro de seu carro, com uma jovem ferida, foi inocentado no inquérito que corria no Rio de Janeiro – ajudado por uma confissão da vítima, que admitiu ter ela própria puxado o gatilho. Para alívio do clube e dos torcedores, o episódio do Imperador à saída de uma casa noturna na Barra da Tijuca não passou de um acidente. É bem diferente, por exemplo, da trama macabra em que se envolveu o goleiro Bruno, do Flamengo. Mas é a parte não acidental do Natal de Adriano o que mais preocupa.

O tiro foi uma exceção. Mas casas noturnas, festas regadas a bebida e inconsequência são rotina. Não só para Adriano. Na última semana, outro craque do futebol mundial se viu envolvido em uma confusão do gênero. Ronaldinho Gaúcho, que já foi o melhor do mundo e hoje é o principal jogador do Flamengo, foi flagrado com uma mulher no quarto de hotel em que o clube estava concentrado.

As complicações de Adriano com a polícia não começaram agora. E, mais que um histórico de problemas de comportamento, o atacante apresenta uma preocupante repetição de indisciplinas fora do campo. A mais recente delas ocorreu na terça-feira, quando não compareceu ao treino do Corinthians e, além de ser afastado do amistoso contra a Portuguesa, foi multado em 20% de seu salário.

A punição pode resolver o problema no momento – e Adriano já fez promessas de que vai “melhorar” seu comportamento. Mas as perdas financeiras para jogador, clube e patrocinadores não cessam com uma reprimenda. Diretor executivo da Traffic, empresa de marketing esportivo que detém direitos econômicos de cerca de 180 jogadores de futebol espalhados pelo mundo, Fernando Gonçalves explica que valores e comportamento são inseparáveis. “Uma imagem ruim é muito mais difícil de ser negociada. O jogador vale pelo número de gols e jogadas que ele faz dentro de campo, mas, se você tem dois jogadores semelhantes tecnicamente, o jogador com a boa imagem vai valer muito mais, sempre”, explica.

Adriano participa da reconstituição da cena em que Adriene Cyrillo foi atingida por um tiro dentro do BMW do jogador
Adriano participa da reconstituição da cena em que Adriene Cyrillo foi atingida por um tiro dentro do BMW do jogador VEJA

Sobre o Imperador, Gonçalves faz a seguinte análise: “Sem dúvida o Adriano virou um ‘case’ de mercado. Ele vale muito menos do que poderia se não tivesse a imagem tão arranhada. O potencial que ele tem é de um jogador que deveria ter um dos maiores salários do mundo, ser titular absoluto em um grande clube europeu e da seleção brasileira. Mas não conseguiu manter isso. Era para ele estar frequentando o prêmio de Bola de Ouro da Fifa todos os anos, e isso nunca aconteceu”, lamenta Gonçalves.

Antes mesmo dos problemas com a polícia do Rio, Adriano deu mostras de instabilidade quando repentinamente abandonou a Inter de Milão, em abril de 2009. Depois de não se apresentar ao clube com o qual tinha contrato, o atacante disse precisar de um tempo, chorou saudades do Rio de Janeiro e de seus amigos da Vila Cruzeiro, na zona norte. “Peço desculpas à Inter, mas preciso de repouso. Perdi o prazer de jogar futebol”, afirmou, na época. Semanas depois, estava no Flamengo.

Em sua temporada no Rio, Adriano esteve envolvido em suspeitas de envolvimento com traficantes, agressão à ex-namorada e foi fotografado bebendo durante um tratamento médico.

Para o marketing, desempenho em campo e o que o jogador fora das quatro linhas apresenta à sociedade são analisados em conjunto. É o que Gonçalves chama de “conteúdo” do jogador. “O problema maior não é se um jogador apareceu em uma fotografia segurando uma arma, mas sim as pessoas acharem que ele é capaz de atirar com ela. Qual é o conteúdo do Adriano? O que as pessoas acham dele? Acho que o conteúdo dele é bom. Quanto ao potencial, não preciso nem falar. Basta ele emagrecer e fazer gols que o mercado se abrirá para ele”, diz.

No Brasil, por enquanto, bastam os gols. No mercado europeu, bom futebol não é tudo. “Dificilmente você vai ver um bad boy no Barcelona. Se o jogador não se enquadrar no esquema desde cedo é excluído. Por isso não se tem escândalo com jogadores do Barcelona. Se eles detectarem que um atleta tem potencial para causar problemas, ele já é negociado antes de o problema acontecer”, compara Gonçalves.

Pelé – Diretor de comunicação da CBF e responsável por gerenciar a imagem de centenas de jogadores convocados para a seleção, durante o período de convocação, concentração, viagens e competições, o jornalista Rodrigo Paiva conhece os clubes por dentro desde 1990, quando assessorava o Flamengo. Paiva recorre ao atleta do século para citar um bom exemplo de gestão de imagem – quando a expressão sequer existia. “Pelé é um exemplo à parte. Ele é um ‘case’ de marketing, porque é a união perfeita do talento extremo com a preservação total de sua vida pessoal há 60 anos. Gosta de tudo que todo jogador de futebol gosta, mas não deixa aparecer isso. Mas é verdade que, no seu auge, nas décadas de 60 e 70, era mais fácil se proteger da invasão de privacidade”, ressalta.

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Sobre o imperador, Paiva acredita que há, no momento, uma falha também em campo. “O que o Adriano precisa é voltar a jogar e fazer gols. Problemas extra-campo, como o caso do tiro na mão da menina, comprometem a imagem. Talvez nem tanto com o torcedor, porque no futebol brasileiro você pode fazer qualquer besteira durante a semana e, se fizer três gols no domingo, é perdoado”, afirma.

Patrocinadores, no entanto, são mais exigentes. “Ele (Adriano) teria muito mais patrocínios se não tivesse aparecido nas páginas policiais, como já apareceu algumas vezes. Sem dúvida aproveitam para negociar valores menores com o Adriano hoje”, acredita Paiva.

A memória curta do torcedor acaba ajudando os atletas a manter a carreira em alta – e, de certa forma, facilita também a vida de patrocinadores. Presidente da Associação Brasileira de Agentes de Futebol, Léo Rabello acredita que mesmo os mais graves casos de indisciplina – e crimes – acabam caindo no esquecimento. “O povo tem memória curta e esquece as besteiras. Eles podem até atropelar e matar (caso do jogador Edmundo). Adriano bateu em mulher, envolveu-se com outra que deu tiro na mão, vive em delegacia e quando sai na rua é chamado de Imperador. Quando o Bruno (Fernandes, ex-goleiro do Flamengo) sair da cadeia, vai ter um monte de time querendo contratá-lo”, prevê.

(Com reportagem de Léo Pinheiro, do Rio de Janeiro)

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