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A virada da seleção – e o que você pode aprender com ela

Como Felipão restaurou a força e a imagem de uma instituição brasileira em apenas sete meses (e como o seu estilo de gestão pode ajudá-lo no trabalho)

Por Giancarlo Lepiani, com fotos de Ivan Pacheco 15 set 2013, 10h30

Felipão, que costuma ser classificado como um conservador do futebol, promoveu sua revolução na seleção no mês de junho, injetando juventude e ousadia na equipe e fazendo apostas certeiras. Ninguém mais teme um vexame histórico em casa em 2014

O feriado de 7 de setembro de 2012 foi um dos dias mais melancólicos da história quase centenária da seleção brasileira de futebol. A equipe entrou no gramado do Estádio do Morumbi, em São Paulo, para enfrentar a frágil África do Sul. Saiu vitoriosa no placar (um esquálido 1 a 0), mas desmoralizada por seu próprio torcedor. Enquanto o técnico Mano Menezes tentava explicar o futebol paupérrimo do time (que ele atribuía, entre outros fatores pouco convincentes, à própria falta de apoio do público), Neymar, o jogador brasileiro mais promissor desde Ronaldo, saía dos vestiários rumo ao ônibus da delegação ouvindo não apenas vaias como também xingamentos. O treinador, que conversava com os jornalistas sob uma tenda montada bem ao lado, ouviu o alvoroço e não conseguiu esconder o abatimento. Pouco mais de dois meses depois, seria demitido. Em meio à contagem regressiva para a segunda Copa do Mundo realizada no país, a seleção brasileira estava destroçada: sem time, formação e estilo de jogo definidos, já não despertava o temor dos rivais. Entre os brasileiros, que se acostumaram a torcer pela equipe mais vitoriosa e consagrada do planeta, a mítica camisa amarela agora simbolizava mais uma decepção – e mais um aspecto em que o potencial nacional era desperdiçado.

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Exatamente um ano depois do triste amistoso contra os sul-africanos, a seleção brasileira estava de novo diante de sua torcida. Para quem acompanhou de perto o caminho percorrido pela equipe entre uma partida e outra, a transformação era quase inacreditável. Confiante, motivado e cheio de orgulho, o time chegou ao Estádio Mané Garrincha, em Brasília, aclamado pelo torcedor. Assim como no jogo do Morumbi, se deparou com uma seleção frágil num mero amistoso. Mas isso não impediu que os jogadores atropelassem a Austrália, uma das equipes já classificadas para o Mundial de 2014, de maneira inapelável: 6 a 0, apesar de vários desfalques e de muitas substituições no decorrer do jogo. Nas arquibancadas, via-se algo que tinha sido perdido pela equipe nacional nos últimos anos. Hoje, a seleção é de novo uma paixão do brasileiro, que manifesta sua devoção aos ídolos vestidos de amarelo e sonha com novas glórias – a primeira delas, evidentemente, a conquista do sexto título mundial, dentro de pouco mais de nove meses. Muitos fatores favoráveis contribuíram e se alinharam para provocar essa mudança súbita e radical. É inegável, contudo, o peso e a influência do arquiteto desse processo de reconstrução de uma das instituições populares do Brasil. Reconduzido ao cargo pouco mais de uma década depois de levar a equipe ao pentacampeonato, na Copa de 2002, o técnico Luiz Felipe Scolari capitaneou a virada da seleção num período incrivelmente curto: passaram-se apenas sete meses desde sua reestreia no banco da equipe.

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Assim como o time, Felipão também estava longe de sua melhor fase quando recebeu o convite da CBF. Vinha de uma temporada estranha, em que levou o Palmeiras ao título da Copa do Brasil mas não impediu que o clube amargasse o retorno à Série B do Brasileirão. Vinha sendo chamado de antiquado e ultrapassado. A crônica esportiva defendia em peso a entrega da seleção ao catalão Pep Guardiola, um técnico de apenas 42 anos que comandou a fase mais vencedora da história do Barcelona (em que contava, lembre-se, com a genialidade de Messi e com jogadores formados numa escola muito diferente da brasileira). Respaldado pelo currículo extenso e pela boa aceitação popular, Felipão começou com resultados adversos – derrota para a Inglaterra, empates com Itália, Rússia e Chile. Felipão, que costuma ser classificado como um conservador do futebol, promoveu sua revolução na seleção no mês de junho, injetando juventude e ousadia na equipe e fazendo apostas certeiras. Depois de ganhar impulso com bons amistosos contra Inglaterra e França, o gaúcho de 64 anos levou a equipe à conquista de mais um título, o da Copa das Confederações, com direito a vitórias sobre México, Itália, Uruguai e Espanha. O Brasil ganhou todos os jogos de forma absolutamente convincente. Terminou a campanha aplicando uma surra na atual campeã da Europa e do mundo. Mais importante ainda, voltou à lista dos favoritos à Copa de 2014 – e o melhor, mostrando um futebol consistente e moderno, combinando a dinâmica de jogo e aplicação tática das grandes equipes europeias à criatividade e qualidade técnica características ao jogador brasileiro. A seleção ainda pode – e deve – melhorar até o Mundial do ano que vem, mas ninguém mais teme um vexame histórico em casa em 2014. Graças ao trabalho hábil e meticuloso de Felipão, a cotação da equipe voltou a disparar, tanto nas bolsas de apostas lá fora como na admiração do torcedor local. Nada mau para um técnico dado como obsoleto.

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