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A suspeita fábrica de campeões financiada pela Nike

Suspensão de Alber­to Salazar pela agência americana antidoping põe dúvidas sobre a trajetória vitoriosa do Nike Oregon Project (NOP)

O cubano naturalizado americano Alber­to Salazar recusa-se a aceitar limites. Ainda nos tempos de atleta, ficou conhecido por vencer a tradicional Maratona de Boston, uma das mais tortuosas provas de rua, sem levar uma gota sequer de água à boca (resultado: desmaiou depois de cruzar a linha de chegada). Ele prosseguiu com essa postura em sua carreira como treinador. Em 2001, Salazar criou o Nike Oregon Project (NOP), um híbrido de equipe de atletismo com laboratório científico, numa tentativa de encerrar a supremacia dos países africanos nas corridas de longa distância. O projeto foi financiado desde a origem pelo gigante americano de equipamentos esportivos — a sede do centro esportivo, no Estado do Oregon, é praticamente um anexo do QG da marca de tênis. Em quase duas décadas de funcionamento, o NOP acumula 21 pódios em Jogos Olímpicos e campeonatos mundiais. O principal “garoto-­propaganda” de Salazar era o fundista britânico Mohamed Farah. Juntos, conquistaram quatro ouros olímpicos e seis títulos mundiais. Na última terça-feira, porém, todos esses resultados foram postos em dúvida.

Salazar foi condenado a quatro anos de suspensão pela agência americana antidoping justamente por extrapolar limites, desta vez das leis do esporte. Entre os atos ilícitos, estariam o uso de substâncias legais além da dosagem permitida, bem como a manipulação de testosterona nas dependências do NOP, o que é terminantemente proibido. Segundo os investigadores, o treinador também conduzia experimentos para mascarar a dosagem detectável de uma substância dopante no organismo dos atletas. “(Salazar) demonstrou que ganhar era mais importante que a saúde e o bem-estar dos atletas que jurou proteger”, disse o comunicado da Usada. Ressalve-se que Mo Farah nunca testou positivo para uma substância dopante (embora documentos vazados por hackers russos tenham revelado que, em 2015, ele figurou numa lista de “prováveis dopados” da Federação Internacional de Atletismo). Visando a preservar sua imagem, o corredor britânico abandonou o NOP em 2017, alegando questões familiares para voltar para a Inglaterra. Em nota, a Nike limitou-se a dizer que apoia Salazar na apelação da pena imposta ao treinador.

Publicado em VEJA de 6 de outubro de 2019, edição nº 2655