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A pandemia acentuou o abismo entre os times ricos e os endividados

Fica, portanto, uma dúvida: quantos clubes grandes ainda há no país?

Por Alexandre Senechal, Luiz Felipe Castro Atualizado em 5 mar 2021, 11h00 - Publicado em 5 mar 2021, 06h00

A atípica temporada de 2020 do futebol brasileiro, disputada em plena pandemia, terminou com uma clara conclusão: quem investiu bem foi premiado. Mais uma vez, Flamengo e Palmeiras foram os destaques. O rubro-negro carioca ergueu o bicampeonato do Brasileirão. O alviverde paulista reconquistou a Copa Libertadores, cujo prêmio recorde chegou a 15 milhões de dólares, e ainda pode faturar a Copa do Brasil. Os títulos não foram marcados por campanhas brilhantes — a ausência de torcida nos estádios e as confusões do VAR contribuíram para um cenário de desconfiança. O que fez a diferença foi a força dos elencos renomados e, consequentemente, caros. Flamengo e Palmeiras, portanto, colhem os frutos do bom planejamento, ainda que com estratégias ligeiramente opostas. A história na Gávea começou a mudar em 2013, quando uma nova diretoria assumiu um clube destroçado, sem credibilidade, com uma dívida de quase 800 milhões de reais, e impôs uma reestruturação financeira drástica. Demorou, a torcida sofreu, no meio do caminho houve a tragédia e a irresponsabilidade no Ninho do Urubu, mas deu certo. No Palmeiras, o renascimento passa por dois nomes: Paulo Nobre, um advogado que assumiu a presidência e emprestou 135 milhões de reais do próprio bolso, e Leila Pereira, a dona da Crefisa, patrocinadora que investiu mais de 800 milhões de reais no clube que, num futuro breve, talvez venha a presidir. O impulso foi crucial, mas hoje o Palmeiras já não depende de mecenas — a Crefisa representa 16% do valor do orçamento, de acordo com o último balanço.

O Grêmio também integra o time dos bons exemplos. Nos últimos anos, conquistou títulos, fez ótimas vendas e jamais gastou mais do que podia — premissa básica, ignorada pela maioria. “Desde 2015 baseamos nossa competitividade em equilíbrio financeiro e excelência na formação de jovens atletas”, diz o presidente gremista, Romildo Bolzan. “Vamos fechar o quinto ano seguido com superávit.” O Athletico-­PR segue a mesma linha e fincou o pé no grupo dos grandes clubes do país.

O cenário brasileiro se assemelha ao europeu. Novos ricos como Manchester City e PSG, com aportes astronômicos (e suspeitos) de seus donos árabes, são agora protagonistas. A Juventus se modernizou e enfileirou nove títulos italianos consecutivos, enquanto Milan e Inter de Milão derrapam em gestões desastrosas. O reinado de Barcelona e Real Madrid — únicos grandes do continente a rejeitar o modelo de clube-empresa — está em risco. Nada comparado ao drama de outrora campeões como o inglês Nottingham Forest e o alemão Hamburgo, que agonizam em divisões inferiores. Ocorrerá o mesmo no Brasil?

Arte futebol

Em 2021, a Série B no país terá cinco campeões da elite: os rebaixados Vasco, Botafogo e Coritiba, e Guarani e Cruzeiro, que lá permaneceram. O clube mineiro inflou seu elenco com contratações milionárias e até conquistou títulos, mas depois ganhou as páginas policiais, com escândalos de corrupção. O rival Atlético Mineiro é uma incógnita. Conta com um renomado time de mecenas, liderado por Rubens Menin, fundador da construtora MRV — e atleticano doente. Estão nos planos a construção de uma arena e a manutenção de um elenco forte. Em 2020, o grupo investiu alto, mas os títulos nacionais escaparam. Para este ano, o Atlético segue apostando em estrelas como Hulk e o argentino Nacho Fernández. O tiro pode ser certeiro — ou sair pela culatra. “Quem está investindo são pessoas de sucesso, mas futebol tem o imponderável, é possível fazer tudo certo e a bola não entrar”, diz Alexandre Mattos, diretor campeão por Cruzeiro e Palmeiras, e recentemente demitido do Galo.

Houve, de fato, quem driblasse a má gestão, como o Santos, finalista da Libertadores, e o Fluminense, quinto colocado no Brasileirão. Ambos apostaram nas categorias de base. “Só se organiza a casa colocando o pé no freio nos gastos”, diz Cesar Grafietti, economista do Itaú BBA. “Em um ambiente tão conturbado, o ano de 2021 pode ser ainda pior para quem não apostar na austeridade.” As zebras permanecem, mas estão em risco de extinção. E o clube dos grandes pode se tornar cada vez mais restrito.

Publicado em VEJA de 10 de março de 2021, edição nº 2728

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