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A maratona de protocolos sanitários em Tóquio

Para realizar os jogos em meio à pandemia, autoridades impuseram controles rígidos; desrespeito às normas pode resultar até em expulsão do país

Por Fernando Valeika de Barros, de Tóquio 24 jul 2021, 14h13

A longa viagem de quase 30 horas entre São Paulo e Tóquio, somando o tempo no ar e a escala, além da diferença de 12 horas de fuso, é maratona ainda mais desgastante em tempo de Covid-19. Do momento do desembarque no aeroporto de Narita, o maior no entorno da capital do Japão, até, finalmente, carimbar o meu passaporte, gastei cerca de 6 horas. Atravessei dezenas de pontos de fiscalização, que culminam com um teste de saliva. No longo caminho, foram conferidos dois testes PCR, negativos para o Sars-CoV-2, feitos com 96 e 72 horas antes do embarque, e a temperatura, por meio de câmeras térmicas (precisa estar abaixo de 37,5ºC). Nos meus primeiros três dias na Olimpíada de Tóquio, terei de reportar minha temperatura corporal, diariamente, e notificar sintomas como febre, tosse e coriza em um questionário, preenchido pela internet. Três testes de saliva serão obrigatórios, um a cada 24 horas.

Antes de embarcarem para o Japão, todos os envolvidos com a Olimpíada deveriam instalar dois aplicativos em seus telefones celulares. Um é o OCHA, um programa de relatórios de testes e medição de temperatura. O  outro, batizado COCOA, é um mecanismo de rastreamento de contatos, que usa Bluetooth. Na prática, o que o governo japonês pretende fazer é um estrito monitoramento de movimentos e contatos dos estrangeiros por meio de seus smartphones. A ideia é criar uma bolha para separar atletas, dirigentes e jornalistas, envolvidos na cobertura dos Jogos, do restante da população, em Tóquio.

Dará certo a formação e controle dessa bolha? A ver. O problema é que, na maioria dos casos (como o meu, por exemplo), os sistemas eletrônicos não estão funcionando adequadamente. Há falhas. E, apesar da boa vontade dos voluntários, a quem relatei o problema no aeroporto, não houve ninguém capaz de solucioná-lo. “Os aplicativos têm problemas e isso tem causado enormes furos no esquema de proteção sanitário, com estrangeiros circulando, por bares e restaurantes”, disse ao jornal Asahi Shimbum, o deputado Ayaka Shiomura, da oposição ao atual governo.

Ressalve-se, contudo, que a tentativa de evitar a circulação do vírus é a regra número 1 da Olimpíada de Tóquio. Começa no aeroporto e prossegue.  Depois do desembarque, em Narita, até o momento em que entrei no ônibus que me levaria até um terminal, perto do Centro de Imprensa, onde, finalmente às 2h45 da madrugada, um outro ônibus me levaria até o hotel, passei por nove pontos de fiscalização. É jornada que começara muito antes, no Brasil. Para permitir a entrada no Japão, nos dias que antecedem a viagem também é preciso preenchimento de planilhas com minuciosos detalhes do itinerário, registrados em QR Code. Ainda em São Paulo, duas semanas antes de embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, tive de enviar um “Plano de Atividades” a três instâncias de organização da Olimpíada, plano que precisa ser regiamente seguido nos primeiros catorze dias depois da chegada ao Japão (mesmo tendo tomado duas doses da vacina da Pfizer, fazer uso constante de máscaras e evitar aglomerações). A partir da data do meu desembarque, ao longo destes 14 dias estarei proibido de circular em transporte público. Meus deslocamentos serão feitos em ônibus ou táxis supervisionados pelo Comitê Organizador, com corridas pagas por vouchers retirados em um balcão no Centro de Imprensa. Cada jornalista tem direito a 14 vouchers.

Poderei circular apenas entre o meu hotel e estádios e ginásios e algumas lojas de conveniência, para comprar comida, mas nada de frequentar restaurantes e bares. Andar de metrô? Durante os primeiros 14 dias, nem pensar. Caminhar na rua? Também não. Uso de áreas de lazer de hotéis – como piscinas ou academia de ginástica –, também não é recomendado. Uma exceção são as lojas de conveniência– e mesmo assim pelo prazo de, apenas, 15 minutos. Para vigiar eventuais abusos, o governo japonês tem duas ferramentas: patrulhas, que percorrem as lojas, e punições. Fugir do acordado pode significar a suspensão da credencial por um dia, o que na prática arruína uma cobertura jornalística, a ou a disputa de uma competição. Em caso de reincidência, quem voltar a ser flagrado em locais não permitidos, arrisca o cancelamento da credencial e até expulsão do Japão, com sanções financeiras.

Multiplique-se o controle por aproximadamente 70 000 ( a soma do número de atletas, treinadores, dirigentes, jornalistas e funcionários de equipes de apoio) – eis o tamanho da vigilância e o colossal volume de informações a serem acompanhadas diariamente durante os Jogos. Mas era isso ou não haveria Olimpíada. Nos dias que antecederam à abertura dos Jogos, as infecções pelo Covid-19 dispararam em Tóquio. Em 21 de julho, houve 1 979  novas infecções. Entre elas, a de seis atletas britânicos de atletismo, além de dois membros da equipe, forçados a se isolar. A África do Sul confirmou quatro casos positivos, incluindo três em seu time de futebol – dois jogadores e um analista. Em junho, dois integrantes da delegação de Uganda tinham sido testado positivos, a caminho da cidade de Izumisano, onde os atletas finalizariam o treinamento. Em julho, um remador sérvio testou positivo ao chegar ao aeroporto de Tóquio e, também, um jogador de vôlei de praia da República Checa. Todos foram apartados, como manda a norma do mundo hoje.

Apenas depois do encerramento dos Jogos é que se saberá, no detalhe, se tanto rigor funcionou – ou se o melhor é que a Olimpíada fosse cancelada.  Especialistas em Saúde Pública, como a infectologista inglesa, Annie Sparrow, dizem  que todos esses protocolos são inúteis e ilusórios. Semanas antes da abertura da Olimpíada, ela ganhou destaque ao aparecer como coordenadora de um artigo publicado pelo The New England Journal of Medicine, no qual criticou duramente os chamados manuais do Comitê Olímpico Internacional com suas ilustrações coloridas detalhando medidas destinadas a manter os atletas, dirigentes e jornalistas protegida do vírus. Segundo Annie, dificilmente, a curva de contaminados deixará de aumentar enquanto os estrangeiros, de tantos países diferentes, estiverem, em massa, na cidade, misturando variantes do vírus.  Tanto como imprevisíveis, a Olimpíada de Tóquio promete ser um teste de paciência.

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