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A hermenêutica do choro

Machistas andam envergonhados de nossos chorões. Feministas acham muito fofo que homens feitos assumam desse modo suas fragilidades. Convenhamos: está ficando chato

Chorar é bom? Chorar é ruim? Homem chora? Não chora? Pode chorar, mas não na frente das crianças? Reflexo das atuações malucas da seleção brasileira, o futebol propriamente dito tem ocupado pouco espaço nas conversas da torcida. Em vez disso, estamos todos mergulhados até o pescoço na hermenêutica do choro. Na semiologia da lágrima. Na crítica da emoção pura.

Machistas andam envergonhados de nossos chorões. Feministas acham muito fofo que homens feitos assumam desse modo suas fragilidades. Convenhamos: está ficando chato. Eu seria a última pessoa do mundo a condenar críticas culturais – ou, vá lá, antropológicas – aos assuntos do futebol, mas, nesse caso, acredito ser proveitoso manter o foco no esporte. A seleção brasileira mais chorona de todos os tempos é também, para não entrar numa comparação propriamente qualitativa, a mais inconstante, a mais propensa a ataques de pânico da história. Coincidência? Duvido. É nesse sentido que o estado emocional da equipe merece ser discutido.

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Tostão, que foi craque em campo e é craque também na crônica esportiva, escreveu que a emoção à flor da pele ajuda, pois denota o comprometimento dos jogadores com a competição. Será? Se o transbordamento que caracteriza a equipe do capitão Thiago Silva for considerado o oposto da indiferença, da frieza desinteressada dos jogadores ditos “mercenários”, é claro que Tostão tem razão. Melhor ter uma seleção que encarna a paixão da torcida, e tão intensamente que ela lhe vaza do corpo na forma de fluidos inapeláveis – sangue, suor, lágrimas…

Acontece que o chororô também pode ser visto como algo bem diferente. Como o oposto do autocontrole, da autoconfiança, da capacidade de manter a cabeça fria sob pressão. Qualidades que o esporte – qualquer esporte – está habituado a cobrar dos campeões e que ninguém simbolizou melhor do que Didi ao caminhar lentamente até o centro do campo com a bola debaixo do braço, após o gol que a Suécia, jogando em casa, meteu no Brasil logo no início da decisão da Copa de 1958. Como se sabe, vencemos por 5 a 2.

Acho perturbador perceber como estamos distantes da fleuma do genial armador do Botafogo, e não só por não termos hoje nem sombra de um armador na equipe. De todo modo, quando enxergamos na incontinência lacrimal o oposto da firmeza de Didi, concluímos que Tostão está enganado: o choro atrapalha. E agora? Como praticamente tudo no futebol, teremos que aguardar o resultado para decidir de uma vez por todas. Se a seleção for campeã jogando desse jeito esquisito, apavorado e apavorante, a história dirá que a emotividade a ajudou a superar suas deficiências; se não for, dirá exatamente o contrário.

Até lá, vale o registro: apontar o descontrole emocional não significa absolver os outros pecados do time. É claro que nem tudo são nervos e que a seleção tem problemas táticos e técnicos. No entanto, se as fragilidades táticas podem ser postas na conta de Felipão, que sempre foi muito mais motivador que estrategista, os inúmeros casos de apagão técnico num grupo bastante talentoso permaneceriam inexplicáveis se não houvesse na mesa a carta da pressão -descomunal, no caso brasileiro – de disputar uma Copa em casa.

Tudo indica que aquele peso nas pernas que baixou no time na final de 1950 chegou mais cedo desta vez. Não é de admirar. Hoje, o melhor que se poderia dizer à seleção é o seguinte: “Ei, rapazes, relaxem e tentem se divertir. É só um jogo, afinal. Não tem tanta importância assim”. Felipão já andou dizendo mais ou menos isso. É mentira, mas pode fazer milagre.

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