Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

A estreia do “juiz robô” da ginástica artística

A atribuição de notas às apresentações, alvo de histórica controvérsia, pode ganhar já em Tóquio-2020 um decisivo auxílio da inteligência artificial

Por Alexandre Salvador Atualizado em 17 jan 2020, 10h05 - Publicado em 17 jan 2020, 06h00

Houve espanto, um interminável óóó de incredulidade, em 18 de julho de 1976, no ginásio olímpico de Montreal, quando a romena Nadia Comaneci, de 14 anos, soltou as mãos das barras assimétricas e pousou no solo. Depois de trinta segundos, o placar eletrônico transformou em números aquele momento histórico: 1.00, simples assim. Como o equipamento trabalhava apenas com três dígitos, e não quatro, foi impossível mostrar ao mundo o 10.00. “Senhoras e senhores, pela primeira vez em uma Olimpíada, Nadia Comaneci recebeu a nota 10 perfeita”, anunciou uma voz pelos alto-falantes, de modo a corrigir a discrepância. Naqueles Jogos, Nadia repetiria em mais seis ocasiões a nota máxima. O aprimoramento das técnicas fez surgir outras Nádias, nenhuma como ela, nem mesmo a fenomenal americana Simone Biles.

Depois de Montreal, porém, o 10 virou algo recorrente (para não dizer banal) na ginástica artística. Até a Olimpíada de Barcelona, em 1992, foi distribuída mais de uma centena de avaliações máximas. Tornou-se necessário, então, mudar o sistema de pontuação: o veredicto final passaria a ser a diferença entre o chamado “valor de partida”, referente à dificuldade dos movimentos a ser apresentados, e as deduções por erros cometidos durante sua execução. A partir dessa alteração, nunca mais se viu um “10 perfeito”.

No centro do problema, ontem e hoje, está a subjetividade da avaliação do desempenho dos ginastas, submetidos ao olhar de jurados. É a subjetividade que abre porta para algo pior, porém frequente na história do esporte: a manipulação de resultados. Há dezenas de estudos estatísticos segundo os quais juízes de determinado país tendem a atribuir notas mais altas a seus compatriotas em competições internacionais. Antes que alguém aponte o dedo acusador para todos os avaliadores das competições de ginástica, um alerta: às vezes, a “corrupção” é inconsciente. Não raro, as maiores notas foram dadas aos atletas que se apresentaram por último. Também já foi comprovado cientificamente o comportamento mimético dos jurados. No livro The End of the Perfect 10 — The Making and Breaking of Gymnastics’ Top Score — From Nadia to Now (ainda sem tradução para o português), a americana Dvora Meyers, especialista na cobertura do esporte, descreve o hábito: “Os árbitros costumam atuar como se estivessem em um jogo de adivinhação, no qual o objetivo é apontar não a resposta correta, mas sim aquela idêntica à escolhida pelo juiz ao seu lado.”

+ Compre o livro The End of the Perfect 10 na Amazon

Nos Jogos de Tóquio, que se iniciam em julho deste ano e para os quais são prometidas novidades tecnológicas em diversas áreas, os dirigentes da Federação Internacional de Ginástica (FIG) querem ver em prática uma nova ferramenta já testada durante a mais recente edição do Campeonato Mundial da modalidade, realizada em Stuttgart, na Alemanha, em outubro de 2019. É um sistema eletrônico, um “VAR”, ou “juiz robô”, como já foi apelidado pelos ginastas, que usa uma série de sensores tridimensionais para alimentar um programa de computador comandado por inteligência artificial. A partir dele será possível saber, por exemplo, de modo inequívoco, se um atleta aterrissou com o corpo reto ou não, algo que os árbitros têm de decidir sem replay (veja os detalhes sobre seu funcionamento no quadro acima). “É um passo adiante em direção à justiça através da tecnologia”, disse o presidente da Federação Internacional de Ginástica, o japonês Morinari Watanabe. Laurent Landi, técnico da estrela Simone Biles, candidata a ser o maior nome da próxima Olimpíada, diz que, quando as máquinas de fato começarem a ser utilizadas com eficiência e confiança, nascerá uma nova era para a modalidade. “Sabemos quanto uma pontuação pode ser subjetiva”, afirma Landi. É a tecnologia a serviço da honestidade no esporte.

Publicado em VEJA de 22 de janeiro de 2020, edição nº 2670

CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO PARA COMPRAR


The End of the Perfect 10

Courage to Soar: A Body in Motion, a Life in Balance

Letters to a Young Gymnast

*A Editora Abril tem uma parceria com a Amazon, em que recebe uma porcentagem das vendas feitas por meio de seus sites. Isso não altera, de forma alguma, a avaliação realizada pela VEJA sobre os produtos ou serviços em questão, os quais os preços e estoque referem-se ao momento da publicação deste conteúdo.

Continua após a publicidade
Publicidade