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A dúvida como hábito

Saber com precisão se a bola ultrapassou ou não a linha de gol talvez seja o limite máximo de uso da tecnologia no futebol. Daí para a frente haverá sempre muita grita, porque a tradição, com todas as suas imperfeições, moldou o torcedor à eterna polêmica da mesa de bar

Por Da Redação 22 jun 2014, 11h29

O chute do atacante francês Benzema bateu numa das traves e a bola correu na direção contrária. Ao tentar agarrá-la, o goleiro hondurenho Valladares se atrapalhou, e a Brazuca supostamente entrou no gol. O juiz, o brasileiro Sandro Ricci, recebeu um alerta sonoro no relógio de pulso menos de um segundo depois do lance e correu para o meio de campo: 2 a 0 para a França, que venceria por 3. No telão do Beira Rio, em Porto Alegre, veio o tira-teima. A primeira imagem mostrou o toque da bola na trave e o aviso “no goal” em vermelho. Em seguida, viu-se a bola a menos de 1 centímetro da cal, do lado de dentro, e “goal”. A torcida vaiou. Foi tudo tão rápido que muita gente não entendeu por que, depois da indicação inicial negativa, veio uma positiva. Pela primeira vez na história das Copas, a tecnologia desenvolvida para detectar o gol funcionou – mas foi incapaz de encerrar as celeumas. O treinador de Honduras, Luís Suárez, deu uma de neoludita e provocou: “Na primeira decisão da máquina não foi gol, na segunda foi. Não sei com qual ficar, qual é a verdade”. Para o técnico francês Didier Deschamps, claro, porque saiu vencedor, “a tecnologia é uma coisa boa”. Os dirigentes da Fifa, incomodados com a guerra de palavras e o mal-entendido no estádio, decidiram que a partir de agora, quando houver dois lances duvidosos – a bola que bate aqui, depois ali -, só o último será levado ao telão.

Os doze estádios da Copa têm catorze câmeras instaladas, sete para cada lado do campo. O custo de instalação foi de 500 000 reais por arena. As câmeras registram a bola com imagem 3D, tratada por um software, e mandam a mensagem para o árbitro. A margem de erro, segundo a empresa responsável pelo equipamento, a alemã GoalControl, é de 5 milímetros (para efeito de comparação, o raio da bola mede 11 centímetros). É um sistema muito parecido com aquele usado nas partidas de tênis, em que a bolinha toca muito rente à linha com grande frequência. Os tenistas têm o direito de pedir três desafios por set, e um quarto na disputa do tie-break, quando acharem ter sido punidos por uma decisão equivocada do juiz, então resolvida pela tecnologia. Não é possível imaginar que Rafael Nadal seja eliminado de Roland Garros ou Wimbledon porque um dos árbitros não conseguiu enxergar se a bola que voava a 200 quilômetros por hora encostou na linha. Na NBA, a milionária liga de basquete, e no futebol americano, os juízes param o jogo para ver o replay em lances capitais. No futebol sempre foi diferente, com as polêmicas – Maradona fez ou não fez o gol com a mão? A bola de Hurst na final de 1966 entrou ou não? – servindo de molho para eternas discussões.

Não se trata de louvar a máxima de que “roubado é mais gostoso”, quando há dúvidas. Não é isso, evidentemente não, mas tudo indica que o limite da tecnologia no futebol é mesmo o lance de gol. Muito dificilmente teremos o apoio da ciência para ter certeza se foi ou não foi pênalti em Fred na estreia do Brasil contra a Croácia. É possível que seja apenas questão de hábito, mas o torcedor está acostumado com decisões equivocadas (e, in­sis­ta-se, não se trata de louvar a contrafação, mas apenas de registrar a possibilidade de erros ocorrerem democraticamente para os dois lados de uma partida de futebol). Torcedor algum jamais deixou de ir ao estádio mesmo depois de seu time ter sido vítima de algum erro (doloso ou culposo) do trio de arbitragem. A polêmica faz parte do espetáculo, como já anotou o ex-presidente da Fifa João Havelange, numa de suas únicas frases ainda palatáveis publicamente. Imaginemos uma situação futura em que as tecnologias sejam tão exatas, tão infalíveis em suas marcações, que contraditá-las só seria possível com o uso de outra tecnologia ainda mais precisa. Isso ocorre nos Estados Unidos quando o sujeito é multado por excesso de velocidade pelo radar da polícia. Os motoristas recorrem com a apresentação de dados do seu próprio GPS, que é bem mais acurado do que o equipamento da polícia. O futebol tem uma boa parte de arte, condição que o torna magnético, extraordinariamente popular. Imagine um robô capaz de esculpir um David ainda melhor do que Michelangelo, mas a obra fica tão perfeita, tão perfeita, que só outro robô é capaz de apreciar suas qualidades. O alcance da tecnologia no futebol deve ser limitado aos padrões humanos: nada melhor que nossos reflexos, a velocidade do nosso olhar, recursos de todo juiz bem treinado e honesto, para fazer o jogo andar ou parar – a não ser na linha de gol, porque a tecnologia lançada nesta Copa é irreversível.

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