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A corrida virou balada

No Brasil, há quase tanta gente que corre quanto pessoas que jogam futebol. Essa turma descolada agora move-se sob a luz da Lua para tudo acabar em festa

Por Bruna Motta Atualizado em 25 out 2019, 11h06 - Publicado em 25 out 2019, 07h00

Muitas luzes coloridas, fumaça, DJ. À primeira vista, parece ser uma balada como outra qualquer. Mas o que dizer do invariável figurino tênis, short e camiseta? E das bandejas onde só há água e, com um pouco de sorte, isotônico? Cardápio: barrinha de cereais, banana, maçã. Bem-­vindo à reunião de uma tribo que une o útil ao agradável e embala a toda na onda das corridas de rua noturnas. O exercício é para valer, com percursos de 5 ou 10 quilômetros, mas, diferentemente da malhação tradicional, sempre começa e acaba em festa. O crescente entusiasmo dos brasileiros pelas corridas sob a luz da Lua tem a ver com o conhecido pendor humano para a novidade. Como o Brasil já é considerado há pelo menos uma década uma nação de corredores de rua — com 4,5 milhões de praticantes, a modalidade só perde para o futebol —, essa turma vive em busca de variedade. E a resposta do mercado veio com o “corujão”. “A gente foge do sol e ao mesmo tempo se diverte”, diz a enfermeira Anier Siqueira, 26 anos, contando os minutos para a travessia Up Night, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Detalhe: o visual esportivo com profusão de cores, comum nessas pistas, se adapta à dupla função.

As corridas-balada vêm se disseminando por todo o país, promovidas por empresas que detectaram nelas um bom negócio. Para se ter uma noção de seu vigor, do início dos anos 2000 para cá os trajetos noturnos se multiplicaram quase vinte vezes. Estima-se que, a cada três desses eventos de rua, um aconteça à noite. A engrenagem para pôr tudo de pé envolve os mesmos desafios diurnos — autorização para fechar vias, busca de patrocinadores — e mais alguns. O pioneiro Night Run, que apareceu acanhado em São Paulo, em 2006, hoje realiza corridas noite adentro em nove cidades. “Trazemos canetas de neon para o pessoal colorir o rosto e sair bem na foto, o que, aliás, é essencial, pois o nosso público adora uma selfie”, entrega Guilherme Accursio, da Night Run.

TRÉGUA – Anier (à dir.) e Thaiane Rodrigues: mantendo a forma e fazendo social Andre Valentim/.

Há sempre um palco animado — no cardápio, de música eletrônica a rock e funk. A balada fit promovida pela carioca Corre Eventos tem até tema. Um deles, “O cupido”, falou direto a um grupo que está lá para fazer amigos, conhecer pessoas e, por que não?, dar uma corridinha. Cores distinguiam o estado civil do atleta: verde (solteiro), amarelo (enrolado), vermelho (comprometido). “Conseguimos reunir 2 000 corredores”, calcula Simone Laeto, 47 anos, que deixou o trabalho em agências de publicidade para investir no profícuo mercado de corridas e cada vez mais se dedica aos notívagos, que desembolsam uma média de 100 reais pelo pacote.

Pergunta que não quer calar: do ponto de vista estritamente fisiológico, correr à noite oferece alguma vantagem? Sim, concordam os especialistas. “O gasto calórico é igual, mas correr longe do sol e sob menos calor é melhor porque o corpo perde menos água, cansa menos, e a pessoa tende a estender o tempo da atividade”, explica o ortopedista Sérgio Maurício. Mas a tribo do turno coruja (da concentração, onde a festinha se inicia, ao fim da balada, passam-se cerca de quatro horas, tudo terminando por volta das 10 da noite) deve ficar atenta a certos cuidados com a saúde. Eles vão da alimentação ao alongamento, que precisam se adaptar ao horário mais adiantado — e são, em certos aspectos, distintos daqueles indicados para quem se exercita ao longo do dia (veja o quadro).

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Nessas festas, bebidas alcoólicas são quase tão raras quanto maquiagem (quem vai se arriscar a ver a sombra deslizar suor abaixo?), mas às vezes o corredor-baladeiro se permite uma dose aqui, outra ali, embora elas não constem no menu oficial. Como as corridas são ao ar livre, em praças, praias e parques, passa um ambulante vendendo cerveja e a tentação pode falar mais alto. A faixa etária local gira em torno de 25, 30 anos, muita gente vai em grupo e, sim, esbanja energia para dançar. Dito assim, parece que sobra alegria e falta foco nas pistas. Errado. A maioria leva a sério o momento da corrida. Seus adeptos estão assim mantendo viva uma modalidade primeiro praticada por trabalhadores ingleses no século XVII, que teve como marco histórico a primeira maratona olímpica, de 1896, em Atenas. Foi em 1968, porém, que o médico americano Kenneth Cooper popularizou o esporte ao descrever seus benefícios no célebre livro Aerobics: músculos fortalecidos, sistema cardiorrespiratório em pleno funcionamento, pressão arterial reduzida. Mister Cooper só não poderia prever um acréscimo que trouxe um novo ganho à corrida: a diversão.

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2019, edição nº 2658

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