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Instapoetas, o fenômeno que tirou a poeira da poesia

Jovens autores impulsionam o gênero na internet – e na lista de best-sellers

Existe amor (em forma de poesia) nas redes sociais. Transformada em um polarizado campo de batalha político, a internet também foi tomada por um movimento crescente de jovens poetas, que cravaram seu espaço no online com textos curtos, compartilháveis e fáceis de se relacionar, e acabaram refletidos com muito sucesso na literatura tradicional.

Pela força no Instagram, os escritores acabaram apelidados de instapoetas. Nomes como João Doederlein, Ryane Leão, Lucão e Zack Magiezi exploram de forma engenhosa temas como amor, decepção, saudade e autoestima, a maioria com caráter motivacional, bebendo de fontes filosóficas e do velho formato dos provérbios, enquanto ainda se arriscam na tendência metalinguística – que fala sobre a própria poesia e a arte de escrever.

Com centenas de milhares de seguidores, os poetas do Instagram migraram para o papel e, rapidamente, chegaram à lista de best-sellers. Na comparação entre os meses de janeiro a agosto de 2017 com o mesmo período de 2018, os livros de poesia nacionais cresceram em venda 107%*, fenômeno diretamente causado pelos autores virtuais. Destaca-se na lista a obra Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente, do perfil no Instagram de mesmo nome, atualmente o livro de ficção nacional mais vendido do país neste ano.

A grande culpada por alavancar o gênero é a indiana, naturalizada no Canadá, Rupi Kaur. Autora de Outros Jeitos de Usar a Boca e O Que o Sol Faz com as Flores, publicados no Brasil pela editora Planeta, em 2017 e 2018, respectivamente, os títulos somam 275.000 exemplares comercializados por aqui até o momento. No mundo, já ultrapassam a marca do milhão.

Confira abaixo quem são os principais nomes brasileiros do filão e uma análise de acadêmicos e de editores que apostaram no estilo.

*Dado da empresa de pesquisa de mercado GfK


Textos Cruéis Demais: ‘Não fazemos poesias em troca de likes’

Comandado por um coletivo, perfil saltou da internet para ser o livro de ficção nacional mais vendido do Brasil em 2018

“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”. A frase de Clarice Lispector é um dos motores de Igor Pires da Silva, 23 anos, idealizador do perfil Textos Cruéis Demais. “Eu escrevo melhor do que eu falo. Tenho dislexia. Então escrever poesia é o jeito que eu encontrei de gritar no mundo”, diz Igor. O rapaz natural de Guarulhos, São Paulo, que hoje estuda comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), começou a escrever ainda na infância. Mas foi ao enfrentar uma depressão que a poesia ganhou a função de ferramenta de sobrevivência. Durante um trajeto de ônibus voltando da faculdade, em 2016, a frase “textos cruéis demais para serem lidos rapidamente” surgiu em sua mente. Na época, ele já escrevia poesia com outras quatro amigas, grupo que se conheceu através da rede online Tumblr.

Instapoetas - Perfil - Igor Silva

A página nasceu primeiramente no Facebook antes de chegar adaptada, com textos menores em imagens quadradas, ao Instagram. A visibilidade aumentou quando celebridades começaram a compartilhar os poemas do grupo, caso de Marília Mendonça, que alavancou em 20.000 seguidores a página em menos de 24 horas.

A força na internet atiçou o desejo de Igor de migrar para o papel. Ele jogou o sonho de escrever um livro no Facebook, esperando o retorno de alguma casa editorial. “Na época não deu em nada. Mandei e-mails para editoras e recebi muitos nãos”, conta. Ele já tinha desistido da ideia quando chegou o decisivo e-mail da Globo Livros, perguntando se ainda tinha interesse em publicar. A aposta da editora deu certo. Em 10 meses nas lojas, o livro conta com mais de 200.000 exemplares vendidos, e se mantém há 36 semanas na lista de mais vendidos de VEJA. O sucesso foi tanto que Igor, que escreveu sozinho o primeiro, agora prepara um segundo, com a colaboração das colegas de grupo, as autoras Maria Luiza Moreira, 21, e Letícia Loureiro, 21, e a designer Gabriela Barreira, 23 anos.

O diferencial do próximo livro, previsto para o ano que vem, é a parceria com as amigas. “Serão três partes, uma de cura, outra de amor e outra de perdão. Com três pessoas olhando para os temas”, conta. Igor afirma que o coletivo, que já teve outra formação, opta por não assinar os poemas por um motivo simples. “A palavra tem mais peso que a assinatura. Não quero ser maior que a poesia”, diz. “Não fazemos poesia em troca de likes. O propósito é falar de assuntos que tocam o leitor.”

João Doederlein: ‘A poesia me ensinou a ver o lado bom da vida’

Também conhecido como @akapoeta, autor conquistou celebridades, fashionistas e leitores de livrarias com o sucesso no Instagram

Instapoetas - João Doederlein

Quem usa as redes sociais com frequência provavelmente já tropeçou na série Ressignificados, assinada pelo brasiliense João Doederlein, 22 anos, também conhecido pelo apelido virtual @akapoeta. A imagem traz no topo uma palavra e abaixo seu significado, como em um dicionário, mas com um texto explicativo poético, formado por frases curtas. Criado em 2016, o formato consagrou Doederlein na internet. “O Ressignificados nasceu por causa de sentimentos de amor que tive por uma garota na época”, conta. Os textos foram bem recebidos pela garota, com quem ele ficou por alguns meses, mas deram um resultado ainda melhor ao conquistar nomes como Bruna Marquezine, Grazi Massafera, Isis Valverde, Hugo Gloss, entre outras celebridades, que republicaram em seus perfis as poesias do jovem. O saldo foi bastante positivo. Após um compartilhamento de Gloss, por exemplo, o @akapoeta ganhou 100.000 novos fãs em menos de duas semanas.

Perfil - João Doederlein

A série saiu do virtual para estampar uma coleção de camisetas, em uma parceria do poeta com uma marca de roupas, e ganhar a lista de mais vendidos de VEJA com O Livro dos Ressignificados (Paralela), título que soma 85.000 exemplares vendidos, um ano após o lançamento.

Estudante de publicidade e propaganda na Universidade de Brasília, Doederlein escreve desde os 11 anos em blogs, e antes da poesia apostou em crônicas e contos. No Facebook, ele ainda mantém uma página desta época, a Contos Mal Contados, onde ele publicava histórias de “heróis mal-encarados e dragões injustiçados”. “Gosto de expressar o outro lado da moeda”, diz.

A habilidade de ponderar é parte da essência do escritor, que, aos 16 anos, sofreu uma crise de ansiedade, e, durante o processo de recuperação, percebeu o impacto que seus textos tinham em pessoas com diferentes dores. “A poesia me ensinou a ver o lado bom da vida. Fiquei mais positivo”, conta. Sobre seu papel em meio aos ânimos exaltados dos usuários das redes, ele mantém o cerne de suas ideias. “Alguém tem que contrabalancear as coisas. Ninguém aguenta passar o tempo inteiro com sentimentos tensos e pesados”, diz. “A orelha do meu segundo livro, Coração-Granada (lançado em julho deste ano), diz: ‘esse livro é um banho quente depois de um dia de trabalho’. Quero ser o banho quente com meus textos. Participar da calmaria, para as pessoas recuperarem a energia e os sentimentos através da arte.”

Ryane Leão: ‘A Rupi Kaur abriu o caminho para mim’

Autora do perfil ‘Onde Jazz Meu Coração’ navega com destreza pela atual onda do empoderamento feminino nas redes – e na lista de best-sellers

Instapoetas - Ryane Leão

Aos 19 anos, Ryane Leão deixou Cuiabá, sua cidade natal, e se mudou para São Paulo para fazer faculdade na Universidade de São Paulo (USP), onde começou estudando moda, antes de mudar para letras. A metrópole se tornou cenário para a poesia da aspirante a escritora, que passou a colar pelos muros seus versos em cartazes, tipo lambe-lambes. Hoje, aos 29 anos, Ryane é a feliz autora de um best-seller de poesia, o Tudo Nela Brilha e Queima (Planeta), foi destaque na Bienal do Livro e da Festa Literária de Paraty (Flip) este ano, e comanda a escola de inglês Odara, voltada para mulheres negras.

Instapoetas - Perfil - Ryane Leão

As conquistas foram alcançadas ao longo de dez anos com muitos percalços. “A mudança para São Paulo foi bem difícil. Trabalhei de tudo para pagar o aluguel, fui recepcionista, garçonete, dei aulas de inglês”, conta. “Eu escrevia por hobby. Demorou muito para a poesia ser algo rentável para mim.”

Entre o lambe-lambe e os textos em blog, Ryane chegou às redes sociais com o perfil Onde Jazz Meu Coração, em que publica textos sobre autoafirmação, relacionamentos e empoderamento feminino. As temáticas lembram as da indiana Rupi Kaur, fenômeno do gênero. Foi com o sucesso da autora que Ryane conseguiu publicar seu primeiro livro. “A editora estava procurando alguém parecida. Entraram em contato comigo pelo Instagram depois que uma amiga me indicou”, conta. Com quase 20.000 exemplares vendidos em menos de um ano, a autora já prepara um segundo título para 2019.

“A Rupi Kaur abriu o caminho para mim. Acho um presente a comparação. Ela é incrível”, diz. “A literatura ainda é muito branca e elitista. Aí surge uma poeta imigrante, mulher, de cor, e vira best-seller. A Rupi abriu as portas para mim e para outras mulheres.”

A principal semelhança de Rupi e Ryane reside principalmente na missão de falar sobre assuntos que a literatura tende a ocultar ou romantizar. “Não é fácil ter amor próprio e autoestima. Não somos inabaláveis. Falamos de relações abusivas, de racismo, machismo, mas não ficamos na dor pela dor. A ideia é mostrar que passamos por tudo isso, mas podemos sobreviver.”

A identificação de outras mulheres e da força dos movimentos feministas nas redes ajudou Ryane a crescer no meio virtual, com o amplo compartilhamento de seus textos. Ela percebe a onda e navega nela com tranquilidade. “Quero aproveitar esse momento de mais mulheres falando e publicando. Chegou ao fim o medo de contar nossas histórias.”

Zack Magiezi: ‘Faço poesia simples, para que ela seja democrática’

Autor viralizou na internet com série de poemas ‘Notas sobre Ela’ e conquistou seguidores pelo estilo romântico de tom nostálgico

Instapoetas - Zack Magiezi

Quando decidiu criar um perfil no Instagram, Zack Magiezi, 35 anos, que já angariava seguidores com a página Estranheirismo no Facebook, entendeu que precisava aliar sua poesia à uma identidade visual. “Na essência, o Instagram é uma rede de fotos e não de textos”, analisa. Como trabalha sozinho e não sabia usar programas de edição de imagem, ele resolveu uma antiga dívida com um amigo que havia comprado dele um violão. O amigo quitou o débito com uma velha máquina de datilografia. “Comecei a datilografar e fotografar o texto. Chamou a atenção o estilo antigo num ambiente digital”, conta. A troca foi acertada. Segundo Zack, até hoje o amigo não aprendeu a tocar violão. “Já a máquina, me serviu bastante”, diz rindo o poeta que soma quase 1 milhão de seguidores na rede e três livros publicados, que somam mais de 60.000 exemplares vendidos.

Instapoetas - Perfil - Zack Magiezi

O perfil online se consolidou com uma série de pílulas literárias batizadas de Notas sobre Ela. “Eram pequenos fragmentos na tentativa de retratar o feminino”, diz. Ousado, o autor não se acomodou na ideia que lhe deu fama, e continuou a experimentar formatos e o uso da língua portuguesa. Em tom confessional, os textos de Zack falam de perda, amor e o medo da finitude. “Passei por alguns términos de histórias que não foram bem finalizadas. Elas terminaram bem, mas eu não sabia lidar com o fim. Não sabia para onde ir, o que fazer”, conta.

Sendo um dos mais seguidos entre os instapoetas brasileiros, Zack analisa que os autores do movimento são jovens, todos experimentando, em busca da própria voz. “O que gosto do meu perfil é a linguagem. Faço poesia simples, para que ela seja democrática e chegue em mais pessoas”, diz. A facilidade da linguagem, contudo, não significa para ele que os textos sejam sem profundidade. “É uma rede social de superfícies, por isso é legal ter ali algo de dentro dos indivíduos.”

Apesar da forte presença nas redes sociais, Zack passa longe de ser um entusiasta da internet. “As pessoas querem conhecer as outras baseadas apenas nas redes sociais e isso não funciona”, avalia, antes de dizer que quer se firmar na literatura para não depender apenas da internet para sobreviver. “Se o Zuckerberg puxar a tomada, o que eu vou fazer? Por isso quero me consolidar como escritor.” O ex-coordenador administrativo de um colégio em Minas Gerais se dedica exclusivamente à literatura desde 2016, quando lançou seu primeiro livro, Estranherismo (Bertrand Brasil). Ele prepara agora um novo título, com pequenos textos em prosa. “O livro é uma plataforma que te permite mais. É diferente o tempo de uma pessoa que senta para ler um livro e quem passa o olho por uma timeline. O livro ainda é melhor que um celular.”

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bom dia. #zackmagiezi

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Lucão: ‘Não dependo da dor para escrever’

Ex-redator publicitário faz sucesso na internet com versos curtos e temas leves, enquanto na literatura aposta pela primeira vez em um romance

Instapoetas - Lucão

“Eu e você não rima. Rimos”. Textos curtos costurados com jogos de palavras e aliados a temáticas românticas e bem-humoradas se tornaram a característica da poesia de Lucas Cândido Brandão, ou Lucão para os íntimos – e também para seus mais de 400.000 seguidores. “A experiência que me levou a escrever foi ler. Fui atraído pela poesia e pela liberdade de formatos”, conta o autor de 33 anos. Ao contrário de boa parte dos colegas instapoetas, não foi uma perda ou uma dor que o fez começar a rabiscar versos ainda na adolescência. “Minha vida foi ótima, recebi muito amor e quero falar sobre isso”, conta. “Eu brinco que não dependo da dor para escrever. Se eu tivesse que sofrer para criar viveria numa armadilha. Tem que tomar cuidado. Para escrever bem tem que fazer terapia antes”, diz o autor filho de uma psicóloga.

Lucão começou a divulgar seus textos aos 19 anos, antes da onda das redes sociais, quando os blogs eram o endereço virtual do momento. Foi natural a transição para o Facebook e Instagram, em 2014, quando misturou os primeiros versos com fotos em seus perfis. A paixão pela escrita o levou a cursar publicidade e propaganda e trabalhar, em seguida, como redator publicitário. Até que, também em 2014, recebeu por e-mail da Saraiva o primeiro convite para publicar um livro. “Quis deixar o emprego para me dedicar ao trabalho de escritor, mas tive medo. Quando veio o convite para o segundo livro, tomei coragem”, conta o autor que há dois anos se dedica à escrita.

Instapoetas - Perfil - Lucão

Seu primeiro livro, É Cada Coisa que Escrevo Só pra Dizer que Te Amo, levou para o papel o estilo “instagramável”. “São versos curtos, poesia breve, livro fotogênico para as pessoas tirarem fotos e compartilharem nas redes”, conta. O segundo, Telegramas, é um trabalho mais íntimo, com poemas maiores. Juntos, os dois títulos publicados pela Benvirá, selo da Saraiva, somam mais de 30.000 exemplares vendidos. Em seguida, Lucão decidiu publicar um livro independente. Foi daí que nasceu Dois Avessos, feito em parceria com o amigo também poeta Fabio Maca. “Foi uma nova fase da minha escrita, com poemas mais longos e profundos”, conta.

A evolução dos textos culminou em seu mais recente trabalho na literatura: o romance Amores ao Sol (Planeta). A trama, uma ficção inspirada numa história real, narra a história de um homem em busca de uma mulher que ele conheceu no caminho de Santiago de Compostela. “Aconteceu algo parecido. Encontrei em Compostela um brasileiro que tinha conhecido uma argentina. Ele estava um pouco apaixonado por ela, mas se desencontraram. Depois não o vi mais e fiquei sem saber o fim da história.” Lucão decidiu criar o fim desconhecido da trama. “Eu não pensava em escrever romance, sou poeta. Mas essa história apareceu na minha frente.” Para os próximos passos, ele já pensa em um novo livro de poemas e esboça outro de crônicas. “Sou escritor e quero experimentar estilos na escrita.”

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Bom dia, passarinhos

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Do "É cada coisa que escrevo só pra dizer que te amo"

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Entre curtidas e best-sellers

Jovens, que se tornaram conhecidos nas redes sociais, desafiam a velha ideia de que poesia não vende e se tornam objeto de estudo de acadêmicos

Instapoetas - Livros

No meio do caminho de Carlos Drummond de Andrade tinha o Instagram. O poeta mineiro, talvez o mais celebrado do século XX, já não lidera a lista de livros mais vendidos de poesia nacional. Segundo a empresa de pesquisa de mercado GfK, Claro Enigma, que ocupou a primeira posição do ranking entre janeiro e agosto de 2017 – em grande parte, provavelmente, porque estava na lista de leituras obrigatórias da Fuvest, o vestibular da Universidade de São Paulo (USP) –, não repetiu o feito no mesmo período deste ano. Agora, o posto é do grupo Textos Cruéis Demais (TCD), liderado pelo jovem Igor Pires da Silva. Já o segundo lugar da lista, que no ano passado era do poeta marginal Paulo Leminski, hoje é de João Doederlein, o @akapoeta.

Foi Leminski quem chacoalhou o mercado editorial em 2013, quando seu Toda Poesia (Companhia das Letras) desafiou a velha história de que poesia não vende no Brasil, tornando-se um best-seller. Essa máxima continua a ser colocada em xeque, agora com os instapoetas, que puxaram o crescimento do gênero neste ano e ocupam cinco das dez posições do ranking de livros de poesia mais vendidos (confira a lista ao final da reportagem). “É sempre uma surpresa quando um livro de poesia vende, ainda mais entre o público jovem”, diz a editora Veronica Gonzalez, do selo Globo Alt, que lançou Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente em novembro do ano passado. “Achávamos que seria um livro que iria bem, mas não nessa magnitude.”

O sucesso comercial era esperado pelo selo Paralela, do Grupo Companhia das Letras, quando aceitou publicar O Livro dos Ressignificados, de João Doederlein. Bruno Porto, editor do título, lembra que o selo tem obtido resultados comerciais e de repercussão bastante favoráveis ao trabalhar com influenciadores digitais, como a youtuber Kéfera Buchmann. “A gente tinha visto que dava bastante certo lançar livros desse pessoal, porque eles mesmos divulgavam nas redes sociais deles. O projeto do João era bom e a Rupi Kaur já tinha aberto o caminho para autores como ele”, afirma.

Outros dois autores, esses brasileiros, contribuíram para que o mercado passasse a prestar atenção no que vinha sendo publicado na internet. Pedro Gabriel é uma constante na lista de best-sellers desde que lançou Eu Me Chamo Antônio, em 2013, pela Intrínseca. De lá para cá, foram mais dois livros e um total de aproximadamente 240.000 exemplares vendidos. Já Clarice Freire, da mesma editora, conta com cerca de 85.000 exemplares vendidos de Pó de Lua (2014) e Pó de Lua nas Noites em Claro (2016).

Pedro Gabriel, que conquistou as redes ao postar mensagens e frases escritas em guardanapos, acredita que pode ter sido um precursor dos instapoetas. “Ajudei a colocar algumas pedras nesse caminho. Mostrei que uma grande editora poderia se interessar pelo trabalho que faço e que era possível fazer poesia em português e viver disso”, diz. “Você pode participar de oficinas, feiras, tudo o que faz parte da cadeia do livro. Eu vivo do que eu ganho fazendo o que eu gosto. Nunca achei que um pedaço de guardanapo que todo mundo joga fora poderia trazer o meu alimento.”

De fenômeno a tese de doutorado

Que é amplamente lida, não há dúvida. Mas será que a “instapoesia” estimula a leitura também de outros autores? Miguel Braga Vieira, professor de literatura brasileira da Universidade Estadual de Londrina (UEL), acredita que os poetas das redes sociais, como outros best-sellers, podem ter esse papel de fazer despertar o interesse do público por outras leituras. “Uma pessoa não vai se tornar leitora com Os Sertões, e sim a partir de autores que chamam mais atenção”, diz. “Um número maior de pessoas está lendo e não tem problema algum em ser poesia no Instagram, mas o legal é que eles possam passar a ler outras coisas também”, diz.

Assim como outros livros que caem no gosto popular – ou qualquer obra escrita, na verdade – os títulos dos instapoetas não são regulares: há alguns com reflexões mais e também menos aprofundadas, cuidado e conhecimento maior ou menor da linguagem. No entanto, o meio inicial de propagação do trabalho destes jovens escritores pode ser um fator decisivo na criação e temática dos poemas, algo que os diferencia dos artistas ditos tradicionais. Para o professor da UEL, pode haver certa preocupação por parte deles de agradar seu público por antecedência, respondendo a anseios de seus leitores. “São escritores que estão em busca de aumentar sua circulação. Se for pensar em arte, ela não abre tanto a mão em busca de aceitação imediata, de curtidas e seguidores”, diz Vieira, que não enxerga nessa característica algo necessariamente negativo. “Não há nada que impeça isso, e vejo o movimento com bons olhos, é um estímulo da poesia.”

A aceitação e assimilação dos best-sellers por parte da academia é ainda um tema controverso – e que varia a cada profissional do meio e cada universidade. Mas já há ao menos um indício de que os estudiosos da literatura estão prestando atenção no fenômeno dos instapoetas. A doutoranda Layse Barnabé de Moraes, da UEL, se debruça atualmente a uma tese que parte do livro Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur, para analisar o movimento recente formado também por outras escritoras que usam a poesia como meio de cura. “Ela toca em assuntos muito básicos, da vivência feminina, que não são nada delicados e sensíveis, a maneira como geralmente se lida com a literatura feita por mulheres. Ela fala de temas como abuso, o pai imigrante, ser uma mulher indiana”, afirma Layse.

O projeto ainda deve levar alguns dos poemas das escritoras, que incluem também a americana Nayyirah Waheed e a canadense Key Ballah, a mulheres em situação de vulnerabilidade – presas, que estão em asilos, órfãs e que sofreram violência sexual ou doméstica, por exemplo. A ideia da estudante é ouvir essas histórias e apresentar os poemas das autoras, propondo um ambiente de troca de vivências.

Quando o doutorado for finalizado, daqui mais ou menos quatro anos, não se sabe nem se o Instagram ainda vai estar na moda. É possível que seja outra a rede social do momento, e que poesia no Instagram seja página virada, ou também que ele continue forte, assim como os autores que a partir dele se tornaram conhecidos. Mas o fato é que jovens como Igor Pires da Silva, João Doederlein e Ryane Leão terão ao menos deixado uma marca, se pequena ou grande é impossível saber agora, no vasto mundo da poesia.

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