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Woody Allen relê ‘Crime e Castigo’ em ‘Homem Irracional’

Em comédia mórbida com Joaquin Phoenix e Emma Stone, diretor volta a explorar a moral dos livros de Dostoiévski – além dos aforismos dos seus filósofos favoritos

Ao receber uma cópia de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, enviada por um fã brasileiro, o americano Woody Allen só se decidiu a ler o livro porque, como admitiu ao jornal britânico The Guardian, ele era curto. Allen não é, segundo ele mesmo diz, um grande leitor. Talvez por isso retorne aos mesmos livros de tempos em tempos, na construção de seus filmes. Não que isso seja, necessariamente, um demérito: o americano sabe extrair histórias diferentes (e boas) das mesmas referências. É o que se vê em Homem Irracional, em cartaz a partir desta quinta-feira. No longa, Allen volta a citar Crime e Castigo, que havia inspirado o sombrio O Sonho de Cassandra, de 2008, e aqui reaparece com algo de Os Irmãos Karamazóv, também de Dostoiévski, e ainda autores diletos como Sartre e Simone de Beauvoir – que ele já disse, num chiste, ter lido para impressionar garotas.

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Logo no comecinho, o professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix), que se reveza com a estudante Jill (Emma Stone) na narração do longa, lembra Kant. “Há questões que a razão não consegue responder, mas também não pode refutar”, diz a citação, a primeira de muitas do roteiro. Ainda que por vezes essas citações tenham função mais cômica do que filosófica, algumas reverberam ao longo do filme, caso da frase de Kant, reacesa nas cenas em que a razão é confrontada pela intuição e naquelas em que a tentativa de controle do mundo de Abe Lucas se vê ameaçada pelo que se pode chamar de acaso ou destino, a depender da escola – ou da fé.

É também na primeira parte do longa que se manifesta o gosto de Allen pelos russos. Recém-chegado à pequena e simpática cidade de Jill para assumir uma vaga na bela universidade onde ela estuda, Lucas, um deprimido filósofo em busca de sentido para a vida, repassa para a aluna, de quem se aproxima a princípio como amigo, o seu diversificado currículo: já fez de tudo, mesmo atividades braçais, sem nunca deixar de ler. Sobretudo, os russos. De Dostoiévski, leu tudo.

Enredada por essas histórias e por outras que precederam a mudança de Abe Lucas – umas de viés filantrópico (ele teria colaborado com a reconstrução de Nova Orleans após o furacão Katrina e atuado como voluntário no Oriente Médio), outras sobre a sua envergadura sexual (não perdoaria colegas e, sobretudo, estudantes), algumas sobre a sua incrível capacidade intelectual (quase como gênio, apregoavam os boatos) e ainda as dramáticas (traído pela esposa com o melhor amigo, ainda teria perdido um amigo, não fica claro se o mesmo, para uma mina no Iraque ou no Afeganistão), Jill, então em vias de se casar com outro estudante, Roy (Jamie Blackley), se deixa arrastar.

Abe Lucas, no entanto, está abatido e bloqueado – intelectual e sexualmente. É um caldo de neuroses, um típico personagem de Woody Allen. Nem diante da voraz Rita (Parkert Posey), professora de química casada, mas afeita à interdisciplinaridade, por assim dizer, o filósofo encharcado de álcool e náusea consegue se destravar. Nem mesmo quando a incansável Rita aparece em sua casa com uma garrafa de uísque e um ultimato: “Você não vai me mandar embora sem transar comigo antes”.

O que Abe Lucas quer, e diz isso entre citações de Kierkegaard, Kant e Sartre, é encontrar algo que o reanime – que o leve a recuperar a vontade de viver. Até a filosofia, o seu ganha-pão, se esvaziou de sentido. “Filosofia é bobagem”, diz aos alunos, em sua aula de Ética. “Quem vai querer ler mais um livro sobre filosofia?”, pergunta à sempre presente Jill, desdenhando de um texto que não consegue concluir.

É no local mais insuspeito, um desses restaurantes americanos com jeitão de lanchonete, que Abe Lucas encontra aquela que pode ser a justificativa para a sua existência. Ele e Jill pescam, da mesa junto à deles, uma conversa em que uma mulher lamenta por antecipação a perda da guarda dos filhos. O juiz responsável pelo caso, diz ela, é corrupto e ligado ao pai, um pai ausente, que no entanto deve levar a melhor. “Eu queria que ele morresse de câncer”, deseja a mulher, chorosa. Ao que Abe Lucas tem um estalo: e se ele morresse de fato? O mundo não seria um lugar melhor? E, sem compartilhar a ideia com Jill, Abe Lucas se lança sobre o plano de matar o juiz, o que, já de saída, devolve a ele o apetite pela vida – e o joga nos braços ora da estudante ora de Rita.

A interseção com Crime e Castigo fica clara aqui, assim como a dívida de Allen com outro romance de Dostoiévski – a decisão de Lucas é tributária de O Grande Inquisidor, o famoso capítulo de Os Irmãos Karamazóv em que se discute se, tomando por premissa a inexistência de Deus, tudo é permitido. Ao contrário do romance e de O Sonho de Cassandra, contudo, Homem Irracional não tem um clima pesado. Em vez de uma atmosfera opressora, o jazz e as cenas em plano aberto e iluminado. Em lugar de tortura moral e comiseração, o humor inteligente do diretor. O detalhe que ressurge de forma irônica em Match Point – o anel de que o escroque vivido por Jonathan Rhys Meyers tenta se desfazer junto ao rio – também está presente aqui. Preste atenção na lanterninha que Jill vai ganhar de Abe em uma romântica noite em um parque de diversões. Ela fará um retorno triunfal na história.

É fato que Homem Irracional tem um tanto de tensão. E que não está à altura de Match Point. Mas a comparação com aquele que o próprio Allen considera o seu melhor filme não é lá muito justa. Diretor prolífico – mal pôs o novo longa em circuito, já anunciou o elenco do próximo, que terá Kristen Stewart e Jesse Eisenberg -, Allen produz muito ao custo de nem sempre alcançar a excelência. Raramente deixa a dever, no entanto, e a regra se comprova agora. Homem Irracional não é Match Point, mas é melhor, muito melhor que O Sonho de Cassandra e seu último filme, a boba, embora agradável, comédia romântica Magia ao Luar. E, ainda que não chegue ao nível de Match Point, Homem Irracional deixa o seu impacto no espectador. Até porque há questões que não se pode responder. Mas também não se pode refutar.