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Walcyr Carrasco: O cidadão é a vítima

Eu me sinto frágil num país onde o inocente tem de provar sua razão

Por Walcyr Carrasco - Atualizado em 20 set 2019, 10h19 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

O celular tocou. Do outro lado, alguém se identificou como uma profissional de um banco. Queria confirmar um pedido de crédito para a compra de um carro. Neguei. Não pedira crédito algum. Ela havia me ligado por suspeitar justamente disso. O número de celular apresentado não correspondia ao da minha ficha. No dia seguinte, outro banco ligou para confirmar a emissão de um cartão de crédito pedido pela internet. Também neguei. Veio outro banco com novo pedido de financiamento de veículo. Falso. Alguém estava querendo me fraudar! Não tive dúvida. Gravei um vídeo avisando as instituições de crédito. Postei no Instagram. Recebi muitas mensagens solidárias. Inclusive de pessoas já fraudadas. O vídeo chegou a um amigo de meu irmão em Guaratinguetá. Diretor de uma revendedora de veículos, ele recebera o pedido de financiamento de um carro. Meu irmão avisou que era fraude. O amigo mandou a foto de uma falsa carteira de identidade com meu nome. E do pedido, com o endereço para a entrega do veículo no Rio de Janeiro. Também as mensagens e gravações de WhatsApp, com a foto e a voz do fraudador. Uma voz horrorosa, por sinal, falando em ter “de resolver rápido para ir nas gravações da Globo”.

O Serasa foi competente. Ligou a cada vez que meu CPF era consultado. Pediu-se um Boletim de Ocorrência, para registrar a tentativa de crime. Inicialmente, a polícia explicou que não era possível fazer o B.O., pois não havia “ocorrência” de crime. Mostrei os documentos falsificados. O B.O. foi feito e me garante em termos de datas etc. Acreditam que o safado se atreveu a ligar para o próprio Serasa? Como se fosse eu? Pediu a liberação de um cartão Black, pois o CPF estava bloqueado. Que cara de pau! Os pedidos se sucedem: já tentaram financiamentos em Minas Geras, Rio de Janeiro, São Paulo. Até um cartão por um banco digital. As tentativas não param! Ativei o serviço Serasa Antifraude. Bloqueei até mesmo meu próprio CPF. Se precisar de um financiamento, não consigo!

“Eu pago impostos, trabalho muito. É óbvio: o que ganho é meu. Mas meu nome pode ficar sujo a qualquer hora”

Eu me sinto muito mal. Querem tungar meu dinheiro. Consigo até localizar o fraudador no endereço para a entrega do carro, no Rio de Janeiro. Mas, na prática, é difícil me defender. Segundo um advogado, teria de fazer uma denúncia em cada lugar onde houve tentativa de golpe. Isso custaria tempo e dinheiro. E onde vão tentar da próxima vez? A lei brasileira não ajuda. Pouco posso fazer como precaução. Tenho de esperar ser roubado? Ver voar o meu dinheiro? E só aí correr atrás? Como costumam perder esses processos por fraude, as instituições financeiras mantêm esquadrões para impedir os golpes. Um gasto enorme!

Eu pago meus impostos, trabalho muito. É obvio: o que ganho é meu. Mas meu nome pode ficar sujo a qualquer momento. Posso ser obrigado a entrar num processo para provar que não financiei um carro, se algum banco cair no esquema. Sou a parte inocente da história, mas quem tem de se cuidar sou eu! Eu me sinto frágil, impotente. Vítima de um sistema que não olha por mim. Como cidadão, eu não me sinto protegido.

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Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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