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Vozes em evolução

Discos de Gilberto Gil e Father John Misty estão entre os melhores de 2018

Música

DELICADEZA CAIPIRA – Renato Teixeira e Almir Sater: uma sintonia bem brasileira

DELICADEZA CAIPIRA – Renato Teixeira e Almir Sater: uma sintonia bem brasileira (Miro/.)

1. +AR, de Almir Sater e Renato Teixeira (Universal)
Um dos mais delicados compositores da música de raiz caipira, Renato Teixeira, de 73 anos, é o autor do clássico Romaria, sucesso na voz de Elis Regina. Almir Sater, de 62 anos, é um violeiro formado no rock e no folk, gêneros que cruzou com a música pantaneira. Em 2015, depois de anos de colaboração, os dois lançaram o primeiro disco conjunto, AR. Em 2018, esse trabalhou ganhou continuação em +AR — aliás, mais que uma continuação, uma confirmação da sintonia que existe entre a dupla de músicos. O disco junta o melhor da música regional brasileira ao country americano e ao folk inglês, que a viola inspirada de Sater visita com naturalidade. As letras mostram Teixeira em seu melhor como um grande contador de histórias, capaz também de achados líricos como “Lá no sertão, onde mora a ventania / Onde o trovão cria suas melodias” (em Eu, Você, um Violão). Em um ano de divisões tão cruentas, +AR lembra que o espírito brasileiro ainda é capaz de beleza.

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2. HEAVEN AND EARTH, de Kamasi Washington (Young Turks)
O saxofonista americano, de 37 anos, está na vanguarda do novo jazz de seu país. Kamasi Washington é um dos raros músicos do gênero a transitar, com notável desenvoltura, pelo universo do hip-­hop e do jazz. A folha corrida do músico apresenta trabalhos ao lado do rapper Kendrick Lamar e do baixista Stanley Clarke. O segundo disco de Washington, Heaven and Earth, tem um fundo espiritual: divide-se em duas seções, Céu (Heaven), sobre o universo idealizado pelo músico, e Terra (Earth), sobre o mundo onde ele efetivamente vive. Esse argumento metafísico-musical desenvolve-se nas formas mais inauditas — incluindo uma versão de Punhos de Aço, tema de um filme de Bruce Lee.

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3. OK OK OK, de Gilberto Gil (Biscoito Fino)
“Não tenho medo da morte / Mas sim medo de morrer”, cantava Gilberto Gil em Banda Larga Cordel, disco de 2008. O compositor baiano chegava a chorar quando interpretava essa canção na turnê que fez com Caetano Veloso, três anos atrás. Gil teve problemas renais preocupantes, que o levaram a sucessivas internações hospitalares. Ele comemora a recuperação neste que é talvez o melhor disco que lançou no século XXI. OK OK OK veio para celebrar a vida — mas é uma celebração reflexiva, com um tom confessional nas músicas que falam da convalescença, Quatro Pedacinhos e Kalil. A faixa que dá título ao álbum é um comentário sutilmente irônico sobre as cobranças de posição política da era das redes sociais: “Palavras dizem sim, os fatos dizem não”.

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4. GOD’S FAVORITE CUSTOMER, de Father John Misty (Sub Pop)
Father John Misty é o nome artístico do americano J. Tillman. Baterista, cantor e compositor, ele perseguiu com brio uma trajetória de respeito no rock alternativo — tocou até com os Fleet Foxes, banda venerada nesse meio restrito. Seis anos atrás, Tillman adotou o novo pseudônimo e partiu para uma elogiada carreira-solo. Nos discos que lançou com o nome próprio, o músico seguia uma linha folk, inspirado em Bob Dylan. Já Father John Misty vai pelos caminhos do soft rock, uma versão mais doce e radiofônica do gênero. Repleto de baladas em tom confessional, God’s Favorite Customer é o trabalho mais certeiro da nova roupagem do artista. Em alguns momentos, suas canções têm a beleza melódica de um Elton John.

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OURO DRAG – Pabllo Vittar: melhor no segundo disco

OURO DRAG – Pabllo Vittar: melhor no segundo disco (Lailson Santos/VEJA)

5. NÃO PARA NÃO, de Pabllo Vittar (Sony)
O segundo disco da drag queen mais popular do país é um convite ao rebolado. Suas dez músicas trazem uma sintonia entre os ritmos eletrônicos e a sonoridade brasileira da lambada, do forró e da axé music. Faz sentido: com essa combinação cheia de personalidade, Pabllo tem mais chance de alcançar o sucesso internacional do que meramente emulando ritmos como reggaetón, cujo mercado está saturado. Pabllo evitou também uma certa estridência que prejudicava seus primeiros hits: está cantando em tons mais graves e contidos. Embora seja sempre mais festeiro do que engajado, Não Para Não traz letras que abraçam a defesa dos direitos LGBT. É o caso de Ouro, interpretada em dueto com Urias, trans que foi assistente pessoal da drag queen e que prepara o próprio disco-solo para 2019.

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Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614