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Varilux: ‘Chocolate’ resgata história do 1º palhaço negro da França

Filme francês é protagonizado por Omar Sy, que conquistou fama internacional com 'Os Intocáveis'

Por Rafael Aloi - 13 jun 2016, 08h56

Um dos destaques da edição deste ano do Festival Varilux de Cinema Francês, o filme Chocolate conta a história real do primeiro artista negro a se tornar famoso da França, o palhaço Chocolat (Omar Sy). O longa segue a vida de Rafael Padilla, um ex-escravo de origem cubana que fugiu para a França no final do século XIX e tornou-se uma estrela de Paris com a ajuda de seu parceiro Tony Grice, conhecido como o palhaço Footit (James Thiérrée).

Depois do sucesso que fez, a história de Chocolat ficou esquecida por anos, até que o diretor Roschdy Zem o redescobriu e resolveu levá-lo aos cinemas. “Eu fiquei completamente surpreendido e fascinado por ele. Um dos meus produtores viu um pequeno artigo em um jornal sobre uma peça justamente sobre Chocolat. Ele me mostrou e disse: ‘Essa parece uma boa história’. Nós decidimos então escrever um roteiro. E encontrei documentos que nos surpreendiam cada vez mais”, diz o diretor ao site de VEJA.

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O filme é carregado por seus dois protagonistas, Omar Sy (Os Intocáveis) como o palhaço titular que usou o riso para lutar contra o preconceito; e James Thiérrée (Eclipse de uma Paixão), o neto de Charlie Chaplin, que traz toda a sua experiência familiar com o circo na hora de interpretar o palhaço Footit. “Ele foi o nosso segredo para todas as sequências de circo. Ele fez as coreografias e deu muito suporte”, afirma Zem.

Ao retratar o primeiro palhaço negro da França, Chocolate não poderia deixar de falar sobre preconceito. O tema surge logo no começo, quando crianças não acreditam que o artista seja negro de verdade e pensam que ele maquia o rosto. O preconceito teve um forte peso na vida pessoal e artística de Rafael Padilla. Footit (que recebe o dobro do que ganha o colega por show) busca a parceria porque acredita no ineditismo do personagem, mas percebe que os dois só farão sucesso se Chocolat for humilhado em frente à plateia rica e branca, que se diverte ao ver o palhaço levando diversos pontapés no traseiro e tapas na cara.

O sucesso de Chocolat acaba se tornando um paradoxo. Sua ascensão ao estrelato vem à custa de zombar da própria cor, o que aceita fazer por um tempo, até que uma torturante passagem pela prisão o faça ver de forma diferente como é tratado e representado diariamente. A partir daí, ele decide tomar controle da própria carreira. A cena em que finalmente desafia seu parceiro em público é certamente um dos momentos mais poderosos do filme. Omar Sy faz um bom trabalho como protagonista, canalizando o espírito de um homem preso entre seu desejo de ser rico e livre, e o reconhecimento gradual de que ele é ainda controlado e manipulado por outros.

Confira abaixo a entrevista completa com o diretor Roschdy Zem:

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Por que você decidiu contar a história de Chocolat? É uma história incrível, pronta para o cinema. É a história de um homem esquecido, ninguém se lembrava dele, apesar dele ter sido o artista mais popular da sua época. Quando eu descobri a história dele, fiquei completamente surpreendido e fascinado.

O filme deixa claro que ele foi um homem esquecido por muito tempo, então, como você o redescobriu? Um dos meus produtores viu um pequeno artigo em um jornal sobre uma peça sobre Chocolat. Ele me mostrou e disse: ‘Essa parece uma boa história’. Nós decidimos então escrever um roteiro. E aí encontrei documentos que nos surpreendiam cada vez mais. O homem branco, Footit, parceiro de Chocolate, também se mostrou uma forma ótima de mostrar como era a sociedade francesa do período, a partir da relação entre os dois.

Seu filme obviamente fala sobre o preconceito racial vivido pelo palhaço. Você acha que abordar esse assunto, mesmo que ambientado no passado, se reflete nos dias atuais? Com certeza. É interessante fazer esse paralelismo entre a situação no passado e a situação atual. Nós evoluímos muito nesse assunto, mas ainda há muito a ser discutido.

Você já tinha alguma experiência pessoal com o universo do circo e dos palhaços? Não. Nada. Mas nós tínhamos o James Thiérré, que faz o Footit, e que é neto de Charles Chaplin. A família dele é do circo. Ele foi o nosso trunfo para todas as sequências envolvendo o circo. Ele fez as coreografias e deu muito suporte. É o trabalho dele, e ele é um ótimo ator.

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Qual fato da vida de Chocolat mais te impressionou? Ele era o único homem negro na França a atingir tamanha popularidade. Isso é incrível. Para mim, ele é um herói, pois o que ele fez para os negros foi incrível, pois os desmarginalizou um pouco, mesmo sem nenhum tipo de apoio.

O fim de Chocolat é bem triste, depois de uma vida de dificuldades, marcada pelo preconceito. Mas ele era humano, não era santo. Que erros você acha que ele cometeu em vida? O maior erro dele foi viver intensamente. Ele adorava as mulheres, bebida e jogo. Seu erro foi apenas devorar e aproveitar o máximo que podia da vida. Ele acabou gastando rápido a fama. Mas isso foi porque ele sabia de onde tinha vindo, ele era um escravo, que chegou ao país da liberdade. Ele estava lutando sozinho.

Você já foi ator e virou diretor. De que modo o seu trabalho de atuação ajudou quando decidiu ir para detrás das câmeras? Na verdade, eu ainda sou um ator. Eu acredito que isso me ajudou a entender como os atores se sentem, o que eles precisam, e eu amo os atores. Eu sei como criar a relação correta com o ator para tirar dele a emoção que preciso. Há dois tipos de diretores, aqueles que gritam, e os que sussurram, eu sou este último, que era o tipo com que eu mais gostava de trabalhar.

Você já fez um filme sobre fisioculturistas, religião e agora sobre um palhaço, assuntos bem diversos. O que te encanta em levar tantas histórias diferentes para os cinemas? Na verdade, todos os meus filmes são sobre uma dupla, que inicialmente parece antagônica, mas que se complementa. Chocolate traz um palhaço negro e um branco, eles são bem separados, mas precisam trabalhar em conjunto para sobreviver. Quando falei sobre fisioculturistas, eu tinha um pai rígido e um filho viciado. Eu já trouxe uma analfabeta que conhece um cara muito culto. No meu primeiro filme, tinha uma judia e um muçulmano que se apaixonavam. Eu gosto de fazer esses opostos se misturar, e ver como eles seguem a vida juntos.

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