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Único filme africano em Cannes surpreende com drama real

Longa 'Timbuktu' supera as expectativas no primeiro dia de exibição oficial do festival de cinema francês

Por Mariane Morisawa, de Cannes - 15 Maio 2014, 17h43

Apesar da atenção recebida pelo filme Mr. Turner, do cineasta veterano Mike Leigh, exibido nesta quinta-feira no 67º Festival de Cannes, foi o longa Timbuktu, único representante da África no evento, que roubou a atenção da crítica e se tornou a surpresa bem-vinda do dia.

Coprodução da França e da Mauritânia dirigida por Abderrahmane Sissako, Timbuktu narra um caso real ocorrido na pequena cidade de Aguelhok, no país vizinho, o Mali, em 2012: um casal com dois filhos foi apedrejado até a morte pelo simples fato de não ser casado no papel. O ambiente é turbulento. O Mali entrou num conflito entre várias frentes em janeiro de 2012. Os tuaregues fizeram uma rebelião e declararam independência da parte norte do país, os militares deram um golpe de Estado, e grupos islâmicos tomaram controle de partes do território com o objetivo de implantar a sharia, um conjunto de condutas morais e leis islâmicas. Em 2013, tropas francesas interferiram e recuperaram algumas áreas.

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Em vez de fazer uma adaptação literal dos fatos, Sissako conta a história do pastor Kidane (Ibrahim Ahmed), que vive numa tenda com sua mulher Satima (Toulou Kiki) e a filha Toya (Layla Walet Mohamed). A região onde moram foi invadida por milícias, que falam árabe e não francês (a língua do colonizador) ou o idioma local. Depois de ter uma de suas vacas morta por um pescador, Kidane vai precisar enfrentar as novas leis impostas pelos grupos islâmicos.

Sissako foge do melodrama e opta pela economia, pela poesia e até pela ironia. Não há música para ajudar a entrar no clima, o que faz sentido num país em que ela foi proibida, apesar de o Mali ser um país cheio de artistas. A cada dia, garotos de rostos cobertos anunciam com megafone as novas regras, cada vez mais absurdas, por exemplo, a obrigação para as mulheres de usar meias e luvas em pleno Saara.

O relato é seco e, por isso, chocante. Em outros momentos, os jihadistas não se entendem: uns só falam árabe, outros só falam francês ou o idioma local. No fim, decidem pelo inglês, ou o idioma do inimigo. Também conversam sobre futebol. “A França é o país mais famoso que não ganha nada”, solta um. Alguém acrescenta que a França só venceu a final da Copa de 1998 porque mandou “uns três sacos de arroz para o Brasil, que é pobre”. Também é graças ao futebol que Sissako cria uma das cenas mais bonitas dos últimos tempos, em que garotos jogam num terreno baldio, mas sem bola, outro artigo proibido. Timbuktu é uma prova de que, para tocar e chamar a atenção para uma situação grave, não é preciso exibir a violência ou a injustiça de maneira explícita. Com beleza e arte, dá para ser até mais impactante – e é o que um verdadeiro cineasta sabe fazer.

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