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‘Uma amizade pode ser destruidora’, diz diretor do filme ‘Pedalando com Molière’

Dois atores com pontos de vista diferentes e o gosto comum pelo dramaturgo Molière formam o pilar do novo filme do francês Philippe Le Guay, em cartaz no Festival Varilux

A improvável amizade entre um ator aposentado e avesso ao showbiz, do tipo “cabeça”, e outro vendido ao sistema que estrela uma série ruim, mas de alta audiência, serve como base para Pedalando com Molière, longa de Philippe Le Guay em exibição no Festival Varilux de Cinema Francês, que segue até dia 16 em quarenta cidades do país. Não há previsão de quando o longa chegará ao circuito comercial.

Fabrice Luchini vive Serge, o artista desiludido que abandonou a vida badalada de Paris para viver sozinho em Île de Ré, uma ilha pacata na costa oeste da França. Personagem oposto a Gauthier (Lambert Wilson), um ator famoso que encarna todas as noites na TV um médico cirurgião com ares de Dr. House e falas de novela mexicana. O trabalho não satisfaz, mas faz dele um dos atores mais bem pagos do país.

Amigo antigo, Gauthier procura por Serge para oferecer um papel na peça O Misantropo, do dramaturgo francês Molière, que ele pretende produzir para liberar a veia artística que a TV represa. A jornada de Gauthier para convencer Serge a sair de seu esconderijo e voltar a atuar é a trama principal do novo filme de Le Guay. Repleto de diálogos entre os dois amigos, que ora se admiram ora se abominam, o roteiro mistura as falas originais do texto de Molière, escrito no século XVIII, com discursos dos personagens, comprovando a perenidade da obra.

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“Não é necessário conhecer Molière para gostar do filme. O cenário é emocional”, diz o diretor. Segundo ele, Pedalando tem muito a ver com a sua amizade com o ator principal, Luchini, com quem já trabalhou em quatro longas, entre eles a comédia As Mulheres do Sexto Andar (2010). O estilo do diretor, que tempera de drama textos de humor sutil, se mantém neste novo filme, um divertido retrato das sutilezas e dos perigos de uma amizade. “A amizade é algo que tem vida. Às vezes, pode ser perturbadora. Às vezes, é como uma história de amor. A amizade pode ser destruidora. Mas às vezes o ajuda a entender quem você é.”

Leia, abaixo, trechos da conversa de Le Guay com o site de VEJA:

Como surgiu a ideia de fazer um filme baseado em uma peça de Molière? Sou muito fã de Molière. Sempre que há alguma peça dele em cartaz em Paris, faço questão de ir. Porém, minha paixão não é nada comparada à que o ator principal do filme, Fabrice Luchini, sente. Há muitos anos conversamos sobre Molière, especialmente O Misantropo. Ele a estudou por 30 anos, sempre quis atuar na peça, até sabia de cor o texto, mas nunca teve a oportunidade.

Então foi o ator que influenciou o diretor neste caso? Em parte, sim. Ele dizia que estudar O Misantropo o ajudava a ser um ator melhor. E desse estudo ele desenvolveu uma fascinação pelo personagem Alceste, que é o misantropo. Acho que, de certa maneira, Luchini tem a tentação de ser o misantropo na vida real, de deixar o cinema, o teatro, e viver sozinho, recluso, longe da sociedade. Então, decidimos fazer um longa sobre Molière. Escrevi o roteiro e tirei inspiração para o personagem de Luchini da vida do próprio.

E como foi inserir o ator Lambert Wilson nessa relação já próxima entre vocês dois e o texto de Molière? Lambert Wilson não conhecia bem a peça. Ele conhece Molière, é intimo do teatro clássico, mas estava com um pouco de medo de se comprometer com esse texto, ainda mais ao lado de Luchini, que conhecia tão bem a peça. Ele tinha medo de não se sair bem. Mas, depois de um tempo, Wilson se sentiu mais confortável e se encaixou com facilidade nos diálogos.

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Por que a escolha da Île de Ré como cenário? Por muitas razões. A primeira é que Luchini tem uma casa lá, na vida real. Quando estávamos fazendo o nosso filme anterior, A Mulher do Sexto Andar, andávamos de bicicleta juntos pela ilha, e começamos a recitar as falas de O Misantropo, exatamente como acontece em uma cena do filme. Então, pareceu óbvio que deveríamos gravar lá. Era o equilíbrio perfeito entre o diálogo pesado do teatro e uma locação cinematográfica. O fato de ser uma ilha também ajuda na ideia da solidão do personagem aposentado.

O que acha desse diálogo entre o teatro e o cinema? Eu gosto muito de teatro, mas me expresso pelo cinema. Gosto de câmeras, de closes, não seria um bom diretor de teatro (risos). O teatro e o cinema são experiências completamente diferentes. Vários diretores vêm do teatro para o cinema. Mas o mais importante é que o longa não é sobre teatro, é sobre amizade. Não é preciso conhecer a peça para gostar do filme. O cenário é emocional.

Por isso a base principal do filme são os diálogos? Sim, muita coisa pode acontecer quando duas pessoas estão conversando. Pode ser uma relação de amor. Pode ser uma relação de ódio. Você não precisa bater em uma pessoa fisicamente para machucá-la, você pode dizer coisas terríveis e destruí-la só com palavras. A minha preocupação era o relacionamento entre esses dois homens, a amizade e a admiração que existe entre eles. Um ator admira o outro. E eles possuem a esperança de criar algo juntos. E como espectadores nós queremos que esse plano aconteça e ficamos esperando pelo resultado no fim.

Você teve alguma amizade que o traumatizou e o inspirou para o roteiro? Sim, muitas! Incluindo o próprio Luchini (risos). No primeiro filme que fizemos juntos, tivemos uma discussão ao final das filmagens. Mais tarde, nos resolvemos e somos muito próximos agora. Mas tudo pode acontecer, sempre. A amizade é algo que tem vida. Às vezes, pode ser perturbadora. Às vezes, é como uma história de amor. A amizade pode ser destruidora. Mas às vezes o ajuda a entender quem você é.