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‘Um Toque de Pecado’ retrata uma China sem filtros

Cineasta chinês Jia Zhang-Ke não esconde o lado violento e corrompido do país oriental

O nome do cineasta chinês Jia Zhang-Ke geralmente vem acompanhado de adjetivos superlativos em relação ao seu trabalho. Ele é hoje sem dúvida o principal diretor de cinema da China e, segundo muitos críticos, do mundo. Muito discreto e sem ligar em ser ou não ser essa unanimidade do cinema, ele chega ao seu sétimo longa-metragem em grande forma. Um Toque de Pecado, premiado como o melhor roteiro do último festival de Cannes, não decepciona e certamente só irá aumentar a admiração pelo realizador. É um filmaço sob todos os aspectos analisáveis possíveis: roteiro, direção, montagem, fotografia, elenco.

Zhang-Ke faz das transformações sociais e culturais advindas do pujante crescimento econômico chinês a força motriz de seus filmes. Com isso, ele filma uma China em transição. Muitas vezes essas mudanças são traumáticas. Em O Mundo (2004), um de seus questionamentos paira sobre os milhões de chineses que são proibidos pelo governo de viajar ao exterior. Em vez disso, eles têm “O Mundo”, um bizarro parque temático próximo de Pequim com “todas as maravilhas do exterior”: réplicas perfeitas, em menor escala, da torre Eiffel, da Golden Gate, da Praça de São Marcos, do Big Ben, etc. Sua obra mais famosa, Em Busca da Vida (2006), retrata a devastação de algumas cidades e o surgimento de outras por causa do imenso lago criado para movimentar a usina hidrelétrica das Três Gargantas, a maior obra de engenharia do mundo.

Em Um Toque de Pecado, por meio de quatro histórias habilmente interligadas, o filme desenha um corrosivo e poderoso painel da China nos dias de hoje, uma potência econômica sob a direção de um partido totalitário que tenta implantar um capitalismo canhestro, sem livre concorrência e controlado pelo estado. Para contar suas histórias, o diretor e roteirista mostra uma China sem os filtros do glamour de um passado imperial glorioso e sem o exotismo que o Oriente ainda desperta aos olhos ocidentais. Os problemas da China de Zhang-Ke são bem parecidos com os nossos: explosões gratuitas de violência, corrupção por parte dos dirigentes políticos, prostituição, pobreza e uma constante sensação de que algo pior sempre está por vir.

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Na primeira história, um minerador se revolta contra a corrupção e a opulência de um líder político do povoado. O dirigente local do Partido Comunista descia na cidade de avião particular, óculos escuros, e saia dirigindo um carrão alemão novinho. Num rompante de fúria, o minerador sai matando aqueles que ele considera desonestos, incluindo o político e o chefe da polícia local – que faz vista grossa aos desvios de verbas na cidade. Na história seguinte, um trabalhador retorna para casa para passar as festas de Ano Novo. Vendo sua família em péssimas condições financeiras, ele passa a fazer assaltos com uma pistola.

Na terceira parte do filme, uma bela recepcionista de uma casa de massagem/bordel se vinga do assédio de clientes, que se julgam capazes de comprar tudo com o dinheiro. Na última história, um jovem operário sem nenhuma especialização se envolve num acidente de trabalho e resolve mudar de cidade e de emprego para melhorar sua condição. Ele consegue uma oportunidade como garçom em uma casa de shows/prostíbulo e se apaixona por uma das jovens de lá.

A câmera de Zhang-Ke, treinada em muitos documentários que ele já dirigiu, é precisa e não faz nenhum movimento além do necessário. Aqui, o menos definitivamente é mais. Não há tomadas mirabolantes, uso de gruas ou ângulos inusitados, e a câmera está quase sempre filmando na altura dos olhos dos personagens. O aparelho, como no jornalismo, parece funcionar sempre carregado pelo ombro do cinegrafista. O tom quase documental do filme serve bem ao seu enredo, com histórias de desilusão e sem nenhuma necessidade de retoques estéticos. A dura realidade chinesa está ali para ser mostrada e não para ser maquiada e distorcida. É admirável como os filmes Zhang-Ke, que foi boicotado pelo governo no passado, passam pela censura chinesa, pois ele mostra os males que uma sociedade ainda muito apegada ao passado mítico se defronta ao entrar no mundo contemporâneo. A China de hoje encanta e assusta.