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Um filme iraniano como nunca se viu em Berlim

Longa 'A Dragon Arrives!', de Mani Haghighi, mistura ficção, realidade e mito para falar de verdade e mentira

O tom de Ejhdeha Vared Mishavad (A Dragon Arrives!, ou “O Dragão Chega!”, em tradução direta do inglês), dirigido por Mani Haghighi, não tem nada a ver com o de Hele Sa Hiwagang Hapis, do filipino Lav Diaz, mas, de alguma forma, os dois se relacionam. O longa-metragem iraniano, exibido na competição do 66º Festival de Berlim, também mescla realidade, ficção e mito para contar um episódio durante um período histórico importante do país, que tem reflexos até hoje.

Tudo começa em 23 de janeiro de 1965, um dia após o assassinato do primeiro-ministro Hassan Ali Mansur, durante o reinado do xá Reza Pahlavi, por membros do grupo Fada’iyan-e Islam, que em 1979 apoiaria a revolução islâmica do aiatolá Khomeini. O detetive Babak Hafizi (Amir Jadidi) havia sido recrutado para investigar o suposto suicídio de um prisioneiro político exilado na ilha de Qeshm. Ele desafiou o aviso de um morador local para não enterrar o corpo no cemitério mal-assombrado em frente ao navio que faz as vezes de prisão, sob pena de provocar um terremoto, que realmente acontece. Pior, só na área do cemitério.

De volta a Teerã, decide descobrir o que de fato aconteceu, chamando o geólogo Behnam Shokouhi (Homayoun Ghanizadeh) e o engenheiro de som Kevyan Haddad (Ehsan Goudarzi). Mais tarde, os três vão ser interrogados por Javad Charaki (Ali Bagheri), membro da temível polícia secreta do xá.

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Haghighi faz uma mistureba divertida, colocando elementos biográficos sobre seu avô, o cineasta Ebrahim Golestan, cenários absurdos, como o do navio no meio do deserto, elementos pop, por exemplo, o carro laranja dirigido por Hafizi, a paranoia provocada pela agência SAVAK, a polícia secreta do xá, o perigo dos terremotos. Tudo para discutir o que é verdade e o que é mentira, sem necessariamente chegar a uma conclusão. Ele mascara com humor temas políticos como o controle da população instituído na época do xá, que encontra reflexos ainda hoje na atuação dos governos islâmicos pós-revolução. Uma coisa é certa: quem está acostumado a ver os longas neorrealistas de outros diretores iranianos vai ficar surpreso com este aqui.