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‘Teoria de Tudo’ abre mão da física para alcançar o Oscar

Filme foca a história de amor de Stephen Hawking e Jane, sua primeira mulher, com quem foi casado por quase 30 anos e teve três filhos, e concorre a cinco estatuetas na premiação, uma delas já quase garantida, para o excelente Eddie Redmayne, o cientista do longa de James Marsh ('O Equilibrista')

Fazer um filme baseado em uma história real é meio caminho andado para amealhar indicações ao Oscar. Se for um drama sobre um gênio que sofre de uma doença grave e incurável, elas são certeza absoluta. A Teoria de Tudo, portanto, parece feito sob medida para agradar à Academia de Hollywood. O longa de James Marsh conta a história de Stephen Hawking, o brilhante físico teórico e cosmólogo inglês que aos 21 anos foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (a doença que motivou o desafio do balde de gelo) e ouviu dos médicos que teria apenas dois anos de vida. Hoje, aos 73, ele não movimenta nada além de um ou dois músculos do rosto – mas com eles, graças à tecnologia, pôde ver o filme e elogiar o estonteante Eddie Redmayne, que arrebenta na pele e no corpo contorcido de Hawking, e dispara como favorito número 1 ao Oscar de melhor ator. A estatueta é uma das cinco disputadas pelo filme, que concorre ainda a roteiro adaptado, trilha sonora, melhor longa-metragem e atriz para Felicity Jones, que faz Jane, a primeira mulher de Hawking, em cujo livro de memórias A Teoria de Tudo é baseado.

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O projeto do filme começou em 1988, quando o roteirista Anthony McCarten leu Uma Breve História do Tempo, volume de divulgação científica em que Stephen Hawking explica a sua teoria do Big Bang e dos buracos negros e que foi um best-seller, com mais de 10 milhões de cópias vendidas no mundo todo desde 1988. “Fiquei fascinado por ele, não apenas por suas ideias profundas. É um ser humano sem precedentes”, diz McCarten ao site de VEJA, em Nova York. Mas ele só fez algo a respeito em 2004, quando Jane Hawking lançou sua autobiografia. Depois de ler o livro, o roteirista comprou uma passagem de trem de Londres para Cambridge e bateu à porta ela. A princípio cautelosa, Jane foi aceitando aos poucos a ideia de fazer um filme sobre a sua vida. “Em qualquer momento, ela poderia ter dito não.”

Para McCarten, mais interessante do que as descobertas científicas de Stephen Hawking era o relacionamento entre ele e Jane, que enfrentou diversos obstáculos, mas terminou somente depois de quase 30 anos e três filhos. Em dado momento, a relação dos dois contou com um terceiro elemento, Jonathan, músico e maestro de coral que ajudou Jane nos cuidados com Stephen e terminou se casando com ela depois da separação, com o apoio do amigo Stephen. O cientista, por sua vez, encantou-se por sua enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake), com quem foi casado entre 1995 e 2006. “Queríamos a história de amor, que é incrivelmente única. Não é tanto sobre o amor pela física, mas sobre a física do amor”, diz o roteirista, que, empolgado, parece não ter medo de soar brega.

Foi esse viés que atraiu o diretor James Marsh, vencedor do Oscar de documentário por O Equilibrista: ele se interessou justamente porque o roteiro apresentava aspectos pouco conhecidos do personagem. “Minha própria percepção dele mudou. Não sabia de muitas coisas da sua vida. Por exemplo, que tinha filhos”, diz. “Ninguém sabe dos estágios por que ele passou. Muita gente não sabe que ele é inglês, porque sua voz computadorizada tem sotaque americano. As pessoas não sabiam que ele foi casado duas vezes. Há muitas surpresas fora de sua carreira como cientista.” Para Marsh, era importante mostrar que, apesar da tragédia da doença, a vida de Hawking é uma história de esperança e de sobrevivência – os médicos deram dois a três anos de vida para ele depois do diagnóstico, e o cientista convive com a esclerose lateral amiotrófica há mais de 50.

A atriz Felicity Jones, escolhida para fazer o papel de Jane Hawking, ficou admirada com a dedicação de sua personagem a Stephen. “Ela é muito determinada. Estava apaixonada e, quando se casou, assumiu votos de devoção. Ela tem um grande senso de comprometimento e uma grande capacidade de amar”, afirma a atriz.

Eddie Redmayne precisou fazer um trabalho intenso (confira a entrevista) para encarnar um personagem com perdas físicas diárias. Ainda jovem, Stephen Hawking começou a usar uma muleta, aí passou para duas, finalmente uma cadeira de rodas, depois outra motorizada. Também foi tendo cada vez mais dificuldades para comer e para falar – ele consegue se comunicar graças a um sistema que reconhece os pequenos movimentos de sua bochecha e os transforma em palavras, ditas naquela voz meio robótica e com sotaque americano que virou sua marca. “Me preparei muito porque é um grande privilégio fazer esse papel, mas também um grande peso, porque sabia que os Hawkings iam ver o filme”, diz. Seus esforços valeram a pena: Redmayne, que ganhou o Globo de Ouro de ator dramático e o SAG Awards (prêmio do sindicato dos atores), tem tudo para sair premiado do Oscar no dia 22 de fevereiro.