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“Tenho medo de me tornar um ator triste e solitário”

Protagonizando o maior papel de sua carreira aos 23 anos, em 'Jack: O Caçador de Gigantes', o britânico Nicholas Hoult fala sobre os dilemas da carreira, o stress de um set de filmagem e o estranho passatempo que escolheu para lidar com tudo isso: o tricô

Por Pedro Caiado, de Londres - 30 Mar 2013, 11h15

Aos 23 anos, o ator britânico Nicholas Hoult vive o melhor momento da carreira. Sua atuação na milionária adaptação Jack: O Caçador de Gigantes, que vem recebendo elogios da crítica, o colocou na lista dos atores de primeira linha de Hollywood. Já tem lugar garantido também no épico Mad Max 4 – acaba de voltar de um longo período de sete meses de filmagens na África, ao lado de Tom Hardy e Charlize Theron. Com 1,89 metro de altura, cabelo raspado por causa das filmagens de Mad Max, ele é informal o bastante para receber o site de VEJA trajando calça jeans, um boné e beliscando batatas fritas. Também sabe ser reservado quando o assunto é a separação da atriz Jennifer Lawrence, com quem vai filmar o próximo X-Men, e tende a relativizar um pouco do glamour da profissão. Nesta entrevista exclusiva ele fala sobre suas angústias, os trabalhos, e revela uma curiosa mania que adquiriu no set de filmagens de Mad Max: tricotar. “Eu tive até de parar um pouco, pois estava ficando o obcecado”. A seguir, os principais trechos da conversa:

Qual é a sensação de protagonizar um filme tão grande como Jack: O Caçador de Gigantes? Bem, com certeza é um salto e tanto na carreira. E claro que isso me deixou um tanto nervoso, porque havia muito dinheiro envolvido e eu não queria estragar um filme como esse. Mas eu estava lendo uma entrevista do Daniel Craig outro dia e ele disse que, ainda hoje, se sente nervoso a cada vez que vive James Bond. Então parece que esse é um sentimento comum. O fato de haver atores experientes envolvidos, como o Ewan McGregor e o Stanley Tucci, ajudou muito. Sem eles, eu teria entrado em pânico.

Você começou a carreira ao lado de um ator consagrado, Hugh Grant, em Um Grande Garoto Já se passaram onze anos desde aquela estreia [sorri] e não dá para comparar muito os momentos. Hoje eu sinto que cresci bastante, profissionalmente falando. Mas se olharmos para trás, há cinco anos, por exemplo, acho que eu não era tão diferente daquele menino de 11 anos, entende? Hoje sim, porque tive a sorte de conseguir fazer essa transição do ator mirim para o de papéis adultos.

Você sempre quis ser ator? Não, pelo contrário. Eu não tinha ambições de seguir na carreira quando fiz Um Grande Garoto.

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Você não gosta da profissão? Hoje eu gosto, mas como qualquer profissão, tem coisas boas e outras nem tanto. Cito sempre o Colin Firth, que é ótimo para pedir conselhos porque já teve altos e baixos e é muito inteligente. Ele diz que você tem que encarar o seu trabalho seriamente, claro, mas tem que reconhecer o lado ridículo dele também.

Qual é a parte ridícula de interpretar? É estranho, por exemplo, não poder fazer nada por conta própria. Enquanto você está filmando, você recebe ordens o tempo todo. Onde ficar, como se portar, o que vestir. Durante as filmagens de um longa-metragem, cada minuto de sua vida é planejado. Quando tudo aquilo termina, você se pergunta, ‘e agora, o que eu faço?’ Leva alguns dias para se ajustar.

Como você faz para relaxar nesse período? É importante tentar tirar um tempo para você entre um filme e outro, pelo menos de vez em quando. Tipo umas férias, para poder fazer as suas próprias coisas, ainda que pareça uma ideia aterrorizante, essa de não ter uma rotina. Agora, durante as filmagens é mais difícil. Nos sete meses em que estive filmando Mad Max 4, por exemplo, eu desenvolvi um hábito interessante: aprendi a tricotar.

Tricotar? Sim, foi engraçado porque o set era um ambiente bastante masculino, mas eu matava o tempo tricotando. Aprendi com um dos maquiadores e adorei. Agora eu parei, porque estava ficando um pouco obcecado, mas fiz dois cachecóis e cinco chapéus!

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Como foram as filmagens de Mad Max – Fury Road? Foram ótimas, nós filmamos na África e eu faço muitas cenas de ação, assim como em Jack. Eles só não me deixaram fazer nenhuma das cenas dirigindo, o que no fundo é bom, pois sempre que tento dirigir dá errado [risos].

O filme sofreu vários atrasos. Você chegou a duvidar se iria de fato acontecer? Em algum momento realmente pensei que não fosse adiante, porque eu fui escalado em 2009! Mas eu estou muito satisfeito em ter trabalhado com Tom Hardy e George Miller [diretor], um dos caras mais legais que já conheci. Alguém que já fez filmes tão versáteis como Happy Feet: O Pinguim, Mad Max e Babe é alguém que eu queria conhecer melhor.

Como é trabalhar com Tom Hardy? Ah, ele é um personagem. Se você o assiste atuando, percebe que, apesar de cenas idênticas, ele nunca é o mesmo. Ele é muito carismático, sempre tem ideias interessantes. Eu não sou como ele. Sou mais simples e direto. Ele também é bem mais velho e tem muito mais experiência. Mas eu espero ter apreendido algo com ele.

Você aceitaria o desafio de mudar fisicamente, como fez o Hardy? Eu acho que já fiz sutilmente. Para X-Men: Primeira Classe eu ganhei músculos, pois me achava magro demais para viver a Besta [risos]. Para Mad Max, eu perdi 4 quilos.

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Sobre as cenas de ação de Jack, que você citou: você filma as suas cenas perigosas? Eu sempre tento fazer a maioria das minhas cenas sem recorrer a dublês. Claro que há limites, mas eu treino bastante para poder atuar na maioria delas. Em Jack, por exemplo, eu aprendi a escalar e a andar a cavalo.

Você conhecia a fábula João e o Pé de Feijão, que inspirou Jack? Na verdade não, mas eu adorei o roteiro quando o li. O filme tem um bom equilíbrio entre romance e ação.

Quem são seus ídolos na profissão? Jack Nicholson, Steve McQueen, Christian Bale, Peter Sellers e a maioria dos atores que viveram James Bond. Em 15 anos, quem sabe eu possa me tornar o próximo Bond.

Você estará no próximo X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, ao lado da sua ex, Jennifer Lawrence. Não será algo estranho? De maneira alguma. Nós nos divertimos bastante fazendo aquele primeiro filme e o elenco todo se deu muito bem. Eu estou muito satisfeito também com o fato de que o Bryan (Singer, o mesmo diretor de Jack: O Caçador de Gigantes) vai dirigi-lo.

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Como é estar solteiro novamente? É bom, principalmente para se manter ocupado e concentrado.

Do que você mais tem medo? De envelhecer e me tornar um ator triste e sozinho. Esse é genuinamente o meu maior medo. E você vê bastante isso. Aquele filme da Sofia Copolla, Um Lugar Qualquer… Aquele é o tipo de vida que eu não quero ter para mim.

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