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Tempo de homens partidos

Biografia de Jorge Amado e livro de contos do estreante Geovani Martins estão entre os destaques da literatura em 2018

Por Da Redação - 21 dez 2018, 07h00

A cultura não vive à parte das crises econômicas e das disputas políticas. Nesta seleção dos melhores livros, séries, filmes e discos do conturbado ano de 2018, podem-­se encontrar espelhos criativos desse tempo que ainda é, como dizia Carlos Drummond de Andrade em 1945, de homens partidos. Em A Tirania do Amor, de Cristovão Tezza, o leitor vai reconhecer as divisões violentas da vida pública brasileira na tensa relação entre o protagonista Otavio Espinhosa e o filho que repete clichês da esquerda mais raivosa; os contos de Geovani Martins oferecem uma representação palpável das desigualdades sociais do Rio de Janeiro; em Infiltrado na Klan, o diretor negro americano Spike Lee encena mais uma vez as divisões raciais dos Estados Unidos; a série de ação inglesa Bodyguard — Segurança em Jogo especula sobre ameaças à democracia que não seriam estranhas à obra dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt; e até o dançante Não Para Não, disco da sempre animadíssima Pabllo Vittar, marca posição pelos direitos LGBT no país que elegeu um presidente conhecido por declarações homofóbicas.

A produção cultural, no entanto, ainda consegue guardar uma autonomia que a resguarda das divisões mais renhidas e mesquinhas insufladas pelos militantes de rede social. Ninguém com o mínimo de saúde espiritual vai se preocupar em saber se a voz de Freddie Mercury ou a viola de Almir Sater são de esquerda ou de direita. As próximas páginas convidam o leitor a revisitar o ano de 2018 com alma leve, aberta tanto para a diversão ligeira quanto para a grande beleza com que o ano nos premiou.


Livros

CRÔNICA NACIONAL – Tezza: um dia na vida do Brasil Karime Xavier/VEJA

1. A TIRANIA DO AMOR, de Cristovão Tezza (Todavia; 176 páginas; 49,90 reais ou 29,90 reais em versão digital)
A história transcorre em um só dia de crise na República brasileira. Um personagem secundário se pergunta se “o homem” vai cair, e o leitor compreende que é de Michel Temer que se fala. Em meio ao tumulto nacional, Otavio Espinhosa vive suas turbulências particulares: no mesmo dia em que descobriu que sua mulher o trai, a empresa de investimentos na qual trabalha é devassada por investigadores da polícia, atrás de evidências de corrupção. Gênio da matemática aprisionado em uma vida profissionalmente medíocre e afetivamente insatisfatória, Espinhosa pode ver tudo mudar nesse único dia. Cristovão Tezza, de 66 anos, um dos mais consistentes ficcionistas brasileiros da atualidade, mostra a extensão de seu talento narrativo nessa história que captura os impasses e contradições do Brasil contemporâneo.

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2. JORGE AMADO – UMA BIOGRAFIA, de Joselia Aguiar (Todavia; 640 páginas; 79,90 reais ou 39,90 reais em versão digital)
Mais popular dos autores do chamado Romance de 30, o baiano Jorge Amado (1912-2001) ganha uma biografia à altura de sua criatividade literária e de sua personalidade marcante. A jornalista e historiadora Joselia Aguiar examinou as múltiplas dimensões de seu biografado: o profissional da escrita, o divulgador da cultura brasileira nos meios intelectuais da Europa, o militante comunista que por muitos anos foi cego em sua fidelidade partidária. Além de iluminar o contexto histórico em que se desenvolveu a carreira de Jorge Amado, Joselia demonstra sensibilidade literária na leitura cuidadosa da vasta obra do autor de Terras do Sem-Fim e Gabriela Cravo e Canela.

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3. COMO AS DEMOCRACIAS MORREM, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (tradução de Renato Aguiar; Zahar; 272 páginas; 59,90 reais ou 39,90 reais em versão digital)
Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, da Universidade Harvard, acreditam que os ditadores não precisam mais de golpes de Estado ou do apoio de tropas e tanques para tomar o poder: podem chegar lá pela via pacífica e legal das eleições, como aconteceu com Hugo Chávez e seu sucessor Nicolás Maduro, na Venezuela. O alvo maior da crítica, porém, não são os bolivarianos, mas Donald Trump, o populista da Casa Branca. Há, no argumento, uma defesa implícita do poder das elites políticas que pode suscitar controvérsia. Mas os dois autores lançam um eloquente alerta sobre o enfraquecimento, em vários países, dos alicerces institucionais que mantêm o edifício democrático em pé.

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NOVA VOZ – Geovani Martins: uma vigorosa estreia literária Marcos Michael/VEJA

4. O SOL NA CABEÇA, de Geovani Martins (Companhia das Letras; 120 páginas; 34,90 reais ou 23,90 reais em versão digital)
Geovani Martins cresceu em favelas cariocas — continua morando no Vidigal — e parou de estudar na 8ª série. Em um tempo no qual a busca por autores que “representem” a diversidade social se tornou quase um fetiche, esses dados biográficos são um atrativo poderoso. Mas O Sol na Cabeça, coletânea de contos com que esse carioca de 27 anos estreou como escritor, sustenta-se por seus méritos literários. Martins prova que tem um notável domínio do ofício, sobretudo pela sua vigorosa variedade de registros narrativos — da sensacional reprodução da fala coloquial dos morros em Rolézim ao delicado retrato das tensões religiosas em O Mistério da Vila.

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5. UMA HISTÓRIA CULTURAL DA RÚSSIA, de Orlando Figes (tradução de Maria Beatriz de Medina; Record; 882 páginas; 117,90 reais ou 69,90 reais na versão digital)
Na boa safra de livros sobre a Rússia que acompanharam a Copa do Mundo neste ano que se encerra, este é talvez o mais portentoso. O historiador inglês Orlando Figes, da Universidade de Londres, pinta, com pincel de muralista, a conflituosa e sempre radiante paisagem cultural da Rússia do início do século XVIII, quando reinava o czar Pedro, o Grande, aos anos 1970, sob a ditadura soviética. Desfilam pela obra gigantes da literatura como Tolstoi e Dostoievski, gênios da música como Shostakovitch e Stravinski, mestres do cinema como Eisenstein e Tarkovski, entre outros tantos russos que contribuíram para engrandecer a imaginação universal.

 

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As melhores séries e filmes de 2018

Os melhores discos de 2018

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614

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