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Stephen King, o profissional do susto

Um dos mais prolíficos escritores de best-sellers, o americano Stephen King lança 'Revival', romance gótico pop sobre um roqueiro amaldiçoado por um estranho amigo de infância

Sutileza é para os fracos - Stephen King: descrições detalhadas de mutilações e assombrações. E, de quebra,
certa nostalgia da infância Sutileza é para os fracos – Stephen King: descrições detalhadas de mutilações e assombrações. E, de quebra,
certa nostalgia da infância

Sutileza é para os fracos – Stephen King: descrições detalhadas de mutilações e assombrações. E, de quebra,
certa nostalgia da infância (/)

Stephen King não é um escritor sutil. Para explicar como Charles Jacobs, convencional pastor metodista de uma pequena localidade no Estado americano do Maine, se converte em um ensandecido vendedor de milagres com um pé nas ciências ocultas, o autor não se contenta em fazer com que a mulher e o filho pequeno de Jacobs morram em um acidente de carro. É preciso que o carro colida com uma colheitadeira em uma estrada rural, e que a mulher desfigurada – um pedaço de couro cabeludo arrancado e um olho caído sobre a bochecha – saia do veículo, trôpega e desesperada, carregando o cadáver ensanguentado do filho no braço (braço, no singular: o outro membro foi arrancado na altura do cotovelo). Não será para o estômago de leitores delicados, mas assombrará inúmeros outros que ainda encontrarão novas cenas de sangue e horror nas mais de 300 páginas que se seguem à cena do acidente em Revival (tradução de Michel Teixeira; Suma de Letras; 376 páginas; 49,90 reais ou 29,90 reais na versão eletrônica), a mais recente obra do autor americano. Pois Stephen King é também um escritor eficiente. Talvez não haja profissional do best-seller que se compare ao autor de A Coisa e A Zona Morta em sucesso e produtividade. Aos 68 anos, King publicou mais de cinquenta romances, quase todos nos gêneros do terror e da fantasia. E é um dos autores mais adaptados para o cinema (e também para a televisão, como atesta a atual série O Domo, baseada em um calhamaço seu). “Sou um escritor visual, e isso atrai cineastas”, disse King em entrevista a VEJA.

Em Sobre a Escrita, livro de memórias também publicado no Brasil pela Suma de Letras, King recorda os filmes de horror de Roger Corman como fundamentais para cultivar o gosto pelo fantástico. Em contrapartida, os exageros e extravagâncias de seus livros ganharam versões memoráveis nas mãos de cineastas como Brian De Palma, diretor de Carrie, a Estranha (1976), ou Frank Darabont, que foi buscar em um conto do autor o argumento para o dramalhão prisional Um Sonho de Liberdade (1994). O próprio King não gosta daquela que é a adaptação de uma obra mais cultuada por cinéfilos: O Iluminado (1980), de Stanley Ku­brick.

Revival traz, na dedicatória, uma lista de escritores que King admira (Edgar Allan Poe, o favorito de Roger Corman, estranhamente ficou de fora). Os temas do romance reiteram o tributo: a tétrica visão do mundo onde habitam os mortos que aparece no fim da história é inspirada na obra do americano H.P. Lovecraft (1890-1937), e as experiências de Jacobs com eletricidade evocam Frankenstein, o clássico da inglesa Mary Shelley (1797-1851). Mas a matriz pop é maior que a literatura: no início do livro, Jamie Morton, protagonista e narrador da história, compara sua vida a um filme, e a comparação reaparece ao longo da narrativa. Morton era criança quando conheceu Jacobs, em 1962. Nasce uma genuína amizade entre o menino e o então compassivo e carismático pastor. Mas o traumático acidente que ceifa a família de Jacobs muda tudo: retornando do período de luto, o pastor faz, diante de sua pequena congregação, um sermão escandaloso, no qual rejeita Deus e a fé.

Até esse ponto, apesar de todo sangue e drama, o livro conserva uma nostalgia singela. Quando Jacobs retorna à cena, a história torna-se pesada e escura. Adulto, Morton seguiu a carreira musical, como guitarrista de várias bandas errantes e efêmeras do rock dos anos 70 (aqui, King contou com sua experiência como guitarrista diletante da Rock Bottom Remainders, banda que congrega outros escritores, como Scott Turow). A heroína, porém, arruinou essa carreira medíocre mas consistente. Jacobs reaparece então para curar o vício de Morton, com um tratamento baseado em uma forma “secreta” de eletricidade. A contraindicação: visões do inferno. O antigo pastor vai se transformar então em um evangelista de eventos de massa. Seu objetivo maior, porém, não é oferecer cura para paraplégicos ou doentes de câncer terminal. Jamie Morton acabará sabendo de toda a verdade no clímax da história – que, mais uma vez, vem carregado de nada sutis tintas vermelhas.

No prefácio de Sobre a Escrita, King, equilibrando-se entre o ressentimento e a ironia, diz pertencer à categoria de autores “proletários” para os quais ninguém jamais faz as perguntas sobre linguagem que costumam ser dirigidas a um John Updike ou a um Don DeLillo. De fato, seu lugar na hierarquia das letras é outro. King distrai, King diverte, e faz isso melhor do que fenômenos de vendas mais recentes, como Dan Brown, com seus thrillers coalhados de informações históricas duvidosas, ou Stephenie Meyer, com seus vampirinhos pálidos. Linguagem – ora, o que importa a linguagem aqui? O bom de livros como Revival é que já estão prontos para virar filme.

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“Sempre quis ser roqueiro”

Autor de mais de cinquenta romances e um dos escritores mais adaptados para cinema e televisão, o americano Stephen King, 68 anos, falou a VEJA, por e-mail, sobre sua relação com a música, sobre a paisagem preferida de sua ficção – o Estado do Maine – e, mais importante, sobre sua visão do inferno.

Como o senhor compôs a terrível visão do mundo depois da morte que aparece no fim de seu mais recente romance, Revival? Queria que o fim do livro fosse infernal, mas também queria homenagear H.P. Lovecraft, e para isso não podia usar a imagem cristã do inferno, com fogo e enxofre. Sabia que precisava de algo terrível, mas não tive nenhuma ideia específica até o dia em que cheguei àquele ponto da redação. As formigas que aparecem naquela cena foram uma surpresa até para mim. Quando revisei o livro, acrescentei algumas formigas em outros pontos da história, para antecipar o final. E, como o narrador suspeita, aquela visão pode ter sido uma mentira perversa.

Revival traz descrições muito ácidas do mundo dos pregadores, dos vendedores de milagres e dos tele-evangelistas. O senhor se preocupa com esse tema? Acredito que o fundamentalismo americano, que se transformou em “tele-evangelismo” com os pregadores Oral Roberts e Jimmy Swaggart, trocou a espiritualidade por superstição. Eu me preocupo com essa tendência em todo o mundo. O Estado Islâmico é outra forma de fundamentalismo religioso.

O protagonista, Jamie Morton, é um guitarrista de rock, e o senhor mesmo toca guitarra. Tinha o desejo de ser roqueiro? Meu Deus, sim, sempre quis ser roqueiro! Queria ter o talento para tocar como Duane Allman ou Angus Young, mas não tinha chance de chegar lá. Jamie, pelo menos, toca melhor do que eu, e adorei a ideia de um personagem que trabalha como músico pago, pois esse é um emprego de verdade. De quebra, isso me deu a oportunidade de escrever sobre a arte da guitarra e sobre a gravação de música, temas que eu conheço um pouquinho. E, claro, já toquei ao vivo.

As cenas cruciais de Revival, como em muitos livros anteriores, se passam na Nova Inglaterra, mais especificamente, no Estado do Maine. O senhor acredita que há algo de especificamente “gótico” nessa região dos Estados Unidos? Sinto que histórias góticas podem acontecer em qualquer lugar, do Ártico ao Rio de Janeiro. O Maine é apenas um lugar que conheço, e me sinto confortável escrevendo sobre ele. Realmente gostei da chance que Revival me deu de escrever sobre meu lar. A seção que abre o livro é bastante autobiográfica.

O senhor é um dos autores que mais têm adaptações para o cinema. Quando está escrevendo, já imagina como cada cena vai ficar na tela? Nunca penso em filmes quando escrevo, mas sou, sim, um escritor muito visual, e isso atrai os cineastas. Você tem de lembrar que faço parte da primeira geração que tomou contato com histórias em filme, antes de aprender a ler. Os filmes têm sua própria linguagem, e é uma linguagem que falo muito bem, pois eu a aprendi, por assim dizer, no colo da minha mãe, que me levava ao cinema toda semana.

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