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“Star Wars me faz popular”, diz o brasileiro que pôs sua arte na saga

Kris Costa, o escultor digital de criaturas dos filmes, deu uma entrevista a VEJA

Por Monica Weinberg, de São Francisco - Atualizado em 20 dez 2019, 15h59 - Publicado em 20 dez 2019, 15h17

Muito provavelmente quem for ao cinema assistir a Star Wars: A Ascensão  Skywalker, o ponto final da terceira trilogia da saga, não vai reparar em Orbak, uma espécie equina em que cavalgam a protagonista Rey (Daisy Ridley) e companhia. Mas uma pessoa neste planeta terá os olhos grudados na criatura: seu próprio criador, o brasileiro Kris Costa, 48 anos. Como escultor digital, cabe a ele, à base de computação gráfica, dar dimensão, músculos e expressões a personagens que lhe chegam desenhados na terra plana do papel. Há doze anos na Lucas Filme, vendida a Disney pelo pai do épico espacial George Lucas, o ex-bancário gaúcho confirma a impressão que todo mundo tem: sim, ele trabalha se divertindo adoidado. A seguir, a entrevista que concedeu a VEJA em São Francisco.            

Dá ansiedade ver suas criações na tela? Muita. Passo o tempo todo pensando: “Poderia ter feito um pouco diferente, ter mexido nesse ou naquele detalhe”. É bem raro ficar satisfeito com o trabalho.

Como foi o processo de produzir Orbak, espécie de cavalo de A Ascensão Skywalker? Quem vê o filme não tem ideia de quantas etapas estão envolvidas na criação de um único personagem, mesmo sendo ele tão coadjuvante. Às vezes o desenho é bonito, mas não funciona na forma tridimensional. Em três meses, precisei produzir uns trinta Orbaks para compor as cenas, cada qual com uma textura ligeiramente diferente da outra. Quando as criaturas ganham movimento, voltam a mim, para adaptar um músculo aqui, outro ali. Tudo isso para que, no final, a figura não fique grotesca, mas real.      

Passou pelo crivo do diretor J.J. Abrams? Ele observa todos os detalhes. Em O Despertar da Força, o filme VII, esculpi um Rathtar (espécie de polvo diabólico) realista, bacana no design, mas J.J. pediu: “Melhor ser mais simples, rústico, como se fosse uma bola de borracha com dentes.”

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Entendeu por que ele quis o ajuste? O objetivo era agradar os fãs de Star Wars, que têm apego pelos efeitos antigos, mesmo toscos. Eles querem mais máscaras, mais simplicidade. Impera um romantismo. Já trabalhei em inúmeras produções e posso dizer que nenhum desafio se compara a Star Wars.  

Por quê? Se o fã acha que alguma vírgula escapa à lógica daquele universo, fica machucado e leva até no pessoal. Há um forte componente emocional na relação do público com os filmes. Star Wars mexe no âmago das pessoas, como a religião e a política.

Qual é a importância de Star Wars  para a indústria de efeitos visuais? Quando surgiu, em 1977, simplesmente não existia um mercado de efeitos visuais para o cinema. Câmeras foram criadas especialmente para suprir necessidades do roteiro de George Lucas e depois seriam usadas por todo mundo na indústria. Foi uma revolução. Hoje os passos nessa área são mais gradativos.

Qual é a próxima fronteira a ser explorada? O atual cálice sagrado dos efeitos especiais são os humanos digitais. Hoje o computador é capaz de recriar expressões bastante verossímeis, mas estamos em um terreno delicado, com muito ainda a se evoluir: basta uma mínima derrapada para o leigo perceber que aquilo é fake. No caso da princesa Leia, reavivada a partir de imagens anteriores feitas de Carrie Fisher (morta em 2016), acho que funcionou muito bem.    

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Como um ex-bancário chegou na Lucas Filme? Sou formado em Belas Artes e, quando trabalhava no Banco do Brasil, comecei a me meter na criação da identidade visual. Participei de dois concursos internacionais de ampla projeção, venci e acabei conseguindo abrir meu caminho até aqui.

Já era fã de Star Wars? Era, e isso torna o trabalho ainda mais especial. Quando vou a um evento social e digo que já criei personagens para Star Wars, faço o maior sucesso. O povo fica louco.

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