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Sônia Braga dá beleza à realidade crua de ‘Aquarius’

Para além das controvérsias, filme nacional usa política e espaços urbanos para falar de memória e família

Por Raquel Carneiro - Atualizado em 1 set 2016, 16h24 - Publicado em 1 set 2016, 14h51

Desde o seu lançamento no Festival de Cannes deste ano, onde concorreu à Palma de Ouro, o filme Aquarius tem feito barulho, dividindo opiniões, mas também mantendo-se em evidência. As controvérsias, que começaram no tapete vermelho, onde a equipe protestou contra o impeachment de Dilma Rousseff, e devem se estender até a indicação pelo Ministério da Cultura do longa que irá tentar uma vaga no Oscar 2017, na categoria filme estrangeiro, aumentaram a curiosidade em torno da produção de Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor), que entra em cartaz nesta quinta-feira.

Para além do falatório político, Aquarius é um bom filme, com qualidades e defeitos que fazem dele não uma obra-prima do cinema nacional, mas um título marcante, que será lembrado por sua boa participação em festivais e também pela polêmica prévia ao lançamento. Uma pena. Aquarius deveria ser memorável por sua boa técnica de filmagem e por dar novamente à Sônia Braga o lugar que lhe pertence: o centro dos holofotes.

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Com ritmo lento e quase 2h30 de duração, o filme usa espaços urbanos e opiniões contrárias para falar sobre memória e família. Dividida em três capítulos, a trama começa com foco no cabelo de Clara, personagem de Sônia — e de Barbara Colen na juventude. Os fios da protagonista começam curtos, à la Elis Regina, quando Clara se recupera de um câncer de mama, em 1980. Em um salto no tempo, o longa mostra a mulher sexagenária com longos fios negros.

As primeiras cenas do longa se dedicam a apresentar a família da moça e também os contornos do seu apartamento no edifício Aquarius, localizado na avenida Boa Viagem, em Recife. Tanto quanto Clara, esse apartamento é um protagonista, que exala personalidade e aconchego — na contramão do restante do prédio, onde os demais apartamentos estão sujos e vazios. As residências foram vendidas para a construtora Bonfim, que planeja derrubar o edifício e construir ali um prédio de nome internacional e sem metade da personalidade da arquitetura original, que data dos anos 1950.

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No mundo real, o prédio existe, exatamente na famosa avenida pernambucana, e é uma celebridade local, não só pelo filme, mas por ser também alvo de uma discussão parecida. Um de seus vizinhos de construção clássica, feito na década de 1930, o edifício Caiçara, foi demolido em abril deste ano. O processo se arrastava desde 2011, em um embate entre construtora versus arquitetos e historiadores, que pediam pelo seu tombamento. O esforço foi em vão. Oceania, nome original do prédio onde Aquarius foi filmado, ainda pode ter o mesmo destino.

O tema da especulação imobiliária, aliás, anda em ebulição no Recife. Vale lembrar o recente movimento Ocupe Estelita, outro embate entre poderosas construtoras e a população da cidade, iniciado quando o cais José Estelita foi leiloado, de forma duvidável, para a construção de um megacondomínio. Parte do Forte das Cinco Pontas, cartão-postal da cidade, o cais sobreviveu no último minuto, quando a Justiça Federal anulou o leilão do terreno, em novembro de 2015.

A discussão urbanística é longa e com argumentos de ambos os lados. Assim como o filme de Kleber. Aquarius é palco de uma realidade crua. As cenas exibem um excesso de cotidiano, com brigas familiares, pontas soltas, tórridas relações sexuais e personagens variados — muitos até sem propósitos. O fio que conduz o roteiro é Clara, personificada por uma inspirada e forte Sônia Braga. Sua beleza (física e emocional) leva o espectador até o fim em uma jornada de contrastes, que ainda pede para ser digerida horas depois da saída do cinema.

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