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‘Somos a zebra do Oscar, mas temos chance’, diz diretor de ‘O Menino e o Mundo’

O cineasta Alê Abreu fala sobre a indicação ao prêmio da Academia de Hollywood e garante que vai lutar para conquistá-lo. ‘Na minha cabeça, não há outro filme a ganhar’, diz

Na manhã da quinta-feira, dia 14 de janeiro, quando foi divulgada a lista de indicados ao Oscar 2016, Alê Abreu, diretor de O Menino e o Mundo, estava isolado, pintando as paredes de seu novo estúdio na Serra da Mantiqueira. “Não tenho celular, dizem que sou um ermitão”, conta ao site de VEJA. Demorou então para que ele soubesse que estava entre os concorrentes ao Oscar de melhor animação. Porém, a nomeação não foi uma total surpresa.

Abreu e a distribuidora americana GKids estavam envolvidos em uma campanha para chamar a atenção da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. O cineasta participou de sessões especiais do filme em cidades americanas e conquistou boas críticas – o jornal The New York Times disse que O Menino e o Mundo era a melhor animação do ano, ao lado de Divertida Mente, da gigante Pixar.

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A indicação, aliás, é mais do que merecida. Feito de forma independente, com um modesto orçamento de 1,5 milhão de reais (estima-se que Divertida Mente, por exemplo, tenha custado cerca de 170 milhões de dólares), o longa passa longe de ser simples. Com poucas falas e visto sob a ótica de uma criança, a animação mistura traços de lápis de cor, giz de cera com colagens e recortes, embalada por uma poderosa trilha sonora. No plano de fundo, temas como desemprego e desigualdade social são abordados com sensibilidade. Aos que perderam o filme na época da estreia, terão uma nova chance de conhecer a aventura: o longa retorna aos cinemas brasileiros a partir da semana que vem.

Apesar de saber que esta é uma “luta de Davi contra Golias”, já que Divertida Mente é o favorito da categoria, e que o filme brasileiro é a zebra, o cineasta de 44 anos se mantém confiante. “Já era muito difícil uma indicação. Já é uma vitória ter sido selecionado. Agora, tenho que acreditar que ele vai ganhar”, diz.

Alê Abreu, diretor do filme 'O Menino e o Mundo' Alê Abreu, diretor do filme ‘O Menino e o Mundo’

Alê Abreu, diretor do filme ‘O Menino e o Mundo’ (/)

A indicação de O Menino e o Mundo te surpreendeu? Eu achava que o filme não tinha chances de ser indicado, mas agora eu acredito que ele tem boas chances de ganhar. Porém, tenho os pés no chão. Estamos competindo com filmes que são pesos pesados do cinema americano, animações de orçamentos gigantescos. Já era muito difícil uma indicação. Já é uma vitória ter sido selecionado. Agora, tenho que acreditar que ele vai ganhar. Somos a zebra, mas temos chance.

Qual será a estratégia de divulgação do filme a partir de agora? O filme primeiro precisa ser visto nos Estados Unidos, pelos membros da Academia. Recebi hoje uma agenda de tarefas do meu distribuidor americano que começa a partir do dia 6 de fevereiro, com a cerimônia do Annie Awards, que é o principal prêmio da indústria da animação. Nosso filme está concorrendo como melhor longa-metragem independente, trilha sonora e direção de arte. Um desses prêmios a gente deve levar. Depois, vamos nos envolver em debates e apresentações do filme em salas americanas. Vou me entregar a isso, me dedicar exclusivamente a esse momento tão precioso.

Qual a diferença de O Menino e o Mundo dos demais indicados? A seleção deste ano está especial. Ao contrário dos outros anos, que tinha uma padronização de muitos filmes em 3D, com aquela cara plástica, este ano temos um 2D do Japão Quando Estou Com Marnie; o Anomalisa, que é stop motion, mas com uma cara bem diferente; tem o Shaun, o Carneiro, que tem aquela cara de filme inglês; e o Divertida Mente, da Pixar, que já podemos chamar de tradicional. O Menino e o Mundo é a ovelha negra entre os indicados, que mistura um monte de técnica e se baseia na simplicidade do olhar de um menino.


Antes do Oscar, o filme já ganhou prêmios importantes dentro e fora do Brasil. O que faz de O Menino e o Mundo uma animação que merece ser indicada em premiações tão variadas? O filme tem um tom muito universal. Quase não tem diálogo, ele fala com a imagem. Tem uma personalidade. Ele conquistou sozinho tudo isso, pois não tivemos um grande investimento de divulgação. Já para o Oscar, estive em Los Angeles, Nova York, em lançamentos especiais do filme. Isso deu um impulso. As críticas foram positivas e poderosas. O New York Time nos chamou de “inside in”, uma piada com o nome original de Divertida Mente (Inside Out) e disse que éramos o melhor filme do ano junto com o longa da Pixar. As boas críticas lá fora com certeza nos ajudaram a conquistar a indicação ao Oscar.

Como nasceu a ideia do filme e a escolha das técnicas? Eu estava em outro projeto quando encontrei o desenho desse menino que eu tinha feito no meu caderno. Senti que ele me chamava para conhecer melhor sua história. Abandonei o outro projeto, pois senti uma urgência nesse chamado. As técnicas vieram em função da decisão de que a história seria contada a partir do ponto de vista de uma criança. O menino é o diretor do filme. Então, optamos por uma liberdade total no graficamente falando. Foi uma composição única. Caneta por cima de tintura, colagem. Tudo em busca de remeter à liberdade que as crianças têm quando elas desenham.

Se o filme não ganhar, qual sua aposta para outro vencedor? Não gostaria que ninguém ganhasse (risos). É sério! Agora eu vesti a camisa. Eu estou 100% decidido a trabalhar por isso. Na minha cabeça, não há outro filme a ganhar, nós vamos vencer. É uma luta de Davi contra Golias, eu sei, mas nossa fraqueza pode ser uma força.

Como essa indicação pode mudar sua vida? Espera receber propostas do mercado americano? Isso é possível. Porém, se uma porta se abrir que seja para levar meus projetos para outra produtora. Não quero ir para outra produtora fazer o projeto deles. Não é o que eu desejo para minha vida profissional. Fiz o filme completamente livre, sem pressões do mercado, e espero que minha carreira continue com essa liberdade.

Qual a melhor parte de ter um filme indicado ao Oscar? Um dos retornos mais legais desse holofote é o filme ser visto no próprio país. Sempre sonhei com um retorno de público para essa produção. Tivemos apenas 35.000 espectadores na época do lançamento. Agora, O Menino e o Mundo voltará aos cinemas brasileiros a partir da semana que vem. Isso é ótimo, pois é um filme que foi feito para ser visto no cinema. É muito visual. Tem uma trilha sonora poderosa. O lugar dele é no cinema com muitas pessoas na sala.

Quais são seus próximos projetos? Estou trabalhando na animação Imortais, com o Luiz Bolognesi. O Luiz foi um dos responsáveis por trazer os holofotes do mundo para a animação brasileira ao ganhar o Annecy com Uma História de Amor e Fúria, em 2014. Também estou fazendo meu próximo filme, Viajantes do Bosque Encantado. A história acompanha duas crianças-bicho perdidas em uma floresta onde coisas estranhas acontecem. Elas estão cercadas por seres perigosos gigantes e alienígenas. Elas estão em meio a uma guerra. E, naquele espaço, o desafio dos personagens é perceber a importância da amizade. Lembra um pouco a relação entre judeus e palestinos. O filme deve ficar pronto em três anos, mais ou menos.

Arte do filme 'Viajantes do Bosque Encantado', nova produção de Alê Abreu Arte do filme ‘Viajantes do Bosque Encantado’, nova produção de Alê Abreu

Arte do filme ‘Viajantes do Bosque Encantado’, nova produção de Alê Abreu (/)

‘A Grande Aposta’

O filme narra a história de alguns empresários americanos que preveem a crise econômica de 2008 anos antes de ela eclodir nos Estados Unidos. Eles são vistos como malucos, já que apostam na falência do mercado imobiliário, que até então era a fonte de segurança da economia do país. O longa conta com um elenco de peso, incluindo Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Seus personagens descobrem essa fonte de lucro por diferentes caminhos, e a história de cada um influencia a dos demais. Dirigido por Adam McKay (Tudo Por um Furo), o longa tem um enredo divertido e lança mão de técnicas não convencionais para deixar o assunto mais palatável para leigos em economia. Quando, por exemplo, o diretor usa cenas com celebridades que nada tem a ver com a história, como Selena Gomez, e que surgem para esclarecer algum tópico. A ótica pouco usual sobre o período transforma um dos momentos mais tensos da história recente americana em comédia e lembra que não há nada como superar um trauma com risadas. 

Estreia no Brasil em 14 de janeiro de 2016

‘Ponte dos Espiões’

O filme marca a volta da dupla formada pelo diretor Steven Spielberg e um de seus atores preferidos, Tom Hanks. Ele interpreta James B. Donovan, um corretíssimo advogado de Nova York designado para um caso que ninguém gostaria de pegar: o de Rudolf Abel (Mark Rylance), um espião russo preso na Nova York de 1957, em plena Guerra Fria. As autoridades querem apenas fazer um teatro para mostrar ao mundo como os Estados Unidos são justos, mas Donovan não se adequa à fachada e faz de tudo para aliviar a punição de Abel e livrá-lo da pena de morte. Em paralelo, o roteiro dos irmãos Coen mostra jovens pilotos recrutados para espionar áreas da União Soviética (URSS). Um deles, Francis G. Powers, tem o avião abatido em missão e pousa de paraquedas na Rússia, onde é feito prisioneiro. O personagem de Tom Hanks, então, é chamado pela CIA para negociar a troca do prisioneiro russo pelo americano, mas sem deixar de se importar com Abel, com quem desenvolve uma amizade em tom de fábula.

Estreou no Brasil em 22 de outubro de 2015

‘Brooklyn’

Baseado no best-seller Brooklyn, de Colm Tóibín, o filme se passa no início da década de 1950 em dois locais: o bairro homônimo de Nova York e em uma pequena cidade da Irlanda. A história é focada em Eilis Lacey (Saoirse Ronan), que imigra da Irlanda aos Estados Unidos em busca de um lugar que lhe ofereça mais oportunidades, deixando para trás a mãe e a irmã. Em meio aos problemas enfrentados no novo país, especialmente a solidão e a saudade de casa, ela conhece e se envolve com o italiano Tony Fiorello (Emory Cohen). Juntos, eles passam a vislumbrar uma vida em família no futuro, mas são interrompidos quando Eilis é convocada para retornar à sua cidade natal. A personagem se vê dividida entre o conforto do lar, onde se depara com um novo pretendente, e o namorado italiano que a deixou em Nova York – um convite irresistível para que a plateia se junte à protagonista em seus questionamentos. 

Sem data de estreia no Brasil

‘Mad Max: Estrada da Fúria’

O quarto filme da franquia pós-apocalíptica marca a volta do diretor George Miller à sérier iniciada em 1979 que teve Mel Gibson como protagonista. A nova produção reforça o mundo caótico de poeira, sangue e loucura de Miller, mas agora se valendo de uma presença feminina mais forte, com a personagem Imperatriz Furiosa, vivida por Charlize Theron. Gibson é substituído por Tom Hardy no papel de Max Rockatansky, um homem desequilibrado, movido pelo instinto de sobrevivência em um mundo onde se disputam água e petróleo. Na primeira sequência, ele é perseguido e capturado por uma gangue das estradas, que o leva para a Cidadela, dominada por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, também o vilão no primeiro Mad Max). O filme tem cenas viscerais, mas tão bem filmadas que nem a pior das mortes leva alguém a querer fechar os olhos. A bela fotografia de John Seale, que também recebeu indicação ao Oscar 2016, distancia o filme de um mero longa de ação com excesso de poeira. 

Estreou no Brasil em 14 de maio de 2015

‘Perdido em Marte’

O filme, que marca a volta do diretor Ridley Scott (Prometheus) ao espaço, foi um dos destaques do Globo de Ouro de 2016 – venceu na categoria de melhor filme de comédia e de melhor ator pelo trabalho do protagonista Matt Damon. O longa narra a trajetória de Mark Watney, membro de uma missão em Marte que é dado como morto durante uma tempestade que força a evacuação da tripulação comandada por Melissa Lewis (Jessica Chastain). Quando se descobre sozinho, o astronauta passa a explorar ao máximo os conhecimentos científicos para sobreviver, já que a próxima missão está prevista para dali a quatro anos. Watney, além da racionalidade, tem outra arma poderosa: o humor. Enquanto isso, a Nasa descobre por meio de fotografias que ele sobreviveu e começa a tentar arrumar um jeito de salvá-lo. Trata-se de um longa humanista, em que pessoas de diferentes cores, credos e culturas se juntam para salvar apenas um homem. 

Estreou no Brasil em 1º de outubro de 2015

‘O Regresso’

O filme lidera o número de indicações ao Oscar neste ano: são doze categorias, incluindo as de melhor filme e ator, com grandes chances de Leonardo DiCaprio, enfim, levar a estatueta. Dirigido pelo mexicano Alejandro Iñarritú (Birdman), o longa é baseado no livro de Michael Punke sobre Hugh Glass, um guia do norte dos Estados Unidos que é atacado por índios quando leva um grupo de mercadores de pele a uma região dominada por nativos. Glass, interpretado por DiCaprio, passa por numerosos testes de sobrevivência e violentas situações, incluindo o ataque de uma ursa e o assassinato de seu filho. Ao buscar o responsável pelo crime, ele segue sua dolorosa e silenciosa jornada, enfrentando nevascas, falta de alimentos e ferimentos.

Estreia no brasil em 21 de janeiro de 2016

‘O Quarto de Jack’

A adaptação do livro Room, de Emma Donoghue, tem como um de seus maiores trunfos a atuação de Brie Larson (Anjos da Lei), indicada a melhor atriz no Oscar deste ano e vencedora do Globo de Ouro na mesma categoria. No longa, ela interpreta Ma, uma jovem mulher que foi sequestrada por um homem psicótico que comete abusos diários contra ela. A protagonista e seu filho, Jack, de 5 anos, são forçados a viver dentro de um quarto. Aquele espaço minúsculo, que ainda tem banheiro e fogão, é o que Jack conhece como o mundo, e as cenas mostram o esforço da protagonista de esconder a verdade da criança. Quando a situação se torna insustentável, Ma bola um plano para fugir com Jack, proporcionando ao espectador observar a trajetória dessa criança na descoberta de um novo mundo, onde tudo – de janelas a carros – se transformam em informações devastadoras. 

Estreia em 18 de fevereiro de 2016 no Brasil

‘Spotlight – Segredos Revelados’

Desde a sua estreia, o longa foi considerado um dos favoritos para o Oscar de melhor filme. Dirigido por Tom McCarthy, Spotlight narra o processo de apuração do jornal americano Boston Globe em torno das acusações ao padre John Geoghan, que teria molestado mais de 80 meninos enquanto estava à frente de uma paróquia, entre os anos 1970 e 80. A equipe que assume a investigação é formada pelo editor Walter ‘Robby’ Robinson (Michael Keaton) e pelos repórteres Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian D’Arcy James). O trabalho leva meses, tomando proporções inimagináveis, e o resultado é uma reportagem vencedora do cobiçado prêmio Pulitzer de jornalismo. Ao contrário de outros filmes sobre investigações jornalísticas, a produção evita colocar a profissão como heróica e ainda culpa a imprensa por assistir à proliferação do crime com vendas nos olhos. 

Estreou no Brasil em 7 de janeiro de 2016